Faça o favor de me trazer depressa | A TARDE
Atarde > Muito

Faça o favor de me trazer depressa

O garçom transita entre as mesas entulhadas no salão e ouve fragmentos de diálogos dos clientes

Publicado domingo, 14 de janeiro de 2024 às 10:00 h | Autor: Franklin Carvalho*
Confira a crônica deste domingo
Confira a crônica deste domingo -

O garçom transita entre as mesas entulhadas no salão e ouve fragmentos de diálogos dos clientes, homens e mulheres.

— Meu pai não gasta com Natal, Carnaval, essas folias. Espera passar a data e aproveita as promoções de chester, de roupa, de tudo. Só ele tem dinheiro depois das festas.

— Minha nova música é “Tubiruteté, Tubiruteté. Cocada, tabaco, cachaça na boca. Encher a caneca e soneca depois. Tubiruteté”… Aí entra a segunda voz…

— Não importa se foi comprado. Importa que o time tá na série A!

— Vocês, que são baianos, sabem como descubro meu orixá?

O garçom transita no salão e desce e sobe várias vezes três degraus para a calçada, onde há mais mesas. Ouve fragmentos de diálogos.

— Eu só tinha nove anos e sentia uma pena da vizinha… O marido foi embora e deixou três crianças pequenas. A boba nem pedia pensão, apaixonada. Os gatos destruindo o sofá, os meninos sem banho, ela ouvindo Julio Iglesias.

— Já pedi a minha calça três vezes, e ele não devolveu. Ontem fez esse post usando ela: 214 curtidas.

— Por trás desse estereótipo pejorativo existe uma tentativa de apagamento dessas camadas.

— Por mim você namora quem quiser. Mas foi catar logo minha vizinha?

— Os jovens inúteis, as crianças rebeldes, o miojo cada vez menor.

— O orixá depende do quê? É pelo dia do nascimento?

O garçom no salão e na calçada do bar, sobe e desce escadas, e atravessa a rua para a calçada em frente, onde o dono do negócio colocou mais mesas. Fragmentos…

— Otário de verdade se dedica, cria notícias, mistura outras, se empolga, tem certeza.

— Eu tenho várias músicas prontas, mais de 200. Só não arranjei empresário. Tem um reggae que é assim…

— Comigo você era discreto. Agora, com essa, aí pelas esquinas. Já pensou se tua mulher te pega?

— Para conhecer um terreiro, precisa pagar?

O garçom está exausto, já recolheu as mesas e cadeiras da área externa. É quase meia-noite e a clientela míngua em dois pequenos grupos embriagados no salão. Restos de diálogos.

— Amarrei fitinhas do Bonfim naquela igreja do Pelourinho, aquela da ladeira, e na Barra, num monte de lugar. Amanhã viajo protegido. Adeus Bahia, adeus férias.

— Tem certeza que a conta deu tudo isso?

*Franklin Carvalho é escritor, autor de Tesserato - A tempestade a caminho (Noir Editora)

Publicações relacionadas