Katia Brembatti: "Jornalismo Investigativo é essencial na sociedade"

Nova presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) comenta cenário atual da imprensa

Publicado domingo, 31 de julho de 2022 às 06:00 h | Atualizado em 31/07/2022, 08:36 | Autor: Claudia Lessa
Jornalista deu mais detalhes sobre o 17º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo
Jornalista deu mais detalhes sobre o 17º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo -

Uma das jornalistas mais premiadas do Brasil (prêmios Esso, Tim Lopes, Ipys, Global Shining Light Award, HSBC e Fundação SOS Mata Atlântica, entre outros), com reconhecimentos nacional e internacional ao longo de seus 21 anos de experiência em coberturas de política, meio ambiente, infraestrutura e judiciário, a paranaense Katia Brembatti assume a presidência da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), durante o 17º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, cuja programação completa está no site www.abraji.org.br.

Considerado um dos encontros de Jornalismo mais importantes da América Latina, o evento acontece de 3 a 7 de agosto, em São Paulo, de forma mista (on-line e presencial), no momento em que a Abraji celebra seus 20 anos e em meio ao momento brasileiro desafiador de uma eleição presidencial e um ambiente político polarizado. Em entrevista ao A TARDE, a então vice-presidente da entidade destaca o conteúdo do congresso, que traz mais de 80 atividades voltadas a profissionais e estudantes da área e quase 200 palestrantes com temas atuais e importantes; analisa o Jornalismo Investigativo na atualidade; e fala de suas expectativas frente à entidade. Confira!

A Tarde – Na 17ª edição do Congresso de Jornalismo Investigativo, que atividades da programação e conteúdos você destaca?

Katia Brembatti – Tem para todos os gostos e de todas as áreas. Em um ano eleitoral, temos um enfoque muito claro na cobertura política, com cursos sobre pesquisas e treinamentos sobre monitoramento de candidaturas. Todo ano, entrevistamos uma fonte relevante para o meio jornalístico. Em 2022, será o ministro Luiz Roberto Barroso, do STF, que vai falar sobre democracia e desinformação. Também é praxe mostrar o que está sendo feito de referência no mundo, por isso teremos 20 convidados internacionais. Dos convidados brasileiros, teremos nomes como Fernando Molica (CNN Brasil), Patrícia Campos Mello (Folha), Cecília Oliveira (Plataforma Fogo Cruzado) e Caco Barcelos (TV Globo). As principais reportagens feitas no Brasil nos últimos 12 meses estarão representadas no evento. Entre outros temas do debate durante o congresso, estão a Invasão do Capitólio; a Guerra da Ucrânia; o racismo na mídia nacional; sustentabilidade, inovação e empreendedorismo; e eleições 2022. 

AT – O congresso acontece em um contexto de muitos embates políticos e polarização. De que forma o evento poderá contribuir com o debate, neste momento do país?

KB – Acreditamos que é necessário preparar jornalistas para enfrentar a realidade atual e o que está por vir, uma vez que se desenha um cenário de ainda mais violência. Já realizamos algumas atividades nesse sentido e, durante o congresso, teremos mais treinamentos de segurança, tanto física como virtual. Mas não podemos deixar de fazer o nosso trabalho. Então, vamos oferecer acesso a vários tipos de conteúdos da área, para que os profissionais de imprensa façam a cobertura mais qualificada possível durante o período eleitoral. 

AT – Às vésperas de uma eleição presidencial polarizada, neste momento, quais os principais desafios da Abraji?

KB – Temos monitorado ataques a jornalistas, em várias áreas, inclusive no campo do assédio judicial, e temos buscado oferecer suporte. Além disso, como entidade representativa, é nosso papel cobrar que as autoridades responsáveis tomem medidas, tanto na área da prevenção como na investigação de casos que precisam ser apurados. 

AT – Como você analisa o atual momento do Jornalismo Investigativo e qual o seu papel principal no atual ambiente político-social do país?

KB – O jornalismo investigativo é cada vez mais essencial. É que a sociedade não percebe o quanto o trabalho da imprensa está presente no seu cotidiano. Muitas das informações que circulam nas rodas de conversas e nos grupos de WhatsApp foram apuradas por profissionais. Muito do que cada eleitor sabe sobre os candidatos, especialmente os que concorrem à reeleição, é fruto de trabalho jornalístico. Às vezes, se a pessoa chega no posto de saúde e tem médico é porque algum jornalista monitorou o atendimento de saúde e exigiu explicações ou porque alguém fez uma reportagem que freou desvios de dinheiro e esse recurso “sobrou” para ser investido em serviços públicos. 

AT – Em relação ao acompanhamento e à fiscalização dos poderes e em defesa do cidadão, qual a missão dos jornais e dos jornalistas?

KB – Está entre as responsabilidades do Jornalismo fiscalizar o poder público. Não se trata de perseguição ou de só ficar procurando problema, mas de acompanhar os atos da gestão e sinalizar quando algo não estiver sendo feito de forma a considerar o interesse público. 

AT – A Abraji completa 20 anos. Qual a importância da entidade para a sociedade brasileira?

KB – A Abraji surgiu em um momento de dor, a partir do assassinato do jornalista Tim Lopes. De lá para cá, atuamos em prol de milhares de profissionais e, por consequência, da sociedade, que precisa de uma imprensa atuante para que as bases da democracia sejam mantidas. Duas décadas depois, revivemos esse mesmo drama, com as mortes de Bruno Pereira e Dom Phillips, profissionais experientes e qualificados que foram assassinados em uma área em que o próprio governo alega que não deveriam estar. Não podemos normalizar isso. Não deveria ter nenhum lugar em que fosse perigoso para qualquer trabalhador. E quanto mais ausente o Estado estiver, mais importante é a presença de jornalistas para reportar o que está acontecendo e levar essas informações para a sociedade. 

AT – Ao findar o Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, você assume o a presidência da Abraji. Quais as suas expectativas à frente da entidade e qual o plano de trabalho da sua gestão?

KB – Pretendo continuar o trabalho que estava sendo feito pela Natália Mazotte, que deixará o cargo por causa de compromissos profissionais. O mandato vai até dezembro de 2023. Até lá, seguiremos mostrando a relevância do Jornalismo e dando suporte para que os profissionais consigam trabalhar nas melhores condições possíveis.

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