Frentes de combate ao racismo numa sociedade que reproduz a discriminação

Publicado domingo, 14 de novembro de 2021 às 06:00 h | Atualizado em 13/11/2021, 12:30 | Autor: Gilson Jorge

O adolescente Gustavo Melo tinha dificuldades em entender por que sua mãe e seu pai, um policial militar, insistiam para que ele só saísse de casa bem arrumado, não fosse à rua com chinelos e, principalmente, evitasse colocar a mão no bolso em lugares públicos. Não fazia sentido.

Uma vez, diante de sua desobediência, começou uma discussão sobre essa história de onde manter as mãos. À falta de um argumento lógico, o tom de voz de sua mãe foi se elevando até que ela deixasse explícito o seu temor de que alguém pensasse que ele estava armado. “Meu pai tinha todos os códigos do que os policiais achavam suspeito”, conta.

Em suas idas a uma extinta livraria na Pituba, com um amigo que tem a pele mais clara, percebeu que o segurança sempre colava nele. O interesse por justiça social o levou a cursar direito. Quando ia ao fórum buscar processos, ainda estagiário, de terno e gravata, via seus colegas brancos receberem a documentação com facilidade enquanto ouvia da atendente que ela não entregava papéis a office-boys.

Gustavo optou pelo teatro e mudou-se para o Rio, fez novelas na Globo e Record, mas a pressão sobre o seu corpo não diminuiu. A sensação de ser monitorado, ainda mais quando na companhia de outro homem negro, já o levou a falar mais baixo do que o normal ao entrar em certos ambientes. “A gente começa a ter medo do medo que têm da gente” conta.

Neste domingo, completa-se o centenário de morte da Princesa Isabel, signatária da Lei Áurea. Mas a associação da imagem de pessoas negras a contextos negativos, como o crime e as posições de subalternidade está longe de ser enterrada. Prova disso foi o velório da cantora Marília Mendonça.

O padrasto da cantora, o ex-jogador de futebol Deyvid Fabrício, um homem negro de 29 anos, que aparece nas fotos ao lado do caixão com Ruth Dias, acabou sendo creditado como segurança da família em algumas publicações.

Mas o julgamento pela aparência e o preconceito racial não se limitam a erros de informação. Em 2019, das 5.153 prisões em flagrante feitas por PMs, 97,8% eram negros, segundo dados colhidos pelo Relatório das Audiências de Custódia, preparada anualmente pela Defensoria Pública do Estado.

O levantamento evidencia a facilidade com que pessoas negras são abordadas por PMs, levadas a audiência e muitas vezes à prisão, após decisão judicial, sem que haja provas de que tenham cometido crimes. A maioria, rapazes com menos de 25 anos.

“O nosso sistema penal escolhe quem vai perseguir, baseado na cor e idade. Os julgadores têm seus conceitos, sua visão de mundo”, afirma o coordenador criminal da Defensoria, Marcelo Saporito.

Uma abordagem policial, uma discussão com a PM, e a pessoa pode ser conduzida para a Central de Flagrantes do Iguatemi, sob risco de perda de liberdade.

“Houve o caso de um rapaz que estava trabalhando na pintura de um apartamento e na hora do almoço foi para a rua com a roupa suja de tinta e foi abordado pela polícia”, declara o advogado e arquiteto Marcos Alan da Hora, do Coletivo de Entidades Negras (CEN).

Ativismo

Cansado de se deparar com o desrespeito, o ator Gustavo Melo, que interpretou um policial corrupto em Ó paí, ó, partiu para o ativismo. Fez mestrado e doutorado sobre estudos da diáspora negra na Universidade do Texas e conectou-se com a histórica relação familiar com o candomblé, que havia sido abandonada por parentes em função do preconceito contra os cultos de matriz africana.

Desde 2016, Gustavo é babalorixá do Terreiro Ilê Axé Omi Ogun siwajú, na zona rural de São Félix. O mesmo terreiro que foi do seu bisavô. “A arte e a religiosidade são dois focos muito importantes no meu engajamento no combate ao racismo ou à anti-negritude, que é uma estrutura não só de dominação, mas de sentidos”, afirma.

Pai de um menino de oito anos, o advogado Leandro Oliveira considera que, se quer ver o filho crescer em um mundo com mais dignidade, é preciso reagir agora.

Leandro virou notícia no dia 31 de julho deste ano após levar um murro na cara de um policial em Madre de Deus e foi conduzido à delegacia de Candeias, depois de uma discussão sobre o não pagamento de uma tarifa extra de R$ 25 para a travessia de Paramana a Salvador, que o advogado se recusou a pagar por considerar abusiva.

