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09/06/2024 às 7:00 • Atualizada em 09/06/2024 às 13:01 - há XX semanas | Autor: Gilson Jorge

Projeto Agô Bahia: um estímulo ao afroturismo em terreiros

A ideia de incrementar a visitação de turistas aos terreiros é um tema que provoca diferentes reações

Ordep Serra, professor, com Mãe Neuza da Casa Branca.
Ordep Serra, professor, com Mãe Neuza da Casa Branca. -

O vídeo promocional da Escola de Samba Unidos de Padre Miguel para o samba-enredo do Carnaval de 2025, que vai homenagear a pioneira ialorixá Iyá Nassô, começa com imagens aéreas de um drone vindo da Baía de Todos-os-Santos, que se aproxima do Comércio, cruza a Praça Castro Alves e alcança a escadaria ao lado do Cine Glauber Rocha, onde uma filha-de-santo segura no corrimão enquanto desce os lances de escada, em direção à Igreja da Barroquinha.

Bem ali perto, no Século 19, surgia o Ilê Axé Airá Intilê, o primeiro terreiro de Candomblé do Brasil, que, expulso do centro de Salvador pelo governo-geral, encontraria paz em um terreno que atualmente integra o bairro do Engenho Velho da Federação, em 1830. Surgia, assim, o Terreiro da Casa Branca, nome popular do Ilê Axé Iyá Nassô Oká, batizado em homenagem a Iyá Nassô.

Esse nome, na verdade, é um título atribuído a Francisca da Silva, uma das fundadoras do pioneiro Terreiro na Barroquinha. A Casa Branca, cujo tombamento como patrimônio cultural completa 40 anos, é um dos dez que integram a primeira fase do programa Agô Bahia, do Governo do Estado, que pretende fazer intervenções físicas em terreiros para alavancar o turismo religioso. Uma estratégia que pode ganhar um considerável apoio do Carnaval carioca, caso a Padre Miguel, que tem nas cores o branco de Airá e o vermelho de Xangô, conquiste o título na Marquês de Sapucaí no ano que vem.

Autora do livro 'Entre a oralidade e a escrita: a etnografia nos candomblés da Bahia', a historiadora e antropóloga Lisa Earl Castillo tem acompanhado o processo de divulgação do samba-enredo da Padre Miguel para o ano que vem. Ela considera a escolha importante para a divulgação de um conhecimento sobre o Candomblé que, normalmente, fica restrito a professores, pesquisadores e estudantes do ensino superior, como a viagem de retorno de Iyá Nassô à África, que é celebrada na memória oral do povo de santo e que aconteceu no contexto da repressão, depois da Revolta dos Malês.

"Ela tinha dois filhos que foram presos e condenados, pois as autoridades confundiram os ritos a Xangô, que aconteciam na sua residência, com reuniões para planejar a revolta", pontua a historiadora. Lisa assinala, por outro lado, que a sinopse divulgada pela escola traz um dado baseado na memória popular, mas que não encontrou sustentação documental, a ideia de que Iyá Nassô era rainha.

Salvador tem 888 terreiros de Candomblé e Umbanda
Salvador tem 888 terreiros de Candomblé e Umbanda | Foto: Tatiana Azeviche | Setur BA

Na última terça-feira, pouco antes da sessão especial da Câmara dos Vereadores para celebrar os 40 anos de tombamento da Casa Branca, a Mãe Neuza, ialorixá da do terreiro, comentou as ações oficiais para preservação do patrimônio cultural do povo de santo. "Para nós, filhos do Axé Iyá Nassô, é significativa a comemoração dos 40 anos, mas a luta ainda é muito grande. Nós estamos na metade do caminho. Não somos só nós os invadidos e a especulação imobiliária vai nos afunilando", afirma Mãe Neuza.

Segundo levantamento feito pela Fundação Mário Leal Ferreira, autarquia municipal, Salvador tem 888 terreiros de Candomblé e Umbanda. Estudiosos e pessoas ligadas aos cultos afro-brasileiros falam em milhares.

As regiões da cidade que mais concentram os centros de axé são a Liberdade e o Subúrbio Ferroviário. Uma gama de cultos espalhados pelo território soteropolitano que, como lembra Mãe Neuza, descendem da sacerdotisa que será o tema da Padre Miguel em 2025 e de outras duas mulheres que começaram com ela o culto na Barroquinha.

"Eu não tenho palavras para falar de Iyá Nassô. Sem ela, não estaríamos aqui. Sem ela, não existiriam os outros axés, as outras filiações", destaca Mãe Neuza, assinalando a luta travada pelo povo de santo para manter o legado da ancestral que está sendo celebrada.

