Pesquisador Daniel Marques diz que Metaverso de Mark Zuckerberg “é o golpe perfeito”

Publicado domingo, 14 de novembro de 2021 às 06:00 h | Atualizado em 13/11/2021, 14:26 | Autor: Bruna Castelo Branco

Dia desses, meio que do nada, uma nova palavra foi adicionada às nossas conversas: Metaverso. Depois de lançar um vídeo falando que o Metaverso será a “nova internet” e a “evolução da internet móvel”, Mark Zuckerberg, o bilionário dono do Facebook, fez todo mundo se perguntar: mas que diabo é isso? O pesquisador da Universidade Federal da Bahia (Ufba) e professor da Universidade Federal do Recôncavo Baiano (UFRB), Daniel Marques, que pesquisa cultura digital, privacidade e materialidade das plataformas digitais, explica: se trata de “ambientes virtuais que utilizam como instrumento tecnologias de Realidade Virtual e Realidade Aumentada”. A ideia é que essa nova internet seja como um jogo online desses que a gente já conhece, cheio de interação e gráficos bem feitos, mas um pouco mais ‘futurista’: com a ajuda de óculos de Realidade Virtual, o usuário pode quase que viver no Metaverso, caminhar, interagir com outras pessoas, assistir a shows, visitar museus e até trabalhar. Mas e a nossa privacidade e proteção de dados, como ficam? E as interações em carne e osso? E o que acontece com a internet e as redes sociais que a gente já conhece? Nesta entrevista, Daniel fala sobre democracia digital, impedimentos tecnológicos para a realização do Metaverso, regulamentação das redes sociais e já adianta: “Eu não acho que o Metaverso vai se tornar uma realidade”.

Acho que a maioria das pessoas nunca tinha ouvido falar em Metaverso até recentemente. Então, a primeira pergunta é bem simples: o que é um Metaverso?

É uma pergunta simples mais ou menos, né? (risos). Tem várias formas de responder a essa pergunta. Esse Metaverso que a gente está falando, relacionado ao Facebook é, como o próprio Facebook chama, a “evolução da internet”. No vídeo institucional do Facebook, Mark Zuckerberg falou assim: “O Metaverso vai ser a evolução da internet móvel”. Hoje, quando a gente usa a expressão Metaverso, estamos nos referindo a ambientes virtuais que utilizam como instrumento majoritariamente tecnologias de Realidade Virtual e Realidade Aumentada.

Qual é a diferença entre Realidade Virtual e Realidade Aumentada?

Realidade Virtual é quando o usuário usa algum tipo de aparato para fazer uma imersão, digamos assim, quase completa em um ambiente. Hoje, quando você usa aqueles óculos, toda a sua visão é capturada e você é transportado para um ambiente virtual. Já a Realidade Aumentada é a ideia de você usar dispositivos como a câmera do celular para ver coisas do ambiente que não estão ali. E o Metaverso mistura um pouco dessas duas coisas.

E vai ser necessário o uso desses aparatos, como óculos, para acessar a internet? Você acha que seria prático usar essas ferramentas no dia a dia quando o Metaverso se tornar uma realidade?

Bom, tem duas questões: a primeira questão é, eu não acho que o Metaverso vai se tornar uma realidade. Eu acho que vai falhar miseravelmente (risos). Eu sou muito crítico a essa ideia do Metaverso, e acho que há vários motivos para isso. Mas, a priori, sim, a ideia é que, para você se engajar naquilo, você precisa de instrumentos específicos. É uma coisa estranha ainda você colocar um óculos de realidade virtual. Mesmo que eles tenham se tornado menores, muito mais ergonômicos, ainda é um trambolho. O Facebook dá a entender que a ideia deles é transformar isso em uma tecnologia não tão intrusiva, mais palatável comercialmente, de forma que você não precise de nenhum trambolho para fazer parte daquilo. E o vídeo institucional do Facebook também dá a entender que você vai ter outras formas de fazer parte do Metaverso, não necessariamente precisa de um óculos de Realidade Virtual. Você vai ter o seu celular, a Realidade Aumentada, então… parece que estão combinando tudo para tentar vender essa ideia de que o Metaverso é possível. Mas, como falei, não acho que o Metaverso vai se concretizar, pelo menos não como essas empresas estão imaginando.

