Kleber Mendonça Filho: "Não tem filmes como Bacurau no cinema brasileiro"

Publicado terça-feira, 10 de setembro de 2019 às 09:00 h | Atualizado em 10/09/2019, 17:06 | Autor: Vinícius Marques

Na noite da pré-estreia de Bacurau em Salvador, no  dia 28 de agosto, Kleber Mendonça Filho parecia uma estrela da música pop. Nos corredores do Espaço Itaú de Cinema Glauber Rocha, ele e Juliano Dornelles (corroteirista e codiretor do filme) eram parados pelos cinéfilos que pediam fotos e queriam conversar com os cineastas. Nas três salas que exibiam o longa, após receber o público, Kleber passava os 10 minutos iniciais conferindo se o som estava no volume ideal. Como a dupla anunciou aos exibidores, o correto é que esteja no volume sete, assim como o filme foi gravado. No dia seguinte, quando Bacurau,  o vencedor do Prêmio do Júri no 72º Festival de Cannes, estreava em expressivas 290 salas de cinema por todo o Brasil, Kleber recebeu a equipe da Muito no terraço do hotel em que estava hospedado em Salvador. “Deixa só eu pegar uma jaqueta... Salvador frio”, disse Kleber, referindo-se ao seu premiado curta Recife Frio (2009) e aos 20° C da tarde chuvosa que fazia na capital baiana. Aquele seria o primeiro dia de folga da dupla, que desde o dia 18 de agosto viajava pelo país para apresentar o filme. Na  entrevista à Muito, o cineasta fala sobre a trajetória de Bacurau desde a estreia em Cannes, em maio deste ano, até as pré-estreias pelo Brasil; sobre a forte presença da violência no longa, a popularização do cinema pernambucano e nordestino e o futuro do cinema nacional.

Bacurau é um acúmulo de ideias que você e Dornelles reuniram por cerca de 10 anos. Nesse meio-tempo, você lançou O Som ao Redor (2009) e Aquarius (2016). De que forma o sucesso desses longas afetou o filme?

Não consigo dar uma resposta muito matemática, porque isso tudo é muito orgânico. Você vai construindo uma trajetória. O Som ao Redor, para um primeiro filme, chegou muito forte, vinha embalado de uma energia boa. Foi lançado em apenas 13 salas, mas chegou a 100 mil espectadores, o que é incrível. O Som ao Redor estabeleceu o tom no que eu faço. Aí veio Aquarius, que confirmou o que tinha acontecido e se tornou maior. Fez 360 mil espectadores. Bacurau chega na construção feita pelos dois filmes. É quase como se fosse uma marca. Os espectadores foram apresentados a um jeito de fazer filme, voltaram para Aquarius e agora voltam para Bacurau. Essa é a explicação mais próxima da matemática que posso te dar. O resto é muito difícil de falar porque faço filmes que considero muito pessoais. Fiz esse filme com um grande amigo e uma grande companheira, o Juliano e a Emilie [Lesclaux, produtora de Bacurau e esposa de Kleber]. Juntamos mais amigos, companheiros, colaboradores e fizemos exatamente o que a gente gostaria de ver no cinema. Esse é um filme que eu gostaria de ver numa sala boa, num som bom, num sábado à noite. Não tem filmes como Bacurau no cinema brasileiro, por várias questões. Estilo, jeito... A nossa cultura é muito mais do cinema do drama social, da comédia, do cinema fantástico ou do cinema que alopra e carrega nas tintas. Ele não é muito comum no cinema brasileiro. 

Seus filmes anteriores se passam numa cidade grande e agora você vai  para o sertão, que tem uma presença marcante no cinema brasileiro. Em Bacurau, vocês apresentam um sertão com folhas verdes e tecnologia. Essa escolha já estava presente nas ideias iniciais do filme? 

A ideia sempre foi mostrar um sertão moderno, porque ele já é. Vi Central do Brasil durante a montagem de Bacurau e o sertão que Walter [Salles] filmou em 1997 não é mais o sertão que existe hoje. Ainda era o sertão dos anos 1980, 1970, 1960, tinha traços muito claros dessas décadas. Também era um sertão onde a internet  ainda não tinha tido um impacto. Esses 20 anos fazem muita diferença. Hoje, o sertão faz parte do mundo de uma maneira que não fazia antes. Ele era muito mais isolado culturalmente e socialmente. Os anos Lula também trouxeram alterações significativas. O sertão que a gente sabia que ia filmar, e a gente sublinhou isso com direção de arte e figurino, é o sertão onde as pessoas usam luvas, imitações de grandes marcas, porque são todas importações chinesas. Temos as bugigangas digitais, tablets, televisões e monitores. Cada filme tem exigências. Esse exigiu que fosse feito no sertão, e nós fomos com muito prazer e senso de descoberta. Foi inesquecível.

