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Groove de rua

Publicado quarta-feira, 18 de março de 2015 às 11:24 h | Atualizado em 18/03/2015, 11:37 | Autor: Eron Rezende
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Faltavam dez minutos para o trio elétrico partir rumo à Praça Castro Alves, na segunda-feira de Carnaval, quando Igor Kannário atendeu ao telefonema da mãe e trancou-se numa saleta no interior do trio. Beto Bomfim, o empresário, olhou para o relógio, pediu aos músicos que tomassem suas posições no andar superior e recostou-se ao lado da saleta, esfregando as mãos no rosto. "Estou exausto", disse. "E nem começou".

Acostumado a fazer shows improvisados, Kannário havia ensaiado estoicamente aquela apresentação - a ordem das canções, os discursos, os agradecimentos. Uma semana antes, ao receber R$ 38 mil da prefeitura de Salvador para puxar o trio sem cordas, o músico titulado 'a voz da periferia' deu início a uma agenda de ensaios diários. "Ele escolheu a dedo o que irá cantar porque quer contar sua história através do repertório", disse Bomfim, emendando que, antes de entrar no trio, Kannário, outrora um enfant terrible, havia ido ao comando da Polícia Militar congratulá-lo pelo trabalho.

Assim que as guitarras começaram a saudar o público de 50 mil pessoas, algo que a imprensa local batizaria de "maior pipoca da história do Carnaval", Kannário deixou a saleta, limpou o rosto e mirou-se no espelho. "Minha mãe está em casa, orando", disse. "Ela falou que minha vida vai mudar". Às 15h, o músico subiu a escada em direção ao palco e, posicionado no ponto mais alto do trio batizado de Feroz, saudou São Cristóvão e uma infinidade de subdivisões da periferia de Salvador.

Ficha

Kannário tem 30 anos - 22 de carreira - e uma rosa vermelha com a inscrição 'favela' tatuada no peito. A voz rouca, porém potente, puxou um trio pela primeira vez aos 10 anos, num bloco de rua no bairro da Liberdade, onde foi criado. Na época, ele  cantava profissionalmente com um alvará do Juizado da Infância e da Juventude. Ouvia Luiz Caldas, Sarajane e Gerônimo. Mas seu ritmo já era o pagode.

"Eu era tão novo que, quando me apresentava, chegava a ficar estranho", disse ele, duas semanas após comandar o desfile mais comentado do Carnaval. Sentado no terraço de um edifício na orla do bairro de Jardim Armação, para onde se mudou há um mês, a fim "de ficar mais sossegado, porque o assédio tem crescido", Kannário recordou a primeira letra de pagode que escreveu: "Eu tinha 11 anos. O refrão, 'eu quero é prova e um real de Big Big', fazia menção a um ditado popular. As crianças iam ao delírio com aquilo".

Coisa do Samba, Swing do P. e Patrulha do Samba foram as bandas pelas quais ele passou até chegar à Bronkka, com a qual conseguiu popularidade e, também, páginas policiais. Os motivos são variados: porte de drogas, desacatos, tumultos em hotéis. Numa dessas confusões, após uma discussão nos bastidores de um festival de pagode, em 2012, já em carreira solo,  tentou agredir o cantor Edcity - a quem Kannário hoje classifica como "o primeiro músico da Bahia a representar a favela". 

"A diferença que existia entre a gente já foi resolvida. Foi algo do momento", contou Edcity à Muito. "Igor tem essa fama de ser polêmico, mas busca uma conscientização para seu público. As pessoas discriminam o pagode porque a origem   é a favela. Mas o pagode está na veia da Bahia".

Carnaval da paz

As duas últimas passagens de Kannário pela polícia ocorreram em janeiro deste ano por porte de maconha. Numa delas, o músico foi abordado com 28 gramas da substância. Após pagar fiança, ele ganhou liberdade provisória, um processo por tráfico de drogas e o cancelamento de sua participação no bloco As Muquiranas. Kannário - cujo sobrenome é adotado por inúmeros jovens em seus perfis nas redes sociais, tal qual uma insígnia que revela uma crença - estava, naquele momento, fora do Carnaval.

"Não sou traficante, sou usuário. A quantidade que os policiais acharam era maior do que  eu tinha", lembrou, em seu apartamento, onde quase nada sugere a ideia de decoração - imagens ainda não ornam paredes, caixas empilham-se umas sobre as outras e é  possível ouvir o eco das vozes. "Mas não tenho como provar. O que eu sei é que é do ser humano a inveja, a falcatrua".

São pecados que, para Kannário, margearam a sua adolescência de líder carismático de banda, já capaz de aglutinar um público fiel. "Diziam que eu não ia passar dos 17 anos, que seria um alvo fácil. Sempre vi o tráfico passar ao meu lado e tudo na favela é mais complicado. Para uma criança viver ali, tem que ter uma cabeça forte. Se não for assim, não passa mesmo dos 17".

