Lirandina Gomes: "O mercado vai para onde está dando dinheiro"

Publicado terça-feira, 08 de outubro de 2019 às 09:31 h | Atualizado em 08/10/2019, 09:51 | Autor: Alessandra Oliveira

Banhada pela Baía de Todos-os-Santos, Salvador é considerada a cidade da música e um dos berços culturais do Brasil. Mas seus atrativos não são suficientes para impedir uma crise hoteleira, que já dura anos. Durante o Carnaval, a ocupação dos hotéis próximos aos circuitos chega a bater 100%, mas o valor pode cair pela metade durante o ano, segundo dados da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIH). Enquanto hotéis têm fechado as portas no litoral soteropolitano, há uma tendência de implantação de empreendimentos de luxo no Centro Histórico, que já conta com o Hotel Fasano, inaugurado no ano passado, e o Hotel Fera Palace, inaugurado em 2017. Agora, o Palácio do Rio Branco também pode fazer parte da paisagem. “É um projeto que certamente vai alterar muito a dinâmica urbana daquela área, provocando processo de gentrificação, que significa que essas populações que circulam, que vivem naquela área, não vão continuar frequentando porque há uma tendência das classes altas frequentarem”, avalia a geógrafa e doutora em geografia Lirandina Gomes. A professora de urbanismo, turismo e hotelaria da Universidade do Estado da Bahia (Uneb) recebeu a Muito em casa para falar sobre o mercado hoteleiro baiano. Ela acredita que é preciso “fortalecer a cultura local, melhorar as condições dessas populações para que haja uma relação mais equilibrada entre os visitantes e os visitados, tanto economicamente quanto do ponto de vista social e cultural”. 

Impossível não começar  falando do futuro do Palácio do Rio Branco. O que acha da possibilidade de esse prédio histórico virar hotel de luxo?

É um tema muito polêmico. É uma tendência mundial. Os grandes centros históricos na Europa já transformam seus sítios, seus palacetes, em hotéis. Está dentro de uma política urbana com fortes restrições e normas em relação ao uso desse patrimônio e com forte participação social. Da forma como está sendo feito o projeto aqui, não é adequado porque não existe um debate com os moradores, representações de classes, nem com as universidades. É um projeto que certamente vai alterar muito a dinâmica urbana daquela área, provocando processo de gentrificação, que significa que essas populações que circulam, que vivem naquela área, não vão continuar frequentando porque há uma tendência das classes altas frequentarem. O projeto do Palácio do Rio Branco está dentro dessa lógica. É um hotel que poderia ser implantado em qualquer outro lugar. Para mim, foi uma surpresa. O Hotel Vila Galé é uma das grandes redes hoteleiras portuguesas, que já tem investimentos no Brasil, mas a principal experiência de gestão hoteleira deles é com redes de lazer e negócio. Em relação a hotéis históricos, existem normas muito específicas, de restauro, gestão, especialistas que vão tratar do imobiliário, da obra arquitetônica. Além do que o edifício do Palácio do Rio Branco é de grande valor histórico, cultural e arquitetônico do Brasil. Não é nem da Bahia, é do Brasil. Tem um acervo importante, a sala dos governadores, com objetos pessoais dos governadores, lustres, mobiliários, tapetes, todo um conjunto. Qual o destino desse acervo? Já foi inventariado? A Constituição diz que é dever do Estado a preservação do patrimônio histórico e cultural. Li uma entrevista recente do secretário estadual de turismo declarando a incapacidade financeira e técnica de conservar e manter esse patrimônio. Mas há alternativas junto ao setor privado, uma gestão  partilhada, mas com outras bases.

Da forma como está sendo feito o projeto aqui [do Palácio Rio Branco], não é adequado, porque não existe um debate com os moradores

O contrato com a prefeitura prevê a preservação do acervo e abertura para visitação em partes do prédio. Não seria, justamente, uma alternativa de gestão partilhada?

