O acasalamento dos pássaros

Publicado domingo, 27 de março de 2022 às 06:00 h | Atualizado em 26/03/2022, 13:16 | Autor: Clara Cerqueira
Imagem ilustrativa da imagem O acasalamento dos pássaros
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Experiência empírica: sexo emagrece.

Dito isto, preciso dizer também que sou casada há mais ou menos, quantos anos mesmo? Ele me disse 5. Daí ele disse também – "estamos coroando, minha filha, lembra quando a gente trepava no chão da cozinha? Aquilo devia emagrecer para caralho". Fiz cara de desdém para esse comentário, convenhamos, bastante chulo, mas lembrei exatamente do azulejo, dos pelos, da gordura, do suor, das manchas nas paredes, do fogão, da pia, do botijão e do movimento quase alienígena de nossos corpos emaranhados naquele chão.

Estávamos de fato por cima da carne seca, foram ótimos tempos, mas não troco de forma alguma o amor limpo, confortável e calmo de nossa vida adulta, em nosso quarto e em nossa cama, sem hematomas e dores misteriosas no dia seguinte, por essas incursões sexuais adolescentes, em lugares que considero apenas um tanto inusitados, mas bastante insólitos. Único ponto negativo da maturidade: estou quase convencida de que queimamos mesmo menos calorias.

Toda essa história um pouco aleatória de sexo e forma física começou com uma equação simples – aumento de peso e queda de libido. Minha, claro, ele não sofre com nada disso, pelo contrário, está sempre magro e pronto para a ação, valha-me.

Já no meu caso, a libido precisa ser alimentada, nutrida sabe, eu preciso de um parceiro interessante e sexy que me diga coisas inteligentes, que me ame, que lave e guarde os pratos e que esfregue o banheiro e os panos de chão. Olha só, já começa até a subir o tesão. O problema é que em determinado momento da vida a dois, o macho hetero, espécime que me toca, parece esquecer o básico da sedução e quer só o doce. Conveniente, só que não.

A ausência de mecanismos de cortejo somou-se à famigerada baixa de autoestima por causa do peso e aí o bolo desandou completamente. Durante a pandemia, adquiri muitas coisas, inclusive quilos. Tentei adquirir junto com eles a sabedoria de ver meu corpo como ele é e achá-lo lindo e gostoso, mas não foi bem assim que as coisas aconteceram. Minha autoestima sofreu e junto com ela a libido. Decidi tomar as rédeas da situação e comecei a me exercitar e a emagrecer. Devo dizer que não foi sem tristeza que me dei conta de que ao emagrecer comecei a querer comer, no outro sentido mesmo. Resultado, até para transar a pessoa tem que ter um corpo X, a barriga negativa e a bunda Y? Olha, eu falhei, mas não falhei sozinha, nós falhamos como espécie humana.

Foi aí que uma noite dessas demos uma maravilhosa e ele ficou todo cheio de argumentos para que o ritmo fosse mantido. Um deles foi o fato de que sexo emagrece. Caí na besteira de me pesar e anunciar que perdi 200 gramas depois da transa. Quem faz isso pelo amor da deusa? Mas fraca que sou, cedi e decidi: agora vamos transar dia sim dia não, domingo, terça, quinta e sábado, depois segunda quarta e sexta e volta o calendário, como nos treinos fitness. Ele se perdeu, só ouviu que ia transar com muita frequência e ficou radiante.

Mas frequência não é tudo, também é preciso manter o padrão de qualidade, afinal, se sexo emagrece, uma transa apaixonada emagrece muito mais. Combinamos, portanto, que faríamos como os pássaros: ele vai limpar o terreno, pentear bem as penas, performar uma dança exótica e um canto lírico, enquanto eu, fêmea que sou, vou fazer o exercício não menos complexo de aprender a amar minhas penas cinzas e de quebra ainda fico aqui de cima do meu galho decidindo se ele está sendo digno o suficiente como macho.

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