Bacurau mistura muitos gêneros. Tem western estadunidense e italiano, neorrealismo, horror e o suspense. No Brasil, o cinema de gênero  caminha a passos lentos. Qual o motivo dessa escassez?

É uma questão cultural que pode ser talvez identificada nos cineastas mais velhos do Brasil. Exceto José Mojica Marins, o Zé do Caixão. Ele é um grande herói, grande artista, e foi o único nos anos 1960. Os anos 1960 viram o cinema brasileiro explodir internacionalmente, através do Cinema Novo, que se alimentava do europeu, do neorrealismo italiano, o final da Segunda Guerra Mundial e da Nouvelle Vague francesa. Essa geração do Cacá Diegues, Glauber [Rocha], Nelson Pereira dos Santos, Ruy Guerra, Roberto Santos é fruto de uma outra, onde o mundo estava dividido entre Estados Unidos e União Soviética e onde o cinema brasileiro não se alimentava do americano. Eu não participei desse racha ideológico porque cresci nos anos 1970 vendo cinema americano, que era magnífico, muito forte em gênero, de filme de vampiro ao de lobisomem, de invasão alienígena ao Godzilla. Horror, suspense, ficção científica. A minha geração foi formada vendo isso. Não gostava muito do que eu chamava de ‘vocabulário limitado do cinema brasileiro’ quando saí da faculdade, nos anos 1990. O cinema brasileiro nos anos 1980 em Pernambuco, por exemplo, tinha uma produção muito regional, ou regionalista. Eram filmes sobre seca, sertão, cangaço, folclore. Alguns eram ruins, outros não. Mas eu queria fazer algo mais próximo da minha realidade, da cidade grande. [O curta] Enjaulado foi a experiência de maior impacto e chegou a ser criticado como ‘parece filme de São Paulo’, porque filme pernambucano tem que ter folclore, cangaço, seca, fome. Comecei a entender que era  difícil quebrar isso, mas segui.  Aos poucos, o cinema brasileiro está com menos vergonha e menos pudor de enlouquecer um pouquinho.  O vocabulário está ficando maior e mais rico. Bacurau colabora com isso. 

Aos poucos, o cinema brasileiro está com menos vergonha e pudor de enlouquecer um pouquinho. O vocabulário está ficando maior e mais rico

Como as mudanças políticas pelas quais o país passou nessa década afetaram o processo de escrita de Bacurau? Como o filme dialoga com o momento atual do Brasil?

A gente captou uma energia, um estado de espírito do Brasil. Na verdade é sobre o Brasil e todos os problemas que enfrentamos, e parece sempre querer enfrentar, como se o país estivesse patinando nos mesmos problemas, como uma poça de óleo, e não consegue ficar de pé. Muito do futurismo do filme é passado, corrupção, violência, falta de respeito, falta de educação, problema da água no sertão. Tudo que está em Bacurau é bem antigo, já vem sendo abordado ao longo dos anos com Luiz Gonzaga, Euclides da Cunha, Dias Gomes, O Bem-Amado, Glauber. Mas como estamos vivendo uma época de retrocesso, é quase como se estivéssemos num Brasil retrô. O filme é futurista e o Brasil é retrô. O que é triste, né? A gente sempre acha que as coisas vão para frente. É muito estranho perceber que há um trabalho para piorar. Isso é que não dá para entender.

Como foram as reações ao filme no exterior e nas diferentes regiões do Brasil? Como o público reagiu a momentos-chave, como a cena da cabana, que, na minha opinião, é como um ponto de virada?

Essa cena, especificamente, da sessão de gala em Cannes ao Glauber em Salvador, passando pela Suíça, Austrália, Recife, São Paulo e Rio, tem a mesma reação. Recife e Fortaleza ganharam prêmio de gritos e intensidade, mas todos reagem com aplausos e gritos. É meio ensurdecedor, inclusive. Mas não me preocupo. Os filmes iranianos, franceses, dinamarqueses, todos eles exibidos em situações externas, serão recebidos de maneira peculiar, porque precisam de equipamento cultural para serem entendidos. Quando o prefeito diz: “Venham pra cá, deixe de pantim”, é claro que o sueco não vai receber a peculiaridade do uso de palavras desse homem que é do interior de Pernambuco, mas tudo bem. O sueco vai entender como “deixa pra lá, venham aqui conversar”, e está tudo certo. O que importa, e é um dado factual, é que Bacurau está vendido para praticamente todos os territórios internacionais. Ou seja, é um produto brasileiro, assim como o couro, que agora, inclusive, entrou na lista de produtos que o mercado estrangeiro não vai querer comprar no Brasil. Ele é um produto brasileiro que está sendo exportado e também está sendo muito bem usado e recebido no Brasil.

