Instituto Cervantes de Salvador reinaugura biblioteca com acesso livre

Fechada durante a pandemia, a biblioteca soteropolitana passou por uma reforma

Publicado segunda-feira, 27 de junho de 2022 às 06:00 h | Atualizado em 25/06/2022, 23:29 | Autor: Gilson Jorge
Espaço da biblioteca
Espaço da biblioteca -

Há um ano, em junho de 2021, o Instituto Cervantes do Rio de Janeiro recebia um lote de 4 mil livros transportados desde a Bahia para a sua biblioteca, então chamada de José Garcia Nieto (1914-2001), em homenagem ao poeta espanhol.

A coleção era parte do acervo particular da escritora carioca e membro da Academia Brasileira de Letras, Nélida Piñon, que havia sido doado em 2010 para o Instituto Cervantes Salvador, na Ladeira da Barra, que inaugurava então a sua biblioteca, batizada com o nome da autora de A Casa da Paixão, Vozes do Deserto e Um Dia Chegarei a Sagres.

Na última semana, o diretor geral do Instituto Cervantes no mundo, o poeta Luis García Montero,  reinaugurou presencialmente as duas bibliotecas – a do Rio, na segunda-feira, e a de Salvador na terça, com os nomes de seus patronos invertidos.

Fechada durante a pandemia, a biblioteca soteropolitana passou por uma reforma e, apesar da perda de títulos para o Rio (a maioria, na verdade, em português), segue como o principal acervo literário hispano-americano da cidade.

O acervo inclui obras dos argentinos Jorge Luis Borges e Julio Cortázar, e do colombiano Gabriel García Márquez – os três entre os mais procurados para empréstimo de seus livros –, além de autores espanhóis como Federico García Lorca, Camilo José Cela e Antonio Machado. 

“No total, são cerca de 7 mil títulos em livros físicos, 14 mil obras digitalizadas e todo o catálogo dos outros 85 Institutos instalados pelo mundo. Temos um sistema interbibliotecário que permite acessar livros que estejam disponíveis na China ou na Alemanha, por exemplo",  explica o diretor do IC Salvador, Daniel Gallego Arcas.

Parcerias

Em sua primeira visita ao Brasil, especialmente para a inauguração da biblioteca com o nome de seu pai, a presidente da Fundação José García Nieto, Paloma García, manifestou a intenção de promover parcerias entre as duas instituições. 

"Espero que a nossa relação não se restrinja à inauguração.  Pretendemos fazer coisas juntos.  Temos um concurso virtual de micropoemas, por exemplo, que está acessível”, afirma Paloma.

A fundação foi criada em 2012, 11 anos após a morte do poeta e depois que a biblioteca do Rio recebeu o seu nome, em 2006.  A entidade está encarregada não apenas de ajudar a preservar o legado do escritor, mas de promover eventos ligados à literatura, especialmente a poesia.

Ícone da poesia espanhola no pós-guerra, García Nieto também atuou como jornalista e editou a primeira revista espanhola dedicada à poesia.

Em 1943, fundou a revista Garcilaso, também   considerada o veículo oficial da poesia espanhola no período e, particularmente, do movimento cultural Juventud Creadora. Batizada em homenagem ao poeta espanhol do século 16, Garcilaso de la Vega, a revista foi um vetor de difusão da poesia neoclássica, em contraposição ao neorromantismo que dominava a Espanha anterior à Guerra Civil.

A revista deixou de circular em 1946 por dificuldades financeiras. Esta semana, um exemplar de capa comum da revista figurava à venda no site Amazon por R$ 1.038,00.

Antologia traduzida

Em 1996, García Nieto recebeu o Prêmio Cervantes de Literatura pelo conjunto da obra, e integrou a Real Academia Espanhola, o equivalente naquele país à Academia Brasileira de Letras.

Durante a inauguração da biblioteca, foi lançada a antologia poética A Orillas del Duero, de García Nieto, traduzida ao português por poetas soteropolitanos.

Sobre a troca de nomes das bibliotecas do Rio e de Salvador, Gallego atribuiu a mudança a uma reestruturação feita pelo Instituto. A Biblioteca Nélida Piñon, em Salvador, foi inaugurada em 2011 rompendo uma tradição.

Até então, todas as bibliotecas do Cervantes homenageavam autores de língua espanhola, como Carmen de Burgos (Recife), Angel Crespo (Belo Horizonte), Francisco Umbral (São Paulo) e José García Nieto (Rio de Janeiro).

Todos nascidos na Espanha. Filha de galegos, Nélida obteve cidadania espanhola em novembro do ano passado.

A biblioteca funciona de segunda a sexta, das 8h às 14h. A instituição está temporariamente sem bibliotecário e para atendimento é prudente agendar uma visita pelo telefone 3797.4661 ou pelo email [email protected]

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