MUITO
Garotada se liga cada vez mais no digital

Por Yumi Kuwano

Febre no mundo inteiro, o aplicativo Tiktok ganhou ainda mais usuários durante o tempo de confinamento, quando passou a ser um “espaço” de lazer para quem estava em casa, sem muitas opções.
O app permite a criação de vídeos curtos, e o humor é um grande fator de sucesso. Ele conquistou também as crianças. Mesmo as mais novinhas sabem mexer em todas as funções do aplicativo, melhor que muito adulto por aí.
Com apenas 6 anos, Isabelle Almeida faz tutoriais de maquiagem, vídeos de dança e dublagens com facilidade para o Tiktok. Tímida, ela se solta mesmo ao se preparar para gravar. A maquiagem fica escondida com a mãe para que ela não use sem o consentimento, e a habilidade com os pincéis revela a vaidade.
De acordo com Lene Almeida, mãe de Isabelle, ela passa quase todo o tempo livre no celular e assistindo à televisão, mas faz questão de brincar fora do mundo virtual. Quando questionada se prefere o Tiktok ou brincar com os amiguinhos, responde sem pensar: “Gosto mais de brincar”. Sozinha, ela mesma grava e edita os vídeos que são monitorados e alguns até excluídos pela mãe, quando não acha algo adequado.
A pequena Anna Sofia Lima, 6, demonstra logo no início da conversa a sua espontaneidade para as câmeras, mais até do que costuma ser quando está pessoalmente com outras pessoas. Prefere ela mesma mostrar os vídeos que mais gosta no Tiktok. Criou a conta no início da quarentena, por influência das primas.
Para realizar as gravações, a mãe, Hilana Lima, ajuda no processo de seleção dos vídeos que serão gravados e filma tudo, mas eles só são publicados após o aval de Anna Sofia, que é bem exigente. “Para dublar, às vezes é difícil, tem que fazer várias vezes, porque o vídeo é difícil. Não fica certinho, mas fica quase”, conta.
Anna não tem celular próprio e usa o dos pais, quando eles autorizam. Lá, todo mundo participa, e o aplicativo possibilita uma interação entre a família: “Ela gosta de fazer vídeos de brincadeiras com o pai, tem vários postados”. A preocupação de Anna Sofia é se ela está sendo engraçada: “Será que as pessoas estão gostando de mim e me achando engraçada, mãe?”, pergunta constantemente, diz Hilana.
Outra coisa que encanta e incentiva os pequenos é o YouTube. Se deixar, eles passam horas assistindo a Luccas Neto (32 milhões de seguidores), Maria Clara e JP (22 milhões) e outros youtubers do momento.