Alguns críticos disseram que o filme é uma resposta a um ataque fascista. Mas me parece que a violência em Bacurau não está só como meio de defesa, mas também de vida. Não é algo maniqueísta, e talvez por isso seja tão perturbador. Você acredita que a violência é parte do que somos como povo? Não dá para esquecer que o Brasil registrou mais de 62 mil homicídios no ano passado.

O Brasil é lindo e maravilhoso e eu amo esse país, mas é extremamente violento. Os números relacionados a mortes de homens negros é uma tragédia. Uma senhora, amiga da minha família, perdeu o filho negro saindo de uma festa. Isso já faz 15 anos e nunca, jamais, foi oferecida nenhuma explicação. Nunca teve investigação. Numa comunidade pobre, a polícia diz que é assim mesmo, e ela até hoje não entende o que aconteceu. Era o filho mais tranquilo, nunca tinha pego em armas. Ele era negro e morreu com um tiro. Nunca esqueci isso, e quando você faz um filme sobre o Brasil e é um filme, em primeiro lugar, western, há troca de tiros. Mas aí você faz um filme sobre Brasil, sobre como o povo brasileiro, na verdade, é massacrado. E quanto menos poder aquisitivo tem, há a tendência de ser massacrado ou violentado de alguma forma. A gente achou que caberia e é justo dentro da nossa ideia de sociedade. A violência no filme tem a preocupação de mostrar que ela machuca, não é bonita. O final do filme é extremamente triste, eu diria. Essa tristeza, é claro, vem com uma ideia de vitória, de uma sobrevivência, mas ela é triste.

Bacurau estava na corrida para representar o Brasil no Oscar e ficou de fora por um voto. Aquarius, em 2016, também era o favorito. Naquele ano, muitos disseram que foi uma retaliação pela manifestação que vocês realizaram em Cannes. Como você vê essas escolhas?

Acho que a diferença entre 2016 e este ano é que, desta vez, temos um cineasta que é bom. Karim [Aïnouz, diretor de A Vida Invisível] vai representar o Brasil muito bem. Em 2016, era difícil entender o que aconteceu. Ficou muito claro, na verdade, que não era para entender.

Esse tem sido um bom ano para o cinema nordestino. Bacurau, A Vida Invisível, Divino Amor e outros filmes têm ganhado destaque em festivais mundo afora. Você acha que há uma linguagem própria no cinema nordestino que se diferencia de filmes feitos no Sudeste, por exemplo?

É muito difícil explicar e tentar entender um fenômeno tão interessante como a produção cultural, mas é fato que o cinema feito em Pernambuco e que Karim, sendo cearense, tem alguma coisa forte. Há filmes muito bons sendo feitos no Nordeste. Divino Amor, Bacurau, A Vida Invisível são filmes fortes; o do Marcelo Gomes, Estou Me Guardando para Quando o Carnaval Chegar, é um filme forte, peculiar, pessoal, estranho e diferente. Mas tem filmes muito bons sendo feitos fora do Nordeste também. Los Silencios, da Beatriz Seigner, que é um filme impessoal; tem As Boas Maneiras, No Coração do Mundo, do Gabriel e Maurílio Martins. O que realmente me fascina hoje é que o cinema brasileiro tem um vocabulário muito maior de quando saí da universidade. Todos os grandes festivais, desde janeiro, têm tido um filme brasileiro de destaque. Cannes teve três, Roterdã teve muitos, Berlim também, A Febre, de Maya Da-Rin, acabou de ganhar em Locarno. Bacurau vai para Toronto e Festival de Nova Iorque, que é uma das seleções mais fechadas e prestigiosas do mundo, e é o único brasileiro lá. Os filmes estão circulando no mundo e estão sendo vistos no Brasil. Ninguém está sendo pago para ir ver. Há um interesse real, eu acho, pelo cinema brasileiro.

A primeira exibição de Bacurau aconteceu em Cannes no dia 15 de maio. Nesse dia, ocorria a primeira manifestação contra cortes da educação no Brasil. No filme, há uma defesa da educação, mas de forma sutil. O que você pensa de quando a arte vira objeto de militância? Num objeto artístico literalmente político, a arte tende a perder ou a ganhar?

