MUITO
Iniciativas pelo bem-estar animal precisam de doações

Por Alessandra Oliveira

Nas casas de Salvador, estima-se que haja mais de 430 mil cães e 86 mil gatos, com base em cálculos da Secretaria Municipal da Saúde (SMS). Fora dessas estatísticas, porém, estão os animais abandonados em abrigos e na rua, que têm se tornado um problema de saúde pública. Para tentar amenizar esse cenário, iniciativas em prol do bem-estar animal atuam na cidade à base de doações.
No portão do Abrigo São Francisco de Assis, mantido pela Associação Brasileira Protetora dos Animais – Bahia (ABPA-B), caixas com ninhadas inteiras e bichos idosos são deixadas semanalmente.
Desde o início do isolamento social para impedir a disseminação do novo coronavírus, em março, a prática aumentou. “Com medo da situação econômica, as pessoas consideram o animal como mais uma boca. Outros, por ignorância, acreditam que eles transmitem a doença”, lamenta Urânia Almeida, presidente da ABPA-BA. De fato, não há evidências científicas consolidadas que atestem essa transmissão.
No Brasil, praticar maus-tratos contra animais é crime. Com base na lei 9.605, de 1998, a pena é de três meses a um ano de detenção, e multa. Os governos de Salvador e da Bahia consideram o abandono como um dos maus-tratos.
A superlotação dos abrigos aumenta os riscos de transmissão de doenças e as brigas por convivência, espaço e comida. Os cerca de 350 cães e gatos acolhidos pela ABPA-BA hoje ocupam um terreno de 1 mil m². O ideal, para essa mesma população, seria 2 mil m², calcula Urânia
Segundo ela, o solo do local é de massapê e embaixo dele corre um lençol d’água. Quando chove, encharca. Nos dias quentes, racha. A situação levou a Defesa Civil de Salvador (Codesal) a condenar a estrutura em 2019 por conta do risco de mortes. “Está igual dominó empilhado, se tirar uma peça pode derrubar tudo”.
Qualquer reforma ou mudança do local do Abrigo São Francisco de Assis custaria caro. Hoje, a ABPA-BA tenta fechar as contas do mês. Em fevereiro, dos R$ 43.559 devidos, R$ 40.479 foram pagos. Para ajudar, é possível doar valores avulsos ou periódicos ou apadrinhar animais. “Não precisa ser muito. A frequência é mais importante, pois garante a manutenção”, salienta Urânia.
Por conta da pandemia do novo coronavírus, as doações têm diminuído e as feiras de adoção não podem ser realizadas. É por meio delas e das redes sociais que cerca de mil animais da ABPA-BA conseguem um novo lar por ano.
Os adotantes costumam procurar um perfil restrito: filhotes ou adultos de pequeno porte (até 10 kg), com pelagem clara e que sejam ou pareçam de raça. Além disso, cachorros são mais procurados. “Há muitas lendas sobre gatos. Nas sextas-feiras 13, nem adianta levar os animais pretos para as feiras”.
Os candidatos à adoção são castrados, vacinados e vermifugados. Já os possíveis adotantes passam por uma triagem. Dentre os critérios estão espaço e tempo disponíveis. Tutores de gatos devem ter telas nas janelas dos apartamentos ou muro alto em casas.
O protocolo é o mesmo do gatil da Irmã Francisca, que atualmente abriga cerca de 300 felinos. Sem as feiras, uma média de três gatos é adotada por mês, enquanto sete são abandonados por semana no local, segundo conta a responsável pela ONG, Tânia Penalva.
Na quarentena, o gatil lançou uma campanha à procura de lares voluntários temporários. A medida é para ajudar na separação entre os gatos doentes e saudáveis, que, apesar da extensa área verde do gatil, se apertam nos 130 m² construídos de alvenaria.
Sem serviços básicos de energia elétrica e fornecimento regular de água, o gatil aceita também transferência bancária e está com financiamento coletivo online até 31 de abril. “Não existe nem apoio político, nem de clínica veterinária. É tudo pago por nós. Os governos cobrem apenas a vacina antirrábica porque também protege os humanos”, reivindica Tânia.
Procurada pela reportagem, a Secretaria Municipal da Saúde afirma que “até o momento não existe nenhum tipo de projeto para essa ajuda financeira a abrigos da cidade” e que “pesquisas de etologia e bem-estar animal desaconselham esse tipo de estabelecimento sem uma prévia estrutura do mesmo”. E que estão “sempre dispostos a ouvir as demandas e dentro das competências do órgão auxiliar essas instituições”.
