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Para driblar o desemprego, aplicativos de delivery viram fonte de renda

Matheus Buranelli

Por Matheus Buranelli

31/07/2019 - 9:00 h | Atualizada em 01/08/2019 - 16:21
Jeferson Bacelar trabalhava com telemarketing; agora, o delivery é sua única fonte de renda
Jeferson Bacelar trabalhava com telemarketing; agora, o delivery é sua única fonte de renda -

Como o trabalho de entregador de pizza só ocupa duas horas do turno da noite, Carlos Paulo Cotrin, 19, começou a trabalhar como entregador em aplicativos de delivery há nove meses, de bibicleta. Acabou que o que era para ser uma “grana extra” se tornou sua principal fonte de renda. Apenas com as entregas via app ele recebe em torno de R$ 2 mil (100% a mais do que ganha na pizzaria). Cadastrado nos principais aplicativos de delivery em operação em Salvador (Rappi, iFood e Uber Eats), trabalha diariamente cerca de oito horas com uma folga semanal num dia útil de sua escolha.

Desde que foi demitido do emprego de garçom, há três meses, Jailton Oliveira, 35, também entrou no ramo de delivery e consegue custear todas as despesas trabalhando cerca de sete horas por dia. A atividade precisa incluir os finais de semana, quando o número de pedidos aumenta e, com sorte, o multiplicador que age sobre o valor da entrega também. Ele motorizou a bicicleta para fazer mais entregas e, embora receba menos do que no trabalho anterior, ganha cerca de R$ 1 mil por mês.

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Jeferson Bacelar, 21, também ganha em torno de R$ 1 mil por mês trabalhando todos os dias. Ele, que é ciclista do tipo que usa equipamentos de proteção individual, faz pedal esportivo e veste roupas de lycra, pedala cerca de 30 km por dia só indo e voltando do Alto do Cabrito até a Barra, onde os aplicativos têm mais demanda de pedidos. “Sou ciclista profissional há oito anos. Como já estava pedalando sem ganhar nada, decidi trabalhar fazendo o que gosto”, conta.

Há muitos ciclistas que veem nesse trabalho uma oportunidade. Fundada em 2011, a iFood é uma das pioneiras nesse serviço, seguida pela Uber Eats, em 2014, e no ano seguinte pela Rappi e Glovo, que encerrou as operações no Brasil em março devido à competitividade do mercado. As empresas não divulgam o número de colaboradores cadastrados para se resguardar da concorrência. A maioria dos apps trabalha exclusivamente com delivery de comida, que é a maior demanda, mas também ocorrem entregas de produtos como remédios, documentos e demais objetos. Os pedidos mais comuns são de almoço, hambúrguer e pizza, mas há casos de ciclistas que já entregaram ventilador de teto, piscina de plástico e até mesmo uma bicicleta.

Rodando em mais de um aplicativo nos horários de pico, que vão das 11h às 15h e das 19h às 23h, é possível conseguir cerca de cinco entregas em um dia. Por cada pedido, os ciclistas recebem um valor mínimo de R$ 3,50 (Uber Eats), 3,80 (iFood) e 5,40 (Rappi) para curtas distâncias. No caso de distâncias maiores, é somado o valor da quilometragem (R$ 0,81/km percorrido, no caso da Uber Eats) e o resultado final é multiplicado por uma taxa que equaciona o número de pedidos e entregadores disponíveis em cada região, como a Uber faz com o transporte de pessoas.

Sem vínculo nem direitos

Ganhando entre R$ 30 e R$ 40 por dia, é possível somar de R$ 900 a R$ 1200 por mês. A atividade atrai, levando-se em conta a taxa de desemprego no Brasil, que atingiu 13,2 milhões de pessoas. Para quem tem disponibilidade (lê-se: tempo + bicicleta) este é um caminho prático para ter uma renda. “A maioria das pessoas que estão rodando querem ser autônomos e ganhar dinheiro, pois é uma área que está crescendo bastante”, avalia Jailton.

O investimento para quem já tem uma bicicleta é baixo. Pagando R$ 50 (Uber Eats) ou R$ 60 (Rappi) se adquire a bag térmica para transportar os pedidos. Como quase nenhum dos entregadores se cadastra em apenas um aplicativo, não importa muito qual a marca estampada na mochila.

