MUITO
Invejável mãe e sogra
Confira a crônica deste domingo


Apresentei-me numa delegacia em razão de um B.O. registrado em 2021, com o qual tiveram tempo de lidar meia década mais tarde. A demanda deve ser enorme e os delegados certamente não se quedaram ociosos nesse ínterim. Felizmente, o dia de tratarem do meu caso me encontrou ainda respirando.
De cara, uma cidadã que se manteve anônima puxou conversa, definindo-se como boa mãe e boa sogra. Estava ali para exigir que o filho – um ótimo rapaz, casado há poucos meses – aceitasse sua mudança para a residência que divide com a esposa.
O papo não se estendeu porque meu assunto já longevo tinha horário marcado. À saída, encontrei a mulher de novo, agora informada de que seu problema competia ao Ministério Público. Boa mãe e sogra, comparece todo dia ao trabalho do filho para se queixar a seus colegas de que ele se recusa a tomar conta dela. Também bate ponto diariamente na academia onde a nora treina, divulgando que a víbora é a responsável pelo rapaz não querer que ela viva com o casal.
Acompanhou o menino por 28 anos, do nascimento ao matrimônio; até chupou catarro do nariz ingrato, temendo que sufocasse durante uma gripe. Não é hora de os papéis se inverterem? Tem família em Itaquara, uma casa que herdou do pai e vai deixar para o mal-agradecido.
Tá doida?!? Venda e torre o dinheiro em viagens, vá conhecer o Brasil e o mundo!
Nunca! Ele tem que cuidar de mim como eu cuidei dele!
Você não pode se mudar pra Itaquara e ter a ajuda de seus irmãos?
Irmão não tem obrigação de tomar conta de mim, meu filho é que tem! Cuidei dele a vida inteira! Sou boa mãe e boa sogra!
Meu Uber chegou e a boa mãe e sogra dirigiu-se a uma banca de lanches próxima; pelo risinho das moças, percebi que já conheciam a história.
Agora ela vai ao MP para coagir o filho a acomodá-la em seu lar. Ainda é jovem, sem incapacitações físicas, porém não admite que o rapaz possa ter vida própria. Afinal, deu tanto de si! Paga aluguel e não acha isso justo, pois pode muito bem morar de graça com o casal recém-constituído.
Lamentavelmente, passarei o resto dos meus dias sem saber da decisão do Ministério Público Estadual. Ou do Federal, do STJ ou do Tribunal de Haia, porque ela parece disposta a recorrer a todos os órgãos de justiça do planeta até que a questão se resolva a seu contento.
Quem sabe decida vender a casa e correr o mundo – não para conhecê-lo, mas procurando compensação por ter concebido esse filho, nove meses de seios doloridos, sem poder comer nada sem vomitar, manchas horríveis no rosto, inchados pernas e pés, estrias pipocando nos peitos e barriga, sono impossível com a pança explodindo, tudo por uma trepada em que ela nem gozou.
E depois, parido o bebê através de dores lancinantes, países baixos rasgados pelo cabeção, mamas sempre disponíveis, mesmo com bicos sangrando, malcriações irritantes da criança, desobediências, teimosias, chatices insuportáveis na pré-adolescência, rebeldias mais tarde, o terror de que virasse maconheiro, meu Deus! Não mereço recompensa?
O rapaz certamente não suspeitava do tamanho de sua dívida quando se casou, a noiva entrando de gaiata nesse imbróglio. Agora, a genitora apresenta a fatura e ele não paga, influenciado talvez pela esposa. Eta angu de caroço. Como desempelotar?
De minha parte, acredito que os filhos nunca poderão retribuir todo o amor e cuidado que receberam, é assim e pronto. Morreremos devedores, e a mesma condição será passada adiante. As novas gerações se nutrem das mais velhas, as que delas virão, igualmente. Mas ninguém convenceria a boa mãe e sogra de que ela não pertence ao novo lar daquele a quem deu à luz, a maternidade tendo lhe proporcionado alegrias inefáveis atreladas a sofrimentos e deveres próprios.
Se fosse inválida, era de se esperar que o filho não a deixasse à míngua. Eu optei por não parir ninguém e nenhuma outra escolha que fiz foi tão tranquila. Imagino que, caso houvesse me permitido experimentar A Felicidade Máxima de uma Mulher, teria sabido lidar com essa responsabilidade sem reclamar retribuição. Ter filho é fofo, mas é também condenar alguém a uma existência de embate eterno entre o que sua alma clama e o que se apresenta. Às vezes, de conflitos inconciliáveis embaralhando invejáveis mães, invejáveis sogras, filhos e noras invejáveis, quinas em todas as redondezas.
*Ró-Ã é autora do livro Dor de facão & brevidades