Balaio de Gato
Com ajuda pública restrita, o gatil precisa de voluntários para medicar os animais, organizar as feiras, fazer entrevistas de adoção e administrar as redes sociais da ONG e do bazar online de arrecadação de fundos, o Balaio de Gato.
O gatil e a ABPA-BA têm a mesma média de abrigados. Porém, enquanto a associação contava com nove funcionários e 20 voluntários no cenário pré-pandemia, o gatil possuía dois funcionários e três voluntários. A dedicação não remunerada é de cerca de três horas semanais. “Sábado e domingo, nem sonhar”, lamenta Tânia.
“Uns não vão porque não querem ver os gatos sofrendo, com sarna. A maioria é porque quer fazer de longe, sem pôr a mão na massa. Os protetores de sofá”.
No Instituto Patruska Barreiro, somente ela e um funcionário têm tomado conta de 100 cães e 150 gatos. A ajuda foi reduzida junto com o início do isolamento social, em março.
A advogada por formação mora no mesmo sítio, de 3.800 m², que os animais resgatados. Com o costume de adotar os mais velhinhos, hoje é tutora de 15 cachorros e dois gatos.
O instituto funciona como uma casa de passagem, onde são resgatados animais com risco iminente de morte. “Aqueles que foram atropelados ou maltratados de uma maneira que, se não receberem socorro imediato, vão evoluir ao óbito”.
É preciso selecionar quem ajudar para não superlotar. “Não podemos colocar 20 cães em um cubículo”, defende Patruska, que presidiu a ABPA-BA entre 2009 e 2014, período em que as condições do local não eram muito diferentes de hoje, talvez piores.
Após o tratamento, os animais são postos para adoção. Os filhotes têm mais chance de ganhar uma nova família. “As pessoas acham que os adultos não conseguem se adaptar. Acaba que nos tornamos um abrigo para os mais velhos”, explica.
As despesas mensais, que ficam em torno de R$ 20 mil, são pagas pelas doações e com a renda de um petshop administrado por Patruska. Atualmente, o instituto mantém duas campanhas online. Uma para manter seus animais e outra para alimentar os de rua. “Com o comércio fechado na quarentena, os animais estão passando ainda mais fome”.
Castração
O instituto também apoia o projeto Castrampinha, que arrecada e vende material reciclável para custear a castração de animais de rua. Desde 2019, quase 12 toneladas de material foram coletadas e 150 animais, castrados.
Enquanto o cuidado permanente dos pets abandonados é mais complexo de ser feito, a castração gratuita ou a preços populares é ofertada por uma variedade maior de organizações em Salvador. A cirurgia pode ser feita na Universidade Federal da Bahia (Ufba) e na Universidade Salvador (Unifacs).
A prefeitura também disponibiliza o serviço. Cirurgias podem ser marcadas em clínicas parceiras, que, durante a pandemia, estão com a oferta diária reduzida. A castração itinerante, conhecida como castramóvel, está suspensa temporariamente para evitar aglomeração de pessoas, segundo a SMS.
Mas, enquanto o dispositivo municipal acaba de fazer sete anos, a Associação Célula Mãe promove castrações em massa gratuitas desde 2004. “Atuamos na causa-raiz do problema do abandono desde quando ninguém falava disso”, lembra a presidente Janaína Rios.
A instituição mapeia locais carentes com grandes agrupamentos de animais de rua e semidomiciliados. Os custos de captura, cirurgia e cuidados pós-operatórios são bancados pela Célula Mãe por meio de doações.
Somando consultas e cirurgias, já foram feitos mais de 70 mil atendimentos. Por mês, há capacidade para cuidar de 250 animais, dentre cães e gatos.
Antes de serem devolvidos às suas comunidades de origem, os bichinhos são tatuados com a sigla CM. Outra forma comum de mapear a população castrada, utilizada pelo gatil Irmã Francisca, é por um pequeno corte na orelha esquerda do pet, feito com ele anestesiado.
Apesar dos diferentes métodos de atuação, todas as iniciativas endossam a opinião de Janaína: “Uma sociedade civilizada não pode conviver tranquilamente com sofrimento dos animais. O bem-estar animal é uma questão de cidadania”.
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