Para que pressa? Conheça o slow living

Publicado segunda-feira, 14 de junho de 2021 às 06:00 h | Atualizado em 13/06/2021, 11:16 | Autor: Adriano Motta*

Em um mundo em que tudo muda muito mais rapidamente do que se consegue acompanhar, saber quando e como colocar o pé no freio é não só algo recomendado como se mostra uma habilidade cada vez mais importante. E é buscando essa desaceleração da vida cotidiana que movimentos como o slow living ganham cada vez mais força mundialmente.

Essa proposta busca uma reflexão sobre a velocidade e excesso de informações com que vivemos e prega um estilo de vida mais simples, voltado à manutenção de relações mais afetuosas com a natureza e com as pessoas.

De certo modo, é uma extensão do movimento Slow Food, que talvez você já tenha ouvido falar, que prega deixarmos de lado o consumo de fast-food e comidas processadas para nos alimentarmos de modo mais saudável.

Ambos surgem na Itália, no fim dos anos 1990, e começam a ganhar força global após a última década, com o slow food tendo mais repercussão inicialmente, e o slow living ganhando seu espaço nos últimos anos.

Ambos também fazem parte da ecopolítica, movimento que busca apresentar soluções voltadas ao bem-estar ambiental, fugindo da lógica do capitalismo industrial de alta velocidade, eficiência acima de tudo e destruição dos recursos naturais.

Segundo a psicóloga Izabelle Nossa, que promove diversos workshops sobre o tema aqui em Salvador, o slow living é, antes de tudo, um movimento de autorreflexão. “É eliminar tudo aquilo que não é essencial na sua vida”, afirma.

Desempenho

Uma das principais questões da modernidade é a saúde mental da população: a depressão é uma das doenças mais frequentes do mundo. De acordo com a OMS, 2020 seria o ano em que a depressão se tornaria a principal doença até a Covid-19 roubar a cena. Ao lado dela, está a síndrome de burnout (ou esgotamento), em que o estresse crônico gerado por longas jornadas de trabalho têm se tornado também um dos grandes problemas da nossa vida digital.

“Vivemos em uma sociedade onde se valoriza muito o desempenho, e as pessoas são avaliadas pelo nível de produtividade. Isso tem um efeito deletério na psique humana, um esgotamento físico e mental”, afirma Izabelle.

É justamente por conta desses motivos que surge o slow living: da necessidade de desacelerar para lidar com o mundo no qual vivemos, além de ser também um questionamento do atual modelo produtivo, pautado na extrema produtividade e em capacidades de realizar multitarefas.

“É um movimento de autoconhecimento e autoconsciência, para se dedicar àquilo que faz mais sentido para você. O slow living é sobre uma vida contemplativa, onde o sujeito sabe dizer não ao excesso de estímulos. É sobre foco e abandono de trivialidades”, diz a psicóloga.

Se, na Europa, o slow living é um movimento mais estabelecido, no Brasil ainda não é muito popular. E uma das pessoas que estão trabalhando para ajudar a mudar esse cenário é a comunicóloga Camila Soares, 37.

Sua história com o slow living começa em 2017, quando, após voltar de um período morando em Arraial d’Ajuda, sentiu que era o momento de buscar uma vida mais leve, e o movimento surgiu como a resposta que estava procurando. “As coisas não deram muito certo por lá, mas a busca por uma vida mais desacelerada foi um caminho sem volta”, afirma Camila.

Ainda em 2017, ela criou o blog (e também um perfil no Instagram, que conta com mais de nove mil seguidores) que comanda hoje, o Slow Lifestyle, onde ajuda outras pessoas que estão querendo tomar a mesma estrada rumo ao autoconhecimento e botar um pé no freio na rotina.

“O site começou como uma forma de trazer questionamentos meus para pessoas que se sentissem atraídas pela necessidade de uma vida com menos pressa. Esse é um trabalho de formiguinha que a gente faz, espalhando a palavra e fico muito feliz de realizá-lo”, conta Camila, cujo blog conta com textos que passam das 20 mil visualizações.

Para ela, o slow living costuma ser mais forte dentro das grandes capitais – ela mesmo diz que é em São Paulo que está a maior parte de seu público –, por ser justamente nesses locais onde é mais necessário. “Muita gente pensa que quem adere a um estilo de vida mais lento é uma pessoa zen, calma, mas é justamente o oposto. É para quem está cansado de não ter tempo para nada e quer reajustar a vida”.

E para quem se sentiu compelido a botar um pezinho no freio na rotina, a dica é clara: não há passo melhor do que começar. “Não existem regras de como começar. Cada um faz o que pode e como consegue, mas o importante é questionar gastos desnecessários, relação com o mundo digital para conseguir ter mais tempo aproveitando as coisas boas da vida”, diz Camila.

*Sob supervisão do editor Marcos Dias

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