Não é a primeira vez que livros ou filmes são usados para ilustrar algum pensamento. Eu não uso meus filmes para fazer militância, eles devem se sustentar sozinhos, mas eu também entendo como é possível que alguém se apegue, se abrace com o filme e queira transformá-lo num tipo de símbolo. Bacurau é um filme sobre o Nordeste, mas é sobre o Brasil também, sobre pessoas. Eu gosto de gente, não sou um misantropo, gosto de gente, não todo mundo, mas gosto das pessoas que eu gosto. Então Bacurau é sobre compaixão, pessoas vivendo juntas numa comunidade e tentando se ajudar. A vida é difícil, então quando as pessoas tentam se ajudar tudo flui mais rápido. O filme tem  um certo poder, é natural que algumas pessoas queiram vê-lo como militância. Eu não tenho, nem Juliano, vendido o filme dessa forma.

Eu amo esse país, mas é extremamente violento. Os números relacionados a mortes de homens negros é uma tragédia

Como você vê o futuro do cinema nacional diante das críticas do presidente Jair Bolsonaro, quando ele diz, por exemplo, que a Ancine não deve financiar um filme como Bruna Surfistinha ou quando proíbe financiamento de séries LGBT?

Em primeiro lugar, eu não entendo essa discussão sobre censura porque na Constituição de 1988 diz que censura não existe. Então, é como se faltasse assessoria ao governo. Alguém para chegar e cochichar no ouvido e dizer “não tem censura, a Constituição garante isso”. O cinema brasileiro é algo real, é algo que faz parte da realidade. Alguém chegar e dizer que artista é vagabundo não faz parte do mundo real. É uma opinião sem base, sem fundamento. É um ato de desinformação. É como se alguém dissesse que médico é vagabundo e alguém tivesse que dizer que médico não é vagabundo, que são importantes na sociedade. Eu, como artista, estou me vendo na situação de ter que explicar esse tipo de coisa. Bacurau eu editei com Eduardo Serrano e Juliano Dornelles durante 10 meses em horário comercial, das 9h às 17h, eu indo de bicicleta. A gente filmou durante oito semanas e cinco dias no sertão do Seridó. Antes dessas semanas, a gente acordava 4h30 e voltava 19h, preparando as filmagens no sertão. Nós empregamos, ao todo, direta e indiretamente, cerca de 800 pessoas. Tudo isso é trabalho, pessoas foram pagas. Então, é incrível eu ter que explicar isso. Acho que está faltando alguém informar o governo, passar a informação de que são brasileiros trabalhando e essa área é importante do ponto de vista de economia e da identidade do país.

Esse é seu filme mais caro. Vocês captaram quase R$ 8 milhões para a produção. Recentemente, no governo Temer, você foi acionado judicialmente a devolver R$ 2,5 milhões dos recursos de O Som ao Redor. Como anda esse processo? Isso pode  prejudicá-lo em produções futuras?

Trabalho com cinema há 25 anos, e o que eu faço, por sorte, tem repercussão nacional e internacional. A forma como a gente trabalha é comprovadamente correta e honesta. Eu continuo trabalhando como sempre trabalhei, e a prova é Bacurau, que é maior em sucesso, tamanho e escala do que os outros. Há uma constância no meu trabalho. A única coisa que mudou foi o Brasil nos últimos quatro anos. Por coincidência, que não é coincidência, essa mudança traz um processo sem precedentes, absurdo e que não faz o menor sentido do ponto de vista de nenhuma lei e que é meramente uma maneira de atacar um artista. Um artista, aliás, de grande destaque, tenho que dizer. A gente está nos trâmites habituais de Justiça e, obviamente, isso vai ser totalmente descartado. Não faz o menor sentido.

Em 2016, quando você veio a Salvador lançar Aquarius, mencionou uma outra produção, sobre documentação de cinemas de rua. Como está esse projeto?

Abandonei esse projeto para trabalhar em Bacurau e eu tô querendo agora, quando passar essa fase, voltar para ele. É um filme sobre arqueologia sentimental do centro do Recife a partir das salas extintas de cinema, que é um tema muito caro a mim e já apareceu em vários filmes que fiz. Está n'O Som ao Redor, em Aquarius. Não está em Bacurau. Teve um momento do roteiro que a gente teria uma sala abandonada em Bacurau, mas quando a gente diminuiu muito a escala da comunidade a gente achou que não faria sentido. Ficou parecendo que era uma coisa meio piegas de homenagem ao cinema. Mas é um filme que eu quero muito voltar. Vejo ele mais como um ensaio, mas acho que muita gente vai chamar de documentário. É um ensaio muito livre sobre espaços de convívio. Espaços que fazem parte da história das pessoas e da história da cidade e aí um dia eles são extintos e ficam as marcas ou fica a arqueologia. A cidade meio que passa por cima, vira banco, supermercado, igreja ou fica fechado e vira um sítio arqueológico de um outro momento da sociedade. Isso me interessa muito.

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