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Professores avaliam condições do ensino durante a pandemia e o retorno às aulas presenciais

Publicado às | Atualizado em 02/10/2021, 12:50 | Autor: Yumi Kuwano
A professora Paula Miranda durante uma aula | Foto: Shirley Stolze | Ag. A TARDE
A professora Paula Miranda durante uma aula | Foto: Shirley Stolze | Ag. A TARDE -
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Dentre tantas perdas que a pandemia causou, há particularidades em relação à educação. Sobretudo porque ressaltou ainda mais as desigualdades sociais. Enquanto a maioria das escolas particulares conseguiu rapidamente buscar soluções e se adaptar ao novo momento, alunos de escolas públicas não tiveram o mesmo êxito. Além dos incontáveis prejuízos para a sociedade, mesmo com todos os obstáculos enfrentados, é possível enxergar uma aprendizagem advinda da crise sanitária e humanitária.

Para a professora Paula Miranda, do 4º ano do Colégio Marízia Maior, o principal prejuízo, sem dúvida, foi a perda da interação, que para crianças e adolescentes é essencial. Ela enfrentou diversas dificuldades desde o início da pandemia. “Tive que me tornar uma professora youtuber. Da noite para o dia tive que aprender a gravar, editar, postar”, e assim aprendeu a ressignificar os conteúdos e formatos.

Isso porque, no início, as aulas estavam sendo gravadas e não ao vivo, como foi possível depois de um tempo de planejamento e escolha das ferramentas utilizadas. Ela conta que foram várias noites sem dormir e que precisou muito do apoio de colegas, amigos e família, principalmente no primeiro momento. De acordo com Paula, em um período delicado como esse, foi preciso desenvolver, mais do que nunca, a empatia e o cuidado mútuo.

Mas se compararmos com a realidade de uma escola pública, como o Centro Estadual de Educação Profissional Anísio Teixeira, na Caixa D’água, por exemplo, em que o professor Bruno Cova leciona para o ensino técnico de análises clínicas, é tudo muito diferente. O principal traço do ensino remoto, na sua opinião, foi a exclusão. Ou seja, quem tinha condições de assistir às aulas, assistia e participava, mas isso era uma realidade para poucos, cerca de metade da sua turma de 30 estudantes.

E não só os alunos, mas os professores também vivenciaram dias muito difíceis, tirando do próprio bolso recursos para compra de equipamentos, pacotes de internet e se viraram com o conhecimento para utilizar a tecnologia.

Sem contar que o ano de 2020 foi praticamente nulo para a educação estadual da Bahia, porque as aulas remotas só começaram, de fato, em 2021. De acordo com ele, o hiato na educação causado pela pandemia gerou prejuízos que devem levar anos para repor o que foi perdido.

“Eu diria, com cuidado, porque claro que existem paliativos e muitas pessoas vão correr atrás dos prejuízos, que a pandemia comprometeu toda uma geração, e isso é irreversível, porque o conhecimento é cumulativo”.

Alguns estudantes convivem em diversos contextos de violência, vulnerabilidade social e emocional, perdas de pessoas da família e amigos pela contaminação com a covid-19, o que resultou em inúmeros danos psicológicos e casos de depressão.

No Colégio Estadual Ypiranga, a professora de matemática Maysa Conceição ressalta que a falta de proximidade com a família dos estudantes foi uma grande dificuldade, porque não era possível entender a situação e as limitações de cada aluno. Além, claro, das questões de acesso aos equipamentos eletrônicos e à internet, o que mobilizou professores da escola a auxiliarem alguns estudantes para a compra de créditos para o celular.

A professora conta que na sua disciplina, culturalmente vista entre as crianças e adolescentes como uma matéria complicada, os obstáculos foram constantes, mas destaca o que diz respeito à continuidade do interesse na escola. “Nos preocupamos muito com o conteúdo, claro, mas principalmente em mostrar a importância da educação. Tivemos e estamos fazendo um trabalho muito forte de resgate dos alunos”, pontua.

No ensino médio, quando os jovens estão prontos para dar adeus à escola e partir para a faculdade ou para o mercado de trabalho, surgiu a pandemia e mesmo estando prestes a concluir aquela etapa, a necessidade de deixar os estudos muitas vezes fala mais alto. “As famílias precisam daquele dinheiro, então, eles precisam trabalhar para levar renda para casa”.

Paula Miranda percebeu a questão emocional dos alunos e conta que buscou esse diálogo constante com os pais. “Acredito que a mudança de rotina foi o mais difícil para todos, principalmente para as famílias das crianças que tiveram que lidar com questões de ansiedade. Sou uma professora que me permito conversar com a família, falo pelo telefone, WhatsApp, porque o que mais me fez falta foi não ter esse contato direto com os estudantes”.