Do processo por tráfico ao dia em que recebeu o aval da prefeitura, o nome de Kannário circulou como um hit carnavalesco. Num único dia, o prefeito ACM Neto recebeu, no Facebook, oito mil mensagens de fãs do cantor. O impasse sobre o destino da 'voz da periferia' no Carnaval de 2015 chegou ao fim com a imagem de Kannário e Neto abraçados e o lançamento de uma peça publicitária onde se lia "o Carnaval da paz com Kannário".

Ministério Público

Suas composições não são propriamente arautos da paz. Letras com trechos como "se vier, eu bagaço", "eu sou barril dobrado" ("barril" é uma gíria para "problema") e "tudo nosso, nada deles" (bordão usado em disputas entre facções) já foram rotuladas como estímulos à violência.

Numa coletiva  sobre o Carnaval, o secretário da Segurança Pública, Maurício Barbosa, atribuiu o aumento de 600% no número de feridos à bala, em comparação com o  ano passado, a "uma rivalidade entre quadrilhas estimulada por atrações musicais". Procurado, para ser mais claro sobre a ligação entre a música e os tiroteios, Barbosa não retornou ao pedido de entrevista.

"A linguagem de Igor Kannário é a mesma utilizada em  facções criminosas", disse o promotor de justiça Davi Gallo Barouh. À Muito, Barouh antecipou que o Ministério Público estuda mover uma ação contra o cantor. "As letras dele fazem apologia ao crime, e isso é crime".

Desde que teve a sua participação confirmada no Carnaval, no entanto, Kannário não poupa o discurso do "barril do bem". Palavras como "paz", "amor" e "Deus" entraram em seu discurso com assiduidade frenética. Em nenhuma entrevista concedida desde então (e  foram muitas),  deixou de citar tais palavras. "Quero que vejam que na favela tem gente educada. Foi uma lapidação de comportamento porque a favela merece", disse, encadeando a intenção de suas músicas. "Eu falo do crack, da paz, do preconceito. Não faço apologia, faço um retrato".

Entre os que apreciam seu retrato está MC Guimê, principal nome do funk ostentação, surgido na periferia de São Paulo. Para ele, que conheceu Kannário em fevereiro, o pagode do baiano "é popular porque fala verdades" e sua ligação com o crime é "um erro comum no Brasil". "A história do nosso país é  de criminalização da cultura popular. Pagode e funk são herdeiros dessa história".

Em maio, Kannário se apresentará na 11ª Virada Cultural de São Paulo. O evento, bancado pela prefeitura paulistana, teve a programação inicial discutida há três semanas, num encontro entre o secretário municipal de Cultura de São Paulo, Nadil Bonduki, e o secretário de Cultura  do estado da Bahia, Jorge Portugal. O abraço de políticos não é exatamente uma  novidade. Embora tenha omitido as siglas, Kannário calculou que há pelo menos quatro anos partidos o procuram para lançá-lo candidato  a vereador ou deputado estadual. "Eles chegam colocando preço: o que eu  vou ganhar, o que o partido vai ganhar. Mas eu não tenho preço". A política, no entanto, está no horizonte. "Se um dia eu achar que é certo, serei candidato".

A pedido de Muito, o sociólogo Milton Moura fez uma análise da inserção de Kannário (e sua gigantesca pipoca) na música baiana: "Ele representa o refluxo de um modelo no qual a classe média é a protagonista. O ponto de vista de Kannário não é o do negro, mas do favelado. Você pode até ver uma madame assistindo a um bloco afro, mas nunca irá vê-la assistindo a um show de Kannário, pois o protesto soa como um recado: 'Tomaremos o que é seu'".

Para a professora de antropologia na Universidade de Oxford Patricia Espinoza, colombiana que pesquisa o Carnaval brasileiro há dez anos e acompanhou este ano  o "fenômeno Kannário", "é cedo para achar um lado para o músico, mas, na 'marcha' comandada por ele, há uma reivindicação clara ao direito à cidade; de marcar presença e ocupar espaços urbanos privilegiados".

Asfalto

Anderson Machado é seu nome de batismo. O epíteto artístico vem de três lados. "Príncipe do gueto", alcunha que pegou fácil, surgiu em forma de música, presente de um amigo. "Kannário" foi sugestão do cantor Belo. E "Igor", um pitaco da mãe, cujo impulso era registar o filho assim.

Dejanira Machado é uma senhora atarracada, moradora de Itapuã, evangélica, pouco afeita a conversas  e que acredita que o filho "ainda cantará para Deus". Após diversas tentativas, disse o que achava da exposição alcançada: "É o momento dele; ele vai aproveitar toda essa popularidade para mostrar quem verdadeiramente é".

Para ver quem é Kannário no palco, hoje, é preciso  desembolsar R$ 40 mil, segundo  Lucy Bomfim, da Showmix,  que administra a carreira do músico há sete anos. Há poucos meses, o cachê estava na faixa de R$ 25 mil. Nos planos, já figura um DVD, com gravação prevista para este ano.

Naquela segunda-feira de Carnaval, após desfilar pelo  principal circuito, Kannário foi indagado por seu empresário se estava preparado para o que viria. Mais rouco  que  de costume, ele   batucou no peito onde se lê 'favela' e respondeu cantarolando Moraes Moreira: "Quem desce do morro não morre no asfalto...".

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