Game baiano Árida conquista fãs no exterior

Publicado quinta-feira, 10 de outubro de 2019 às 09:00 h | Atualizado em 21/01/2021, 00:00 | Autor: Adriano Motta

Se a produção baiana de games  precisava de um case para ganhar visibilidade, acaba de ter um. Desde seu lançamento, no mês de agosto, Árida atrai jogadores do mundo inteiro por sua proposta diferente do padrão temático na indústria global. No jogo baiano, encarnamos Cícera, uma menina do sertão. Ao lado de seu avô Tião, ela tenta fugir da seca que assola a região até os dias de hoje. 

Do despretensioso protótipo inicial, Projeto Sertão, até sua versão final, jogada no Brasil e no mundo, foram quatro anos de desenvolvimento, caminhada e “algumas pancadas pelo caminho”, lembra Filipe Pereira, idealizador do game.

Embora retrate o Brasil, 53% dos jogadores de Árida são estrangeiros, majoritariamente norte-americanos e alemães. O jogo  está concorrendo em quatro categorias no SBGames, uma das principais premiações da América Latina, que acontecerá no final de outubro. Além disso, também levou sua produtora, a Aoca Game Lab — que é membro do Comunidades Virtuais, grupo de pesquisa do curso de jogos digitais da Universidade Estadual da Bahia (Uneb) —, à Gamescom, na Alemanha, um dos maiores eventos do mundo sobre jogos. 

Desde a criação do Comunidades Virtuais, em 2002, foram lançados mais de 40 jogos pela incubadora. Para Victor Cardozo,  game designer da Aoca, a indústria de jogos na Bahia passa por uma fase de transição, com pessoas novas começando a fazer produtos, mas ainda sem muito sucesso. Árida representa um salto nesse cenário. 

Imagem ilustrativa da imagem Game baiano Árida conquista fãs no exterior
Vinícius Santos, Tharcísio Vaz, Gildevan Dias, Filipe Pereira e Victor Cardozo estão trabalhando na sequência de Árida

O jogo começou a ser produzido graças ao desejo de Filipe de criar algo relacionado à história da Bahia. Inicialmente, a intenção era que o jogo se passasse durante a Guerra de Canudos, mas na fase da pesquisa a equipe percebeu a necessidade de abarcar outras regiões do sertão.

A identificação do público com os personagens é um dos diferenciais, conforme diz Tharcísio Vaz, desenvolvedor da trilha sonora. “O grande mérito do Árida é que a gente conseguiu trazer pessoas que nem são chegadas em jogos para jogar, por conta da temática”. A ambientação é um dos principais destaques: o som das galinhas rondando os lugares e até a presença de um oratório para os personagens ajudam a levar os jogadores para o sertão do século 18. 

Esses efeitos de realidade foram conseguidos graças aos dias que os criadores passaram em Canudos estudando traços da região para incorporá-los no jogo. Da visita saiu a inspiração para um dos principais personagens: o avô da Cícera, Tião. “Tínhamos uma ideia do que seria o Tião, mas chegamos lá  e conhecemos um senhor igualzinho ao Tião. Sentimos que estávamos no caminho certo”, conta Pereira.  

Escolhas

Cícera, a protagonista, é um sopro de novidade no mundo dos games. A adolescente nordestina, negra, é muito diferente do padrão dos personagens. Para os membros da Aoca, foi uma escolha política, pois sempre quiseram mostrar pessoas não retratados nessa indústria. Também é o caso de Firmina, a curandeira que conhece tudo sobre o sertão.  O game designer Vinícius Santos afirma que muita gente conseguiu se ver ali dentro. “Uns se identificavam com Cícera, outros com Firmina”, conta. 

Mas até  pelo fato de mostrar o Nordeste, a equipe  teve de lidar algumas vezes com demonstrações de xenofobia nas redes sociais. “Já vi comentário do tipo: ‘Aposto que esse jogo no final é para ganhar Bolsa Família’”, lamenta  Pereira.

A expectativa do público pelo jogo começou a ser sentida desde o final do ano passado, após a ex-deputada Manuela D’Ávila retuitar uma reportagem sobre o jogo. O movimento nas redes foi tão intenso que forçou uma pausa nas férias da equipe para atender às perguntas das pessoas sobre o game. O trailer de divulgação teve 38 mil visualizações no YouTube e, a partir daí, ganhou matérias na mídia. A demo de Árida movimentou streamers do mundo inteiro para gravar gameplays do jogo.

“A coisa mais engraçada é ver polonês tentando falar mandacaru”, conta o idealizador. Árida é jogado até mesmo na China, onde também obteve repercussão. Tanta que acabou forçando a empresa a incluir o mandarim entre as futuras traduções. Com recursos obtidos através da Ancine, eles estão trabalhando em uma sequência para a história de Cícera, ainda sem previsão de lançamento. 

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