Mas vai ser mantido para quem? Quem vai poder acessar aquele edifício? A própria característica do hotel, os seguranças que são colocados, o fator segurança é importante naquela área. Você chega ali no hotel e na entrada  já se sente intimidado. Além dos preços. Acredito que a parte do edifício antigo deve ser preservada para  visitação. É uma área de interesse público, deveria ser preservada com um memorial, um museu. A criação de  cafés seria bem-vinda. Ali é uma área privilegiada em termos de paisagem para a Baía de Todos-os-Santos. A partir do momento que você coloca um hotel desse porte, vai privatizar uma vista que, no meu entendimento, é uma das mais bonitas de Salvador.

Já é possível observar algumas dessas consequências  que você aponta no Centro Histórico de Salvador com a chegada do Fasano e do Fera Hotel?

Sim, já acontece. Na área do urbanismo nós chamamos de processo de gentrificação, que é uma tendência em áreas em que há requalificação urbana. No nosso país, onde há uma forte disparidade social, as populações locais são expulsas, excluídas em frequentação, os preços que são praticados ficam altos. A segurança, primordial naquela região, vai afastar essas pessoas que hoje circulam por aquelas áreas, pessoas comuns. Quem visita aquela área onde se implantou o Hotel Fasano e o Hotel Fera Palace já percebe que há um forte esquema de segurança. Vai afastar mais ainda essas pessoas, ao invés de incluir.

O grupo interessado no Palácio do Rio Branco é o português Vila Galé. Na sua tese de doutorado, você discorre sobre o fenômeno da internacionalização da hotelaria na Bahia. Quais as principais diferenças das consequências de implantação de um hotel de rede nacional para um internacional?

O modelo de gestão hoteleira em padrão internacional segue normas e regras hegemônicas. A lógica de exploração é a mesma,  visa ao lucro. Teoricamente, mas muitas vezes não acontece, uma gestão hoteleira nacional teria maior compromisso e respeito a esses monumentos, poderia estimular uma visitação nacional. Há de se ver também que os investimentos internacionais visam sempre ao mercado internacional, então, você gera uma renda, uma receita que deveria ficar no país, na Bahia, mas ela vai porque as matrizes dessas empresas estão no exterior. Os próprios tributos que seriam gerados deveriam ficar aqui. O que fica não é suficientemente justificável para trazer benefícios às populações locais. Quem ganha e quem perde nessa história? Nós perdemos mais do que ganhamos. Deveria ser um jogo mais equilibrado. É um projeto pensado nos gabinetes de governos, nas feiras internacionais de turismo na Europa, e, quando os moradores vão ver, o projeto já está aprovado. Isso gera estranhamento para essas populações.

Estima-se que o setor de turismo e hotelaria remunera 30% menos que qualquer outra atividade econômica

Quando se fala na criação de novos hotéis, o discurso da empregabilidade, assim como acontece no anúncio de outros grandes empreendimentos, é frequente. Mas quando falamos de geração de emprego na hotelaria, de quais cargos e remunerações estamos falando?

Quando comecei minha tese, achava que o setor de hotelaria era mal remunerado só no Brasil, mas no mundo inteiro a remuneração é muito baixa. Estima-se que o setor de turismo e hotelaria remunera 30% menos que qualquer outra atividade econômica. Especialistas dizem que o turismo e hotelaria é a agricultura do século 21 porque ela emprega muita mão de obra, mas é sazonal, depois desemprega na baixa estação. Além de que as remunerações não são compatíveis com a carga de trabalho. Os hotéis demandam muito tempo. À medida que os cargos vão exigindo maior qualificação, obviamente há uma proporção de média salarial, mas ainda é muito baixo se comparado a outros setores de atividade econômica. No Brasil, temos pouca experiência de gestão hoteleira, é relativamente recente, começa a partir da década de 1950. Os primeiros hotéis na Bahia de porte internacional são implantados na década de 1970. As redes hoteleiras, tanto europeias como americanas, já têm experiência há mais de 200 anos. Esse know-how de gestão brasileira, principalmente de padrão internacional, que é o que a gente está falando aqui, é importado. Então, os cargos mais bem qualificados e remunerados ficam com pessoas de alta qualificação. Para você ter ideia, um estudante de turismo recém-formado tem que ser, minimamente, bilíngue. Para uma camareira, um garçom trabalhar em um hotel, tem que ser bilíngue. Tem padrões internacionais de atendimento, de como dobrar o lençol da cama. O nível de exigência é muito grande. Além da informalidade. É um setor com muita informalidade porque é interdependente de outras atividades, alimentos, bebidas, transporte, segurança. Um dos fatores que ainda atraem muito esses hotéis para o Brasil é a mão de obra barata, se comparada ao mercado internacional. Tem muita oferta, embora pouco qualificada. Eles têm que qualificar. 

