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Potenciais do video mapping para interpretar artisticamente o patrimônio histórico

Publicado segunda-feira, 18 de outubro de 2021 às 06:00 h | Atualizado em 17/10/2021, 21:06 | Autor: Yumi Kuwano
Castelo Garcia D'Ávila está exibindo projeções no Pátio de Honra | Foto: Divulgação
Castelo Garcia D'Ávila está exibindo projeções no Pátio de Honra | Foto: Divulgação -
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Um cenário vivo. Essa pode ser a descrição para o video mapping, técnica de projetar um vídeo, criado especialmente para essa finalidade, em uma grande estrutura, como fachadas de prédios históricos, ou objetos menores, como um tênis. Uma maneira perfeita de se expressar artisticamente.

Em Salvador, o maior evento de mapping acontece anualmente, desde 2017, o festival SSA Mapping. De acordo com o produtor e diretor técnico Zé Henrique, o objetivo do evento é a ocupação dos espaços públicos da cidade, jogar luz, literalmente, no patrimônio arquitetônico e ressignificá-lo através da interpretação dos artistas: "Temos muita história para contar e recontar de maneira correta".

O evento hoje tem uma importância para a cena das artes visuais, porque fomenta e atrai diversos artistas. “Recebemos artistas de todo mundo. O festival tomou uma proporção internacional e cada vez vemos um interesse maior, mais pessoas participando”, comenta o produtor.

Quem veio para participar do SSA Mapping e acabou ficando por aqui foi a VJ Ani Haze. A paulista conta que ser da geração MTV a fez gostar muito de videoclipes e, a partir de tudo que ouvia, imediatamente criava um filme na cabeça.

Aprendeu o básico da edição de vídeos e criava misturando imagens de filmes antigos e músicas atuais. “Em 2006, fui a um show do Chemical Brothers no Brasil e ali entendi o que eu queria na minha vida como profissional. Vi um show com a música sincronizada com vídeos com mensagens sociais”. Foi naquele momento que passou a ir atrás do mapping.

Ani estudou música eletrônica e, como DJ, introduziu a projeção de vídeo nas festas em que tocava: aniversários, karaokês, raves, no Rio de Janeiro e em São Paulo. “Oferecia as projeções em um pacote, como uma decoração, um cenário”, conta.

Superfícies

Spetto também teve um início de carreira como VJ parecido. Desde 1997 trabalhava como produtor de vídeo e tinha um projeto de música eletrônica. Começou a gravar algumas fitas de videocassete e botava para tocar durante as suas apresentações como DJ, até que começou a chamar a atenção de outras pessoas que se interessaram pelas projeções.

“Ligar um projetor em uma parede e falar que é video mapping é completamente errado, isso é só uma projeção, porque o video mapping tem que levar em consideração a superfície em que é projetado”, explica Spetto.

Por isso, Ani só fez um video mapping mesmo quando participou de uma oficina e teve a experiência de colocar os seus vídeos em um prédio na Rua Augusta, em São Paulo.

De acordo com ela, o mapping na cidade é uma intervenção urbana em que você não escolhe público, faz para todos: “É a sua narrativa, a sua estética, a sua pesquisa projetada na arquitetura na cidade. Você transforma o lugar, movimenta as paredes, conta histórias em cores, é um grande cinema de arte aberto”.

O VJ Gabiru explica que para criar um video mapping, primeiro se faz uma espécie de planta, um modelo bidimensional do objeto em que vai projetar, baseado em um ponto de vista daquele objeto, para se construir as imagens. Independentemente de ser um prédio ou algo menor: “As etapas são: criar um modelo bidimensional, um vetor, um modelo tridimensional e então construir as animações para o produto final, que é o vídeo”.

Ao lado dos VJs Spetto e Grazzi, Gabiru participa da exibição de video mapping que está ocorrendo no Castelo Garcia D’Ávila, em Praia do Forte, todos os fins de semana e feriados. A ideia do projeto com curadoria de Rose Lima e Fritz Zehnle Jr. é mostrar ao público que naquele lugar houve a junção de portugueses, africanos e povos originários e como isso pode ser entendido como a história da Bahia e do país, a partir da saga da família Garcia D’Ávila.

“Escolhemos o mapping porque podemos fazer uma intervenção no patrimônio histórico de forma efêmera: na hora da projeção mapeada, alteramos totalmente a superfície, mas depois ela volta ao que era antes, sem alterar ou danificar o patrimônio”, analisa Rose.

Gabiru fez a engenharia de projeção e toda parte técnica do projeto. O trabalho final dele é um mapping de 20 minutos que conta a história das 10 gerações da família Garcia D’Ávila.

Já Spetto foi convidado para fazer uma das peças da fachada, em que fala sobre as energias e entidades que chegaram com os povos de fora e o encontro com a cultura indígena que já estava aqui. “Em vez de falar das dores da colonização, preferi falar das forças que vieram com as pessoas que chegaram e como essas forças se formaram na nossa terra”, conta.

Espaço

De acordo com Ani, a cena das mulheres no video mapping cresceu bastante nos últimos anos. Hoje elas fazem parte de um coletivo, o Multimanas, com mais de 50 mulheres VJs pelo Brasil, e há dois festivais brasileiros idealizados por mulheres: o Salvador Mapping e o Amazônia Mapping.

“Ainda não há um espaço igualitário, muito menos na parte técnica, mas estamos crescendo, pois criamos as oportunidades, os festivais, os projetos. Criamos os espaços”.

Durante a pandemia, a artivista, como gosta de ser chamada, aproveitou para divulgar ainda mais o seu trabalho e as suas ideias, projetando para os vizinhos mensagens políticas, filmes e até homenagens, o que chamou a atenção não só do bairro, mas de marcas e ONGs que passaram a conhecer e entender como os espaços podem ser usados para a comunicação.

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