Por quê?

Na realidade, a gente já vive em um Metaverso. Pense aí se você consegue realizar o seu dia a dia, viver, trabalhar, se relacionar com as pessoas, sem depender de Google, Facebook, Amazon, Apple e Microsoft, que são as cinco grandes? A gente já está muito inserido. Há 30 anos, quando a internet começou a se popularizar, as pessoas criavam essa ideia do ciberespaço, de que existe um mundo real e um ciberespaço onde você vai ter uma segunda vida. Só que, à medida que o tempo foi passando, a internet e o mundo físico se tornaram inseparáveis. Um exemplo disso foi quando o Facebook caiu recentemente. Quantas pessoas não perderam uma grana naquele dia porque não tinham como atender clientes pelas redes sociais? Nós já estamos conectados de uma maneira muito poderosa, muito difícil de desconectar. E, nesse momento, o Metaverso cria essa ideia de libertação, essa visão de que é um lugar onírico, parece Pasárgada, em que as pessoas vão para se libertar dos problemas do mundo. Mas, se você parar para pensar, é literalmente uma Matrix, e as pessoas voluntariamente vão para a Matrix.

Eles prometem uma internet mais livre, como você falou, mas me parece o inverso. Essa liberdade é uma promessa que deve continuar como promessa?

Totalmente. Por que o Facebook, recentemente, mudou o nome da empresa principal para Meta? Estamos vivendo em um momento em que as pessoas estão tendo mais atenção para o papel social que essas grandes empresas de tecnologia têm no mundo. Se você pensar em transferir toda a nossa vida social para um ambiente virtual, esse ambiente não vai ser aleatório, vai ser um ambiente privado que pertence a megacorporações que têm interesses políticos específicos. E parece que cada vez mais pessoas e Estados têm a noção de que precisamos olhar para isso. Várias democracias do mundo foram ameaçadas nos últimos anos porque a gente não sabe lidar com o funcionamento dessas plataformas. Tem alguns autores que usam a expressão “Colonialismo de Dados” para se referir a forma como essas plataformas colonizam a vida social das pessoas. Até determinado momento, as pessoas se relacionavam de uma maneira. Agora, é através do Facebook. Você tinha uma forma de relacionamento e a rede chega e desapropria isso: “Agora é através de mim, porque eu preciso capitalizar em cima dessas relações que produzem dados e me ajudam a vender propaganda”. E me parece que o Metaverso quer expandir esse processo, você vai precisar estar inserido o tempo todo. Você vai a shows, a museus, espetáculos… então, veja que tudo está sendo abarcado por esse projeto de Metaverso. Se você parar para pensar, esse é o golpe perfeito, porque você está anexando a vida das pessoas quase que totalmente às plataformas. O potencial disso para a produção de big data, de inteligência de dados e capitalização é assustadora.

Hoje, já se fala muito sobre como a internet, especialmente as redes sociais, adoece as pessoas – ajuda a fomentar problemas de autoestima, ansiedade e distúrbios alimentares, por exemplo. E ainda tem a facilidade para se veicular e espalhar notícias falsas. Como o Metaverso deve lidar com isso? Há um meio de se combater?

Acho que todos os problemas que a gente já tem com a internet hoje tendem a se amplificar com o Metaverso. Fake news, problemas relacionados à ansiedade, depressão… por que isso é difícil de combater? Porque não temos clareza de como funcionam essas plataformas por questões proprietárias. Não temos acesso, digamos assim, ao algoritmo do feed do Instagram para saber por que a blogueira fitness aparece mais vezes do que a sua tia, por exemplo. Até para a gente, que pesquisa isso, é difícil elaborar teorias porque, por ter uma lógica proprietária, é de difícil acesso. E esses problemas são, na verdade, a forma como essas plataformas capitalizam. Veja quantos anos levamos brigando com as plataformas até que, de fato, elas tomassem alguma decisão sobre atores políticos importantes no mundo, como, por exemplo, Trump. Precisou a galera invadir o Capitólio e Trump desafiar as eleições para que o Twitter tomasse a decisão de o banir. Chegou um momento em que a opinião pública não podia ser mais ignorada. Mas, para as plataformas, engajamento é o grande combustível. E o que produz engajamento? Polêmica, briga, fofoca. A nossa “sorte” é que a opinião pública começou a virar a chave. O problema das fake news não é só o usuário que é inocente e compartilha no WhatsApp, e nem de quem cria aquilo. O problema também está no sistema da plataforma que facilita esse comportamento.