O principal atrativo para os entregadores é a independência, por se tratar de um trabalho com liberdade de fazer seus horários. No caso dos chamados Operadores Logísticos (OLs), entregadores que têm preferência para receber pedidos nos aplicativos, também é cobrada uma carga horária mínima de trabalho, como um emprego convencional.

O processo para ser um colaborador dessas empresas é semelhante. É necessário ser maior de 18 anos e efetuar um cadastro pelo site ou pelo app. Depois é preciso ativar a conta participando de uma capacitação da empresa, que pode ser realizada presencialmente, assistindo a uma palestra, ou à distância, por meio de um vídeo institucional. Esse processo não gera vínculo empregatício, o que significa que os colaboradores não têm direitos trabalhistas garantidos.

Segundo o Ministério Público do Trabalho, esses entregadores não são autônomos, pois se submetem às escolhas do algoritmo, que orienta qual o pedido, onde deve ser entregue e quanto será pago por isso. “Essas empresas negam o vínculo de emprego, afirmam que se limitam a fazer a conexão entre o solicitante e o fornecedor do serviço sem nenhum controle acerca do trabalho, o que não é verdade. O controle é exercido de uma outra forma, que nós chamamos de subordinação cibernética, onde o trabalhador tem que ser cadastrado em uma plataforma e seguir o passo-a-passo determinado por ela”, explica a procuradora do trabalho Vanessa Patriota.

As condições de trabalho são precárias. Como se vinculam às empresas como “parceiros”, não funcionários, usam seus celulares, bicicletas e alguns até racionam o pacote pessoal de dados de internet móvel para atenderem os pedidos. Os bugs dos aplicativos também prejudicam os entregadores. Segundo eles, além de aceitar e recusar pedidos sozinho, o app da Rappi também gera dívidas. Caso o cliente não esteja em casa ou o endereço esteja incorreto e a entrega não for concluída, frequentemente repassam a conta para o entregador. Ao ser questionada, a empresa não se dispôs a esclarecer essa prática.

A Uber Eats é a única que indeniza por danos físicos, mas apenas enquanto o pedido está aberto. Qualquer acidente fora do trajeto até o restaurante ou a casa do cliente não é responsabilidade da empresa, que não cobre danos materiais por entender as ocorrências de furto e roubo como questões de segurança pública.

No dia 9 deste mês, o entregador Thiago de Jesus Dias morreu ao passar mal enquanto atendia a um pedido de uma cliente feito pela Rappi, em São Paulo. Ela ligou para a empresa para relatar o que estava acontecendo, mas a Rappi não prestou socorro ao rapaz. Em nota, lamentou posteriormente o ocorrido.

Respeite o ciclista

Os apps são os mesmos para ciclistas e motociclistas, com a diferença que para os primeiros existe uma distância limite de cerca de 6 km (ida e volta) para cada entrega. Por esse motivo, alguns ciclistas se queixam quando o algoritmo envia motociclistas para atender pedidos a um quarteirão de distância e argumentam que os apps deveriam dar a preferência para eles em localidades próximas.

Além de não terem prioridade nos aplicativos, nas ruas os entregadores também precisam disputar espaço. “No Corredor da Vitória, volta e meia tem um carro parado na ciclofaixa”, alerta Jailton sobre o risco de acidente. Segundo a Transalvador, foram registradas 107 ocorrências envolvendo ciclistas na cidade no ano passado e três resultaram em óbito. A capital baiana conta com a quinta maior rede cicloviária do Brasil, com 245,63 km de extensão, mas para Jeferson, que pedala na ciclovia da Avenida Suburbana, as vias ainda estão aquém do desejado. “Parece que quem projetou nunca pedalou”, critica.

Para driblar as dificuldades do trabalho, os entregadores espontaneamente se organizaram em lugares com maior concentração de restaurantes e pedidos para facilitar o deslocamento e otimizar o tempo das corridas. Do lado de fora do Shopping Barra, ao lado do bicicletário, vários ciclistas esperam os pedidos “baterem”, como costumam dizer. Quando o celular toca, um sai da conversa, entra no shopping e volta para montar na bike. Neste e em outros pontos na cidade eles fazem hora entre uma entrega e outra, carregam os celulares e tiram dúvidas sobre localização. “Aqui, a gente fica entre amigos, um ajuda o outro quando precisa”, conta Jailton. Eles estão juntos, mas pedalam sós. E não querem ser deixados para trás.

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