BIENAL DO LIVRO
Muito além dos best-sellers: os tesouros das pequenas editoras na Bienal
Como pequenas editoras se uniram para brilhar no evento

Pouco mais de três décadas após a sua fundação, a editora baiana Solisluna foi selecionada, em 2024, como uma das cinco finalistas para as regiões América do Sul, América Central e Caribe do Bologna Prize Best Children's Publishers of the Year, prestigiosa premiação italiana para livros infantis de todo o mundo.
A indicação ao prêmio foi um atestado de excelência para essa pequena editora sediada em Lauro de Freitas, que se destaca pelo cuidado na escolha de autores e temas que integram o seu catálogo, mas também pelo esmero nos projetos gráficos de suas publicações.
Admirada fora dos limites da Bahia, a Solisluna foi convidada em 2025 a fazer parte de um coletivo com 20 pequenas editoras de todo o país, dispostas a ratear os custos para a montagem de um estande na Bienal do Rio, no ano em que a Cidade Maravilhosa foi declarada Capital do Livro pela Unesco. Uma união revolucionária e fundamental para a participação em um evento dominado por gigantes do mercado editorial.
Para ter a chance de estar presente, cada associada do coletivo Compiladas pagou cerca de R$ 30 mil, entre aluguel, montagem, cenografia e outros custos. "Funcionou muito bem para todos nós. A gente entendeu a força do coletivo, a importância de se juntar", opina o editor baiano Kin Guerra, que define o Compiladas como uma antologia de editoras.
Coesão
A Solisluna é a única editora baiana que integra o grupo, que totaliza 16 editoras, com participantes do Rio Janeiro, São Paulo, Rio Grande do Sul e Minas Gerais. Ele considera que o coletivo tem uma certa coesão. "São editoras que têm como força a qualidade editorial, a seleção de ideias, o debate contemporâneo".
O editor baiano explica que, para as pequenas editoras, a logística da distribuição é um grande gargalo, expressão muito usadas por economistas e homens de negócios para definir coisas que não funcionam bem na infraestrutura e atrapalham as empresas.
"Vender livros não é como vender qualquer outra coisa, o cliente tem que ser leitor", pondera Kin, ressaltando que esse ramo demanda diferentes profissionais para cada etapa de produção do livro.
Ele também destaca o ineditismo dessa iniciativa e considera que ela vai contra a maré das grandes editoras comprando as pequenas do setor. "O que não é uma coisa exclusiva do mercado editorial, acontece em todos os mercados de arte", afirma.
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Para ele, essa aliança entre editoras pequenas é importante para preservar a independência editorial. "Foi tão interessante, tão proveitoso no Rio de Janeiro, que a Compiladas ganhou como o segundo melhor estande da Bienal. Foi um reconhecimento. Tanto que a Bienal do Livro da Bahia fez um pedido formal para a nossa participação", declara o editor.
Kin Guerra ressalta que, por enquanto, a colaboração é pontual e não há investimentos em espaços físicos nas capitais que sirvam de apoio para as associadas ao longo do ano, fora das bienais.
Ele define editoras independentes como companhias que não são controladas por grupos econômicos alheios ao mercado editorial: "Grupos que são majoritários naquela empresa e que determinam o que vai ser publicado ou não".
Entre os livros que a Solisluna leva à Bienal da Bahia, ele destaca O poder das palavras e outros poderes, de José Castilho; os livros infantis É de Ler, de comer ou de brincar, de Sálua Chequer; e Amara mo opará, o canto do rio, de Tamaruhi Tuxá. No total, o Compiladas traz à Bienal do Livro da Bahia cerca de 1.300 títulos.
Em um mercado em que as grandes editoras, naturalmente, dominam a contratação de escritores best-sellers, as vitrines das principais livrarias, e a maior parte da atenção da crítica especializada, as pequenas companhias que almejam um lugar ao sol focam na excelência editorial e na segmentação.
Formalizada em 2020, depois de duas décadas de amadorismo, a editora fluminense Tabla elegeu se concentrar em autores e assuntos relacionados ao Norte da África e à Ásia Ocidental. Foi a Tabla, aliás, que publicou no mês passado a edição brasileira do livro Quando o mundo dorme: histórias, feridas e palavras da Palestina, da jurista e professora italiana Francesca Albanese, relatora especial das Nações Unidas para os territórios palestinos ocupados.
Crítica das ações do Estado de Israel, Francesca foi incluída, juntamente com o Presidente Lula, em uma lista de personas non gratas daquele país. A propósito, há chances de que ela venha ao Brasil este ano.
Sócia da Tabla, Laura di Pietro afirma que a editora tem como missão oferecer narrativas diversas sobre essa área do planeta. "É uma região grande e tão mal compreendida, desconhecida", afirma Laura. Muitas vezes, ao lançar um livro, a Tabla realiza cursos, encontros e entrevistas para contextualizar a obra.
Ela afirma que as editoras independentes cumprem o papel de fornecer ao público uma diversidade. "A gente tem um acesso a literaturas que a gente não teria, um acesso que depende dessas editoras independentes", pondera Laura, que afirma ser admiradora do trabalho das outras associadas do coletivo. A editora carioca, aliás, acredita que futuramente a colaboração no coletivo pode ir além das bienais e feiras e se estender à logística ao longo do ano.
