Fundador da Pinacoteca do Beiru transforma a realidade com uma “escultura social”

Publicado segunda-feira, 22 de novembro de 2021 às 06:00 h | Atualizado em 21/11/2021, 19:50 | Autor: Gilson Jorge

Numa manhã de sábado, em 2015, Anderson AC chegou à Rua Irmã Dulce, bairro de Tancredo Neves, com um caminhão em que colocaria o material elétrico estocado em um imóvel durante anos pelo seu antigo dono. Foram muitas promessas de desocupação até que o artista pôs uma data limite. Se o espaço não fosse esvaziado, ele o esvaziaria.

O prédio de esquina com a Estrada das Barreiras, uma autoconstrução de três andares com telhado de zinco, foi dado como pagamento de honorários ao advogado Lauro da Silva Alves, tio de Anderson, que se tornou uma lenda no bairro depois de atender por mais de duas décadas a preços módicos, e até de graça, moradores encrencados com a polícia e a justiça. Seu Lauro virou uma lenda.

Anderson, que preparava o material para uma exposição na França, precisava de um lugar para trabalhar e seu tio lhe vendeu a casa por R$ 10 mil. O novo ocupante do imóvel passou a ser reconhecido como “o sobrinho do advogado” nas imediações, o que era promessa de boa vizinhança. Mas nos últimos anos, o artista passou a ser admirado por seus próprios feitos, ao abrir o imóvel para oferecer oficinas de pintura aos jovens do bairro.

Desde agosto deste ano, o prédio de fachada verde, ao lado da viela que é praticamente ignorada pelo GPS, traz em uma de suas paredes um cartaz com o nome Pinacoteca do Beiru. “Quando ele começou a pintar aqui, percebeu o quanto a comunidade estava interessada em artes visuais e passou a sonhar com um espaço assim. Sonho que ele realizou este ano”, conta a produtora cultural Juliana Freire, parceira no projeto e companheira dele.

O imóvel foi barato, mas a instalação no bairro foi também uma opção política do artista que é uma grife e tem seu trabalho chancelado pela prestigiosa Galeria Paulo Darzé.

Sobre ele, o diretor do Museu Afro-Brasil em São Paulo, o baiano Emanoel Araújo, já declarou: “É um artista proeminente, com uma potente produção marcada pela pintura grossa e expressionista”. Araújo também destaca a sua “consciência sobre as contradições de um mundo cheio de diferenças sociais e estranhezas religiosas”.

Em seu currículo, exposições em Estrasburgo, cidade referência em arte na França, na sede do Conselho da Europa, órgão de defesa dos direitos humanos e da democracia; e na paulistana Galeria Soso, especializada em arte contemporânea africana e originária de Luanda, onde Anderson fez residência artística.

A arte tornou-se um caminho inevitável para Anderson na juventude, quando um tio artesão lhe deu a letra. Ele tinha talento e interesse em diversas linguagens, mas precisava descobrir o seu caminho.

“Houve um entendimento de que eu não tinha mais para onde voltar”, afirma Anderson, sublinhando que como jovem da periferia que tinha descoberto suas habilidades e as possibilidades da arte, não imaginava a hipótese de ir disputar uma vaga em escritório. “Eu não faço arte para decorar parede”.

A história de vida e a arte de Anderson estão impregnadas de perdas. Em 2003, sua mãe morre de câncer. No ano seguinte, o pai tem um infarto e morre. Em 2007, o irmão mais velho, uma referência para ele equivalente ao próprio pai, tem a casa invadida durante uma reunião com amigos e todos são executados.

O artista herda todos os álbuns fotográficos e documentos da família e começa a produzir obras de arte sobre a ausência, em ruínas de uma fábrica em Santo Amaro e em outras localidades do Recôncavo Baiano.

Sincronicidade

Anderson define seu trabalho através da sincronicidade. Com os registros da família em mãos, pensou: “Se eu não fizer nada, vou sucumbir. Faço arte como uma luta contra o apagamento histórico da população preta, periférica e afrodiaspórica. Fazer arte, para mim, não é só pintar as telas. A própria ação desse espaço aqui é uma obra de arte. Para mim, funciona como uma escultura social”, diz o artista.

O Beiru, onde ele trabalha, esteve por muitos anos estigmatizado por conta da violência. Nos anos 1990, a mãe de Anderson tentou manter uma bomboniere nesse mesmo prédio, mas o comércio não foi adiante justamente por questões de segurança. “A gente morava em Brotas e minha mãe não deixava eu vir com ela para cá”.

Em meio à conversa no andar térreo, Rosileide Almeida, moradora do Beiru há 32 anos, entra na pinacoteca saudando Anderson e Juliana em voz alta. Agradece a acolhida dada ao filho Rai Almeida, um jovem com interesse nas artes visuais que fez oficina com o artista. “Aqui nunca teve esse trabalho que ele faz. O primeiro que Deus mandou é ele. Aí está conquistando as crianças, né Juli?”, diz ela, aumentando o tom de voz ao pedir a anuência de Juliana.

No primeiro semestre de 2022, a Pinacoteca do Beiru vai apresentar uma exposição fotográfica de Jefferson Araújo de Carvalho, 23 anos, morador do bairro, cadeirante. “Eu quero mostrar outras pessoas com deficiência que trabalham, mostrar que somos capazes”, declara Joaquim, depois de assinar o termo de realização da exposição através da Lei Aldir Blanc. Se o tio livrou moradores do bairro da prisão, Anderson AC sonha em ajudá-los a criar asas.

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