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Ialorixá Thiffany Odara luta para enfrentar a discriminação e ter reconhecimento

Publicado segunda-feira, 08 de fevereiro de 2021 às 06:05 h | Atualizado em 06/02/2021, 14:23 | Autor: Gilson Jorge
Filha de Oxum, ela é autora do livro Pedagogia da desobediência | Foto: Uendel Galter | Ag. A TARDE
Filha de Oxum, ela é autora do livro Pedagogia da desobediência | Foto: Uendel Galter | Ag. A TARDE -
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Uma mulher jovem e um adolescente postos à janela de casa percebem um automóvel estacionar à frente do terreiro Oya Matamba, em Portão, Lauro de Freitas. Os visitantes batem na palma da mão, gritam e tentam por telefone avisar que já chegaram.

A vizinha que observa a tentativa inexitosa de contato se solidariza e, do alto de sua casa, avista alguém no terreiro para quem começa a gritar e apontar que há gente esperando à porta.

China, membro da comunidade do terreiro, abre o portão ainda saboreando alguma comida e indica à reportagem o local onde deve esperar pela ialorixá Thiffany Odara. Um pátio coberto onde há duas cadeiras de madeira talhadas com símbolos do terreiro e outros elementos de culto.

Outro rapaz, Gabriel, traz uma xícara de café e informa que a sacerdotisa está se preparando. Pouco mais de 20 minutos depois, Thiffany aparece com seu traje sagrado e um colar de contas.

Deixa as sandálias na grama antes de entrar no pátio, mas não exige que os convidados façam o mesmo. Após um aperto de mão, senta-se em uma das cadeiras de madeira e começa a entrevista.

Levaram-se 11 anos entre o momento em que Thiffany Odara recebeu da avó a confirmação de que seria a sacerdotisa do terreiro e a cerimônia de posse, no último dia 12 de dezembro. Nesse hiato, o cargo foi ocupado por sua mãe.

“Esse processo reflete a negativa que a sociedade tem em relação às pessoas trans”, afirma Thiffany, que enfrentou o distanciamento de filhos e filhas de santo que frequentavam o terreiro. “A religião de matriz africana é acolhedora, mas não está em uma bolha”.

Thiffany, que aos 5 anos já sabia que era uma menina, aos 12 já vestia roupas femininas e que ingressou na faculdade de educação declarando-se uma pessoa trans, pontua que a sociedade é estruturalmente LGBTfóbica, machista e racista e que isso invade também relações espiritualizadas.

“Essa sociedade, através das pessoas que convivem no candomblé, fez muitos questionamentos para que eu não pudesse assumir”, relata. “As pessoas queriam que eu tomasse posse não como mulher trans, mas como homem”.

Axé

No processo para reunir forças e enfrentar a sociedade, Thiffany começou a assumir funções internas do terreiro em 2016, após o incentivo da mãe, até que no ano passado lançou o livro Pedagogia da desobediência, travestilizando a educação (Ed. Devires), considerou-se pronta para o embate.

O preconceito que dentro dos muros do terreiro voltou-se contra a sua identidade de gênero é uma constante, no lado de fora, contra o culto em si.

Em julho do ano passado, Thiffany, que é filha de Oxum, denunciou que funcionários da prefeitura de Lauro de Freitas se recusaram a entrar no terreiro para avaliar os danos provocados no imóvel por um córrego da região.

O terreiro, onde vivem 15 pessoas ligadas à religião, existe desde a década de 1960, quando sua avó paterna, recém-chegada da cidade de Cachoeira, começou a plantar o seu axé no município vizinho a Salvador.

Presente à cerimônia de posse no mês passado e amigo da ialorixá, o pesquisador acadêmico Claudenilson Dias descreve o momento como potente.

“Embora não estivesse presente a nata do candomblé de Salvador, havia lideranças religiosas importantes, mesmo em um momento de pandemia”, destaca o autor da dissertação Identidades trans no Candomblé de Salvador: entre aceitações e rejeições.

Integrante do corpo técnico do Centro de Promoção dos Direitos Humanos LGBT da Secretaria da Justiça, como educadora social, Thiffany participava, antes da pandemia, de eventos em espaços públicos como palestras sobre novos formatos de família e cursos de capacitação para o atendimento ao público LGBT.

“Como redutora de danos, ela trabalha no acolhimento de pessoas LGBT em geral, quando na verdade nem toda a população LGBT age da mesma forma com pessoas trans”, destaca Dias.

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