De acordo com ele, o policial, em um primeiro momento, exigiu a sua documentação, mas teria ficado ainda mais irritado ao ver a carteira da OAB.

“A polícia precisa parar de fazer do preto um suspeito eterno”, declara o advogado, ressaltando duvidar de que um advogado branco fosse agredido fisicamente em uma situação semelhante. “Mesmo depois de ver o documento, ele continuou me tratando como um animal”.

Cabula

A execução de 12 jovens negros pela polícia em 6 de fevereiro de 2015, no bairro do Cabula, levou à criação naquele mesmo ano de uma comunidade virtual no Facebook chamada Afrobapho, em que jovens negros e LGBT se uniram para combater a dupla discriminação.

“O racismo é um sistema que estrutura a sociedade. Em algum ponto das nossas vidas, vai ter uma chavezinha que vai virar e a gente vai dizer que está sendo vítima de racismo”, uma constatação que chegou a Alan Costa na adolescência, com seguranças seguindo-o nas lojas e abordagem policial inadequada.

Para ele, o racismo é passado pela família, então, a criança também está propensa a cometer atos de injúria racial. Na escola, por exemplo, já sentia a exclusão pela estética.

“Eu comecei a ligar as questões raciais a outras questões que me atravessam, como homem negro gay afeminado, que entra em confronto com o que é construído a partir da ideia do homem negro. A sociedade coloca o homem negro a partir de um viés animalesco, de surpervirilidade, supermasculinidade”, afirma.

Alan também vê o processo racista estruturando as questões de gênero e sexualidade: “Você é pensado para ser o homem gay ativo e viril. Todas as coisas que rompam com esse modelo colocam você numa margem”.

O Afrobapho começou a se tornar popular fora das telas de computador em 2016, quando integrantes do coletivo fizeram uma manifestação em frente ao Quartel da Polícia Militar dos Aflitos, protestando contra a execução dos jovens do Cabula, mas trazendo as pautas LGBT.

“Havia pautas do Movimento Negro que não traziam uma intersecção com questões de gênero e sexualidade. E dentro do movimento gay, que é um movimento ainda muito branco, é muito difícil que eles realizem uma conversa séria sobre como o racismo impacta a construção de gênero e sexualidade”, pondera.

Formado em Letras pela Uneb, Alan sentiu a necessidade de que as discussões intelectuais na academia sobre racismo chegassem à sociedade como um todo. E destaca os avanços ocorridos na era digital.

“Uma das vantagens dessa geração é justamente ter essas discussões na tela do celular. Eu acredito que foi a força das redes sociais que levou os meios de comunicação tradicionais, como rádio e TV, começarem a incrementar a discussão sobre a questão racial”, avalia, citando que o Afrobapho surgiu em meio à cultura dos textões de desabafo no Facebook.

Hoje, o foco do coletivo é levar as discussões sobre racismo, gênero e sexualidade de forma lúdica, através da arte.

Um dos pontos que ele costuma abordar é que a morte causada pelo racismo não vem apenas da execução física e as altas taxas de assassinato de jovens negros, mas também através da perda de saúde mental, da diminuição da autoestima, que podem acarretar adoecimento e suicídio.

Avanços

A professora Dyane Brito, que fez sua tese de doutorado sobre a política de cotas e a permanência de estudantes cotistas na universidade, destaca que houve avanços no combate ao racismo.

No ano que vem, comemoram-se 10 anos de política afirmativa – a Lei 2.711 (Lei de Cotas) é de 2012. “Há todo um debate nas universidades. As cotas precisam continuar, mas estamos longe de ter atingido a situação ideal”, afirma a professora.

Por outro lado, ela manifesta preocupação com o avanço da violência contra as mulheres negras. “Os dados indicam que se houve redução no assassinato de mulheres brancas, as mortes de mulheres negras aumentaram. É preciso investigar a causa”, pontua.

Integrante do projeto Salvador Escravista, criado no ano passado, o historiador e professor Carlos Silva Jr. ressalta que o Brasil teve mais de 300 anos de escravidão e que ela foi abolida há 133 anos.

“A gente fez o Salvador Escravista para mostrar como a escravidão está tão embrenhada no tecido social brasileiro e baiano, que você continua vendo a reprodução de uma memória escravagista, uma rua em homenagem a Princesa Isabel, Barão de Cotegipe, um escravista convicto”, diz o professor, ressaltando que o projeto tem o objetivo de disputar a memória da cidade.

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