Outro ponto interessante é sobre as normas que vão reger esse universo. É muito comum que, no universo gamer, mulheres sejam assediadas, ameaçadas de estupro e ridicularizadas por usuários. Será que vai haver alguma forma realmente efetiva de se coibir esses comportamentos?

A primeira coisa para a gente pensar é que temos que perder o medo de regulamentação. Criou-se um imaginário de que qualquer tipo de intervenção vai constranger a capacidade das empresas de inovar. Fica parecendo que o governo está indo ali para estragar. Então, quando se fala de regulamentação, o Vale do Silício fica em polvorosa, e isso tem muito a ver com essa ideia neoliberal de que você tem que deixar tudo na mão do mercado para que a tecnologia se desenvolva, e isso em detrimento de qualquer coisa. Por isso, a gente tende a agir depois que acontece o problema. Se você pegar, por exemplo, a Lei Geral de Proteção de Dados, que é a legislação que temos aqui no Brasil, ela fala sobre como lidar com os dados depois que eles são coletados. Só que discutimos muito pouco sobre o antes. Por que uma pessoa se colocou em uma situação de permitir que seus dados fossem coletados? Ela não toma essa decisão de maneira autônoma, essa é uma grande falácia. Eu não tenho mais como optar entre ter uma conta ou não no Google. O primeiro ponto é esse, a gente precisa começar a desmistificar a regulamentação e olhar para isso ainda durante o processo de desenvolvimento das novas ferramentas. Não podemos simplesmente deixar o Metaverso ser lançado e torcer para que aconteça o melhor. E eu não confio na capacidade de uma plataforma fazer uma auditoria interna. O principal desafio que temos para criar ambientes digitais mais democráticos é pensar de maneira séria sobre estratégias de auditoria e regulamentação. O grande impedimento disso é que estamos lidando com grandes corporações que têm capital econômico e político maior do que o de países. Às vezes, temos legislações que mais favorecem essas plataformas do que desfavorecem.

E o Brasil? Você acha que o Brasil está indo em um bom caminho em relação à proteção de dados?

Acho que a Lei Geral de Proteção de Dados é sólida, é adequada, fruto de muito trabalho da comunidade científica, da comunidade civil organizada. Só que a gente tem um problema enorme que é a forma de você exercer a lei. E, infelizmente, temos hoje um governo federal que não tem nenhum interesse em usar a lei de uma maneira adequada. Por exemplo, o Governo Federal usou várias vezes a lei para justificar o sigilo de informações que não deveriam ser sigilosas. Então, há uma deturpação no uso dessa legislação.

Quando a internet começou a se popularizar no Brasil, se falou muito sobre democracia digital e acesso para todos. Mas, ainda hoje, há muita desigualdade: nesse período de pandemia, por exemplo, muitos estudantes não conseguiram acompanhar as aulas virtuais porque não tinham acesso à internet, especialmente quem vive em zonas rurais. O Metaverso, que deve exigir uma internet muito mais potente e dispositivos de última geração para funcionar, vai aumentar esse abismo?

Acho que sim. Sou professor da UFRB, e a UFRB é uma universidade do interior, temos um perfil de estudante de uma camada sócio-econômica bem fragilizada, e eu posso contar nos dedos a quantidade de estudantes que tenho com um bom acesso à internet e um equipamento que não seja um celular para estudar. Isso aí demonstra esse problema. Acho que esse é um grande empecilho para a implantação dessa visão do Metaverso.

As redes sociais que conhecemos hoje, supostamente, são de graça. Se a gente tiver acesso ao Wi-Fi, pode ter um Instagram, um Facebook. Mas o Metaverso não, parece que é bem mais caro.

Exatamente, aí isso cria um problema de classe também. A gente ainda vive em um mundo marcado por uma desigualdade tecnológica absurda. No Brasil, o acesso à internet não é uma realidade como as pessoas falam. Quem vai poder ter acesso a isso?

Publicações relacionadas