Como está o panorama atual de grupos hoteleiros brasileiros e como a escassa oferta de cursos acadêmicos de turismo atua nesse cenário?

Tivemos um boom na década de 1990 de escolas de turismo na Bahia e hoje, praticamente, só tem a Uneb. Na década de 1990, havia uma política do governo federal de colocar o Brasil nos grandes destinos turísticos internacionais. Houve um investimento muito grande tanto em infraestrutura quanto em mão de obra. Só que o turismo é uma atividade que depende do cenário internacional, valorização de moeda, câmbio, segurança, vários fatores que interferem nessa dinâmica, e o Brasil não foi competitivo. Temos graves problemas em relação à malha aérea, que é bastante deficitária, de infraestrutura, segurança. A crise gerada na própria economia é uma crise sistêmica, que começou em 2008 na Europa e nos Estados Unidos, veio nos afetar em 2013, 2014 e vem se intensificando. Isso reduziu muito o poder aquisitivo do brasileiro e tem afetado as viagens. Acredito que esse problema está relacionado também à gestão desses hotéis, que precisam de manutenção constante. O custo operacional é muito alto. O aeroporto de Salvador, que se criou uma expectativa com a Copa do Mundo [2014] de reforma e ampliação, está naquela situação. Tem um problema de gestão pública.

Sobre os impactos gerados por empreendimentos de grande porte, como o Salvador Praia Hotel, em Ondina, que ficou 10 anos abandonado, inviabilizando o uso de um trecho litorâneo da cidade, não seria ideal pensar, já no contrato de implantação, em proposições para o caso de o negócio fechar?

Não se discute política turística sem política urbana. Salvador, como toda grande cidade, passa por dinâmicas de mudanças de centralidade, áreas que passam a ser muito valorizadas e frequentadas. Ondina, Barra, esses bairros históricos, tradicionais, tiveram várias dinâmicas de valorização. Aquela área ficou muito voltada para o Carnaval, que tem uma ocupação elevada. Passou o Carnaval, entra em declínio. Novas áreas, novos hotéis vão surgindo. A rede de hotelaria não é cooperativa, é competitiva, e é autodestrutiva. Ela destrói o que existe para surgir um novo. Esses hotéis entram em decadência e novos estão surgindo no Centro Histórico. Tem a ver com política urbana, como cada governo prioriza uma determinada área da cidade, em termos de investimentos, transporte, segurança e qualificação desses espaços. 

A rede de hotelaria não é cooperativa, é competitiva, e é autodestrutiva. Ela destrói o que existe para surgir um novo.

Se a sazonalidade é intrínseca à prática turística, como manter o equilíbrio do setor durante  o ano?

No mundo inteiro a sazonalidade é um desafio. Uma das alternativas que já foram estudadas por especialistas é fazer um escalonamento de férias escolares por região do Brasil, por exemplo. Outra alternativa é, em vez de tirar 30 dias de férias, você tira escalonadas durante o ano. As viagens estão vinculadas às férias, ou escolares ou de trabalho. Também toda a infraestrutura que envolve preço de passagens aéreas, preços de hotéis. É uma equação que não é fácil porque as famílias querem sair de férias com os filhos, conciliar as de trabalho com as escolares.

Vou aproveitar que estamos falando de turismo nacional. Gostaria que comentasse se o turismo de segunda residência ainda é um fenômeno crescente. 