Sobre o modelo de negócios da Tabla, Laura acredita que a produção editorial ideal para a empresa é a publicação de 14 títulos adultos e seis infantis por ano.
Tragédia
Entre o final de abril e o início de maio de 2024, o Rio Grande do Sul foi afetado por dramáticas enchentes que afetaram 96% dos 497 municípios gaúchos e causaram a morte de pelo menos 185 pessoas, segundo dados da Defesa Civil. Uma das piores tragédias da história do estado afetou virtualmente todos os seus cidadãos e deixou enormes prejuízos.
No mercado de livros, por exemplo, O Clube dos Editores do Rio Grande do Sul estima que cerca de 50 mil exemplares foram destruídos pela fúria das águas. Ironicamente, uma das empesas do setor que enfrentaram a tempestade quase incólume é a Editora Arquipélago, companhia criada há 20 anos pelo livreiro Tito Montenegro, especializada em jornalismo, e batizada em homenagem a um bairro homônimo de Porto Alegre e também ao último volume da trilogia O Tempo e o Vento, de Érico Veríssimo.
Com a maior parte de sua clientela no Sudeste, a editora contratou um galpão terceirizado em Osasco, na Grande São Paulo, para guardar o seu estoque de livros. Fora das intempéries da natureza, a editora encontrou no ano passado, no Compiladas, uma espécie de tábua de salvação para o seu propósito de participar das bienais de livros, eventos que, pelo alto custo, são destinados basicamente às grandes editoras.
"As bienais são eventos muito grandes, muito caros para participar e que acabam sendo dominados por grandes grupos editoriais e por grandes distribuidoras. Uma atuação conjunta seria uma forma de viabilizar que editoras independentes participem", avalia Tito.
O editor gaúcho classifica como "artesanal" o trabalho editorial das pequenas companhias associadas no Compiiladas. A editora gaúcha tem como principais atrativos para a Bienal do Livro da Bahia uma reportagem em quadrinhos que aborda justamente o drama dos gaúchos atingidos pelas enchentes de dois anos atrás, Água até aqui: Histórias de luta, sobrevivência e recomeço na maior tragédia climática do Rio Grande do Sul, de Pablito Aguiar, foi publicado em maio de 2025 e traz histórias de personagens reais explicadas por textos e ilustrações.
"O leitor que vai à Bienal e tem aquela visão do mundo best-seller, entra no Compiladas e vê um mundo de outras leituras possíveis", afirma Tito, que também publica a jornalista e escritora Eliane Brum.
Bahia

Na Bahia, dois jornalistas estão publicando livros nesse mês, pela editora baiana P55 Edição. Adriana Oliveira traz o seu Cartas de uma repórter, e o professor e poeta Florisvaldo Mattos, ex-diretor de Redação de A TARDE, com o livro de poemas Ponteio com tercetos sensoriais. Entretanto, a editora dirigida pelos irmãos André e Marcelo Portugal não fará lançamentos durante a Bienal. "Em nosso planejamento editorial, estamos com 15 publicações a serem lançadas em 2026", afirma Marcelo.
O editor salienta que a presença da P55 em eventos como a Bienal ajudam na exposição da marca da editora e cria um contato bem direto com o público final. "É uma grande oportunidade da editora poder dialogar e mostrar seu conceito editorial, e as diversas publicações que valorizam a cultura, as artes visuais e a literatura, com especial atenção à produção intelectual contemporânea brasileira", declara Marcelo, que tem a expectativa de superar as vendas de edições anteriores.
E em termos mercadológicos, Marcelo vê a P55 como uma mostra de que é possível democratizar o acesso à leitura, estimular a criação autoral e contribuir para o fortalecimento de uma cadeia produtiva cultural mais justa, diversa e sustentável. "Nosso conceito é entregar publicações com valores acessíveis para a sociedade, que vão desde a literatura produzida no Brasil até livros de arte de grandes artistas plásticos e fotógrafos", declara o editor. A P55 foi criada em 2002 pelo escritor Claudius Portugal, que no mesmo ano passou o comando do negócio para os filhos.
A Editora Caramurê, por sua vez, vai lançar cinco títulos durante a Bienal, inclusive O menino que era música, de Liris Letieres, em homenagem ao maestro Letieres, seu irmão, morto em 2021. Com estande no evento, o editor Fernando Oberlaender enaltece a Bienal. "É muito legal, porque é um espaço do livro e não da leitura. As pessoas vão em busca desse objeto que é tão esquecido, a maior parte do tempo, na vida das pessoas", avalia.
O editor considera que, mesmo sendo um evento comercial, a Bienal traz ao público a perspectiva de que o livro é uma coisa importante, mas faz críticas. "Infelizmente, a Bienal não é feita para as editoras locais. Isso é uma coisa clara. Somos sempre os últimos a conseguir espaço para os estandes, mas estar na Bienal é sempre uma conquista", afirma o editor.
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