Apesar do ensino remoto ter sido a única saída encontrada em tempos de pandemia, a forma como aconteceu em muitas escolas passou longe de ser o ideal. “Eu, professor com 34 anos, um millennial, que tive contato na adolescência com a tecnologia, tive dificuldades, e tenho colegas com uma dificuldade absurda de acessar os recursos”, analisa Cova.

De acordo com ele, a falha da secretaria de educação foi não ter realizado, ainda em 2020, uma formação pedagógica para utilização dessas tecnologias. As formações só foram oferecidas no início deste ano, com o início das aulas remotas, tudo no mesmo momento.

Hora certa

Crianças, adolescentes, pais, avós e familiares não aguentavam mais as aulas remotas, tampouco os professores. Todos estavam e ainda estão cansados da rotina imposta pela pandemia que transferiu as atividades feitas no ambiente escolar para dentro de casa.

Mesmo depois de tanto tempo, é difícil dizer que foi possível se acostumar com o modelo. Mas o retorno divide opiniões quando se trata o perfil das escolas.

Colocar crianças em ambientes fechados, ainda sem imunização, foi uma decisão tomada pelos gestores, com normas rígidas, que nem sempre conseguem ser atendidas pelas condições estruturais da própria instituição de ensino.

Bruno Brito concorda que algumas escolas estavam preparadas para esse retorno, como é o caso da Escolinha Maria Felipa – onde ensina inglês e artes para crianças da educação infantil e fundamental –, mas outras não, principalmente no ensino público. Para ele, nesse momento ficou clara a necessidade de um olhar mais atento em relação à vulnerabilidade dos alunos.

Quem viveu os dois lados, como Paula, professora e mãe de uma filha em idade escolar, também teve que lidar com o medo do retorno. “Tínhamos que voltar porque ninguém estava conseguindo mais. Com 16 anos, minha filha percebe a diferença de estar na sala e fora dela, não só pelo conteúdo, mas no emocional que tem sido o mais importante no momento”.

A professora sentiu na pele o impacto da nova rotina nesse um ano e meio em casa e ter se dividir entre as tarefas domésticas, trabalho e filho foi um verdadeiro desafio. “Lidamos com a falta de concentração nos estudos, ansiedade... A cada dia ia me aperfeiçoando e dando o máximo de assistência que podia. Mas por ser uma adolescente, ela mesma foi entendendo o compromisso que tinha que ter”, diz.

Entendimento

No colégio onde leciona, rigorosos protocolos estão sendo seguidos e, para ela, se subestima o entendimento das crianças sobre o que é necessário neste momento, já que elas se mostram bastante cuidadosas no dia a dia.

Na experiência de Brito, tem sido um retorno tranquilo, graças ao diálogo e engajamento da comunidade escolar e das famílias. A escola conseguiu adaptar os conteúdos, mas ele percebe nitidamente um prejuízo na interação social: “As famílias relataram queixas recorrentes sobre a falta do ambiente escolar durante os últimos meses”.

Um comportamento comum relatado por ele é a dificuldade de manter as crianças sentadas por muito tempo – isto é, mais de cinco minutos –, mas considera que é completamente compreensível diante dessa readaptação.

Iniciado no mês de julho, o sistema híbrido de ensino deveria funcionar assim: metade da turma iria para as aulas presenciais em dias determinados e a outra metade assistiria a transmissão ao vivo dessa mesma aula, de casa, com atividades remotas.

Mas, pelo menos no Centro Anísio Teixeira, não há condições para que isso ocorra e o que vem acontecendo é, na verdade, um rodízio. “Não tem equipamento, o professor tem que usar o próprio celular para transmitir a aula. A internet da escola não consegue suportar as transmissões em todas as salas, ou seja, não existe ensino híbrido e temos que repetir todo conteúdo duas vezes”.

Quando o ensino híbrido foi determinado, muitos professores não tinham ainda completado a imunização. “Graças ao sindicato, alguns conseguiram aguardar a vacina, mas muitos não retornaram e tiveram esses dias descontados do seu salário”, diz Cova.

Para ele, apesar do retorno ser extremamente importante, nas escolas estaduais isso se deu de forma abrupta, sem planejamento e a adaptação necessária ao novo contexto.

Na última quinta-feira, o governo do Estado anunciou que a previsão da transição do ensino híbrido para 100% presencial, que estava prevista para este mês, ainda não tem data definida por causa do aumento dos casos de covid-19.

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