Esse modelo já é muito consolidado na Europa, principalmente na Espanha e Portugal. Existe em várias formas. Pode ser a aquisição do imóvel ou o arrendamento, fica três, quatro dias, paga e vai embora. Existe uma crítica em relação a isso porque esse turista vem e não consome a hotelaria, os restaurantes,  fica na segunda residência como se fosse a própria casa. Paga os tributos, o IPTU, mas depois que vai embora, se  não aluga, fica ali parado. Esse modelo está chegando ao Brasil, principalmente no litoral norte, que tem uma circulação entre segunda residência, hotel e campo de golfe. 

Turismo de residência é sempre para pessoas com grande poder aquisitivo?

Sim, não é para baixa renda. Inclusive muitos compram os imóveis como investimento. Qual é o problema disso para quem é morador local? Começa a aumentar muito o preço dos imóveis, começa a circular uma população de alta renda naqueles espaços onde se fazem segundas residências, e aí tende a haver uma maior especulação imobiliária e valorização dessas áreas. Para a população local não é bom.

Aplicativos como Airbnb é uma forma de democratização do turismo, permitindo que públicos diversos viajem mais? Existe, inclusive, um movimento do setor de hotelaria de taxação do site, que passaria a pagar o imposto sobre serviço (ISS), por exemplo.

É uma forma, sim. Como toda atividade, acho que tem que regular. É bom para o usuário e  para quem está alugando. Por exemplo, Barcelona tem graves problemas com isso. A maior parte dos proprietários prefere alugar suas casas para turistas, no lugar de alugar para moradores locais. Isso gera problemas para locais, que passam a ter uma oferta reduzida. Então, teve e ainda tem muitos movimentos de restrição ao uso turístico dessas residências, principalmente em centros históricos, porque passa a privilegiar  turistas, geralmente internacionais.  Não é que tenha que ter as mesmas taxas de hotéis, mas alguma regulação.

As zonas já consolidadas de turismo também são as que recebem mais investimento, inclusive governamentais. Como levar turistas para o interior da Bahia?

Na Bahia, e no Brasil todo, a oferta hoteleira e a infraestrutura turística se concentram nas zonas litorâneas, nas grandes cidades. É um erro. Já foi tentado em termos de políticas públicas, federal, estadual, descentralizar em direção ao interior. Em 2007, na Bahia, nós tínhamos apenas sete zonas turísticas, hoje nós temos 13, em que foram feitos incentivos de investimento em infraestrutura de estradas, construção de aeroportos. Além de onerar muito o uso desses equipamentos das grandes cidades, você tem uma diversidade imensa de atrativos na Bahia, que pode ser muito bem aproveitada. Falta um incentivo de manter esses apoios a essas regiões turísticas que foram criadas, como no sertão da Bahia, no oeste, sul, Chapada Diamantina. Descentralizar para áreas próximas também. É muito grande o número de turistas que chegam a Salvador e querem conhecer o interior. Mas o tempo que ele vai levar, a segurança, as estradas... além da distância. O turista que vem de outro estado tem um tempo reduzido de permanência. Então, teria que haver apoio nesses municípios, de investimentos nas prefeituras, que tenham os seus conselhos, as suas secretarias de turismo, profissionais qualificados. O mercado vai para onde está dando dinheiro, onde o retorno é mais imediato. Se Salvador, litoral norte, é onde se recebem mais turistas, é porque têm as melhores infraestruturas aéreas e portuárias, então, a tendência é se concentrarem aqui. Eles sabem que vai ter público, mesmo que seja concentrado no Carnaval, nos grandes eventos. Salvador ainda é um dos principais destinos do Nordeste, já foi um dos mais importante do Brasil, mesmo com todas as nossas dificuldades.

Como incentivar a interiorização sem alterar a identidade e a cultura desses locais?

Olha, é difícil, porque uma das características do turismo são as relações interculturais. O turista quer interagir com a população, a população quer interagir. Em qualquer lugar que você chega em um país como o nosso, que é muito desigual socialmente, o turista chega em uma posição superior de poder aquisitivo. Acredito que tem que fortalecer a cultural local, melhorar as condições dessas populações para que haja uma relação mais equilibrada entre os visitantes e os visitados, tanto economicamente quanto do ponto de vista social e cultural. É o que acontece nos países de primeiro mundo. Lá você não sente tanto porque o desnível sociocultural existe, mas é menor. Aqui é muito gritante”.  

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