A regra do equilíbrio
Os pais acham o Tiktok mais seguro que outras redes sociais. E contam que o controle sobre o conteúdo e as regras estabelecidas pelas plataformas são mais efetivas para a segurança dos filhos. “Consigo escolher o que ela vai assistir, os tipos de vídeo que aparecem. No Instagram, por exemplo, é difícil controlar onde ela entra, porque pode aparecer de tudo”, diz Lene.
A idade mínima para usar o aplicativo, de acordo com a plataforma, é 12 anos, mas isso não impede que crianças criem uma conta. Para menores de 18 anos existe a opção de controle parental com a sincronização familiar, que, de acordo com o aplicativo, “permite que pais e adolescentes personalizem suas configurações de segurança com base em suas necessidades individuais”. Limite de tempo no app, restrição de conteúdos inapropriados e controle sobre quem pode enviar mensagens são algumas das ferramentas disponíveis.
Além de estarem expostas aos riscos causados por pessoas mal-intencionadas, as redes sociais podem trazer ainda um risco psíquico para as crianças. O psicólogo Alessandro Marimpietri alerta para os malefícios que a exposição exagerada às redes sociais de crianças e adolescentes pode causar, sendo prejudicial no desenvolvimento. “O campo digital é muito amplo, oferece diversas experiências, e um dos benefícios é o acesso à informação, a conexão com pessoas distantes. Os riscos estão ligados ao tempo de exposição em excesso, à falta de filtro, ao imediatismo e à substituição da experiência real pela digital”, analisa.
Sobre as redes sociais, o adulto deve mediar o uso para crianças e adolescentes: “Elas promovem diversas exposições que nem sempre a criança e o adolescente estão preparados. Por isso, cada pai deve se perguntar sobre os riscos e os possíveis benefícios e se a criança tem condição e necessidade de viver isso”.
Para ele, às vezes, é preciso deixar o filho de fora dessa engrenagem, por ele não ter recursos suficientes para lidar com os desafios que a exposição traz.
Mas claro que isso fica a critério de cada família. “Uma criança de 12 anos pode ter uma condição psíquica, social, educacional, relacional que dá à ela, talvez, algum recurso para administrar melhor do que outra de mesma idade, mas acho que os critérios que podem ser levados em conta são aqueles das próprias redes”, comenta.
De acordo com o psicólogo, um outro problema é que a criança que tem o desejo de se comunicar, de mostrar seu cotidiano, está, muitas vezes, apenas dando voz a um cenário cultural de espetacularizar as práticas privadas, o que pode criar uma dificuldade em separar o que é realidade e o que é a representação dela.
LimitesTatiane Correia sabe da importância de impor limites ao uso das tecnologias para Diego, de 10 anos. Tudo tem hora, e o celular passa boa parte do dia bloqueado para uso.
Ele ganhou o aparelho no aniversário, no mês passado, e vem mostrando que sabe lidar bem com os limites impostos pelos pais. “Pensamos muito se dávamos um celular agora, mas chegamos à conclusão que não dava mais para adiar, mantendo todas as regras”, conta.
Diego tem quase 500 seguidores no Tiktok e usa o app há quase um ano, por influência dos primos. O que ele gosta mesmo é de fazer dublagens engraçadas: “Gostava bastante de internet mesmo antes de Tiktok, gosto de fotos e quero criar um canal de YouTube. Isso que me fez gostar do aplicativo também, os youtubers”, diz.
E existe toda uma estratégia para ganhar novas curtidas: “Quando eu vejo que o vídeo tem muitos likes, eu começo a fazer outros do mesmo tipo, porque sei que as pessoas gostam”.
O horário de uso permitido para Diego, durante a semana, é de duas horas depois da aula e à noite, depois dos estudos, das 18h às 20h30, hora que vai para a cama. Na casa de Isabelle a regra é: ninguém usa a internet depois das 23h, horário em que é desligado o sinal, e inclusive os pais devem respeitar.
As regras são importantes e a relação deve ser de diálogo, sempre. Alessandro ressalta: “A gente comete o erro de dizer que nessa idade é nativo digital e tem a sensação de que eles já são preparados para o mundo digital, mas não é assim. Nascer junto com essas tecnologias não faz com que as crianças já saibam tudo”.
Fama
Luísa Oliveira, 14, se assustou com a quantidade de seguidores no Tiktok que vem ganhando. São mais de 135 mil seguidores e 2,8 milhões de curtidas em 700 vídeos postados na plataforma. Usuária desde o formato antigo da plataforma, que levava o nome de Musical.ly, ela sempre foi conectada à internet.
O que aconteceu com Luísa foi que um vídeo seu com uma brincadeira sobre cabelos cacheados viralizou e da noite para o dia ela ganhou três mil seguidores. Até fã-clube ela já tem. “Vimos que estava dando certo e a incentivo bastante”, diz Anayran Oliveira, mãe da adolescente.
Segundo a mãe, desde pequena Luísa tinha um perfil criativo e era ligada a tudo relacionado à tecnologia. “Gravava vídeos, já tive um canal no YouTube também, mas meus colegas da escola faziam um certo bullying porque eu postava na internet, aí parei, mas sempre gostei”, lembra.
Os vídeos que mais gosta de fazer são os de dança, o seu forte. É com dança e internet que pretende trabalhar no futuro, inclusive: “Algumas coreografias levo 15 minutos para aprender e outras chegam a duas horas de dedicação”. Por dia, ela posta três vídeos, que seguem alguns critérios para ter maior visibilidade, como melhores horários e hashtags.
A preocupação em relação ao uso das redes sociais sempre existiu para Anayran, mas ela diz que a filha tem uma relação consciente com a internet. “Eu monitorava os comentários, os seguidores, bloqueava quando via algo maldoso. Infelizmente, existem pessoas ruins, né? Mas sempre conversei bastante com ela”, pontua.
Famosos ou não, o equilíbrio e acompanhamento dos pais devem ser constantes. Sobre o impacto do uso das redes sociais para a vida adulta no futuro, Alessandro diz que não se pode prever o futuro, mas garante que sociedades que priorizaram e respeitaram a infância funcionam com melhores índices de educação, com menores índices de violência, com garantia de direitos estabelecidos: “A preservação da vivência da infância é crucial para a sociedade, não apenas para as crianças”.
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