A ideia de incrementar a visitação de turistas aos terreiros é um tema que provoca diferentes reações. Até porque cada casa tem suas próprias regras sobre o que pode ser visto e fotografado dentro de um terreiro. Mas a difusão do conhecimento sobre o sagrado de origem africana é um ponto positivo destacado por quem é ligado ao Candomblé.

Em um mundo onde as visitas turísticas são instantaneamente postadas no Instagram, Mãe Neuza, por exemplo, considera que o universo online traz coisas boas e ruins para o universo do axé.

"A internet nos ajuda, mas também atrapalha demais. Eu não sou contra. Cada um na sua casa faz o que quer, da maneira que quer. Como a nossa casa preserva a nossa história, a gente não usa câmera no sagrado", afirma Mãe Neuza. Por outro lado, a mãe de santo considera importante a visitação aos terreiros: "O povo de fora tem que saber a nossa história".

Autor de livros sobre o candomblé, como Águas do Rei, o antropólogo, professor e presidente da Academia de Letras da Bahia, Ordep Serra, lembra que o turismo religioso é importante em todo o mundo, mas assinala a necessidade de haver cuidado para não subordinar os cultos aos interesses do setor turístico. Ordep considera que a prioridade tem que ser a integridade das casas e dos terrenos e oferecer ao povo de santo qualidade de vida e condições dignas.

"É importante que se cuide dos terreiros, que estão sempre ameaçados, alvos de agressão contínua. Muitos terreiros não têm posse dos terrenos, tem que começar por aí", avalia o acadêmico, que integrou a mesa na cerimônia de celebração dos 40 anos de tombamento da Casa Branca.

Para Ordep, o bom turismo é aquele que respeita qualidade de vida da população local: "Isso sendo feito, o turismo traz um incremento". A líder religiosa, por sua vez, enaltece as iniciativas de proteção, mas destaca que nem o tombamento freou as ameaças ao território sagrado na Avenida Vasco da Gama.

Direitos frágeis

Coordenadora do Ginga, grupo de estudos de conflitos étnicos e religiosos, ligado à Universidade Federal Fluminense, a antropóloga e professora Ana Paula Mendes veio a Salvador especialmente para a celebração dos 40 anos de tombamento da Casa Branca e comentou as políticas públicas para o Candomblé.

"O Estado brasileiro reconhece formalmente os direitos dos povos tradicionais de terreiros. Mas esses direitos são frágeis, na medida em que foram várias as ameaças que o terreiro sofreu, já tombado", declara a professora.

Sobre o turismo religioso, a professora afirma que os terreiros sempre foram inteligentes na construção de suas relações com a sociedade. "Em Sergipe, o Filhos de Obá desenvolve uma atividade chamada Banquete de Chão. De tempos em tempos, eles oferecem comida do terreiro com uma roda de conversa para turistas. Uma atividade lucrativa sem desrespeitar o sagrado", pontua a professora.

No Ilê Axé Opô Afonjá, às quartas-feiras é oferecido ao público o Amalá de Xangô, uma comida feita de quiabo picado, mais fino do que o caruru, camarão, azeite de dendê e, às vezes, carne bovina. Mas o terreiro, de 1910, mantém áreas e rituais sagrados que não podem ser fotografados, como a Fonte de Oxum. A fonte e pátio em frente, chamado de Palhoça de Xangô, passaram por reparos feitos dentro do Agô Bahia.

"Nós tivemos manutenção do terreiro, do espaço de acolhimento, e a construção de um novo lugar para os animais que são oferecidos ao sagrado, que é o momento de comunhão e comunicação com os orixás", aponta a ialorixá Ana de Xangô.

Sobre a presença de visitantes, o terreiro oferece agendamento online. "Temos pessoas, filhos da casa, que eu chamo de norteadores, que estão preparadas para conduzir os visitantes pelo terreiro", afirma a mãe de santo.

No Terreiro de Alaketu, até o momento, foram feitos reparos em partes do telhado do barracão. A Iyá Suzane Barbosa, que diz contar com a sensibilidade e o empenho do secretário de Turismo, Maurício Bacelar, e do coordenador do projeto, Paulo Sobrinho, preferiu enviar uma declaração por escrito.

"A proposta do Projeto Agô Bahia tem o intuito de fortalecer a cultura de matrizes africanas no Estado, gerando melhorias nas ações já exercidas pelos órgãos públicos na promoção do turismo, incluindo os terreiros nos roteiros culturais, promulgando o valor histórico, culinário e religioso, realizados por essas comunidades", afirma a ebomi, que também esteve na cerimônia da Câmara Municipal do Salvador.

Tombamentos

Outro integrante da mesa, o superintendente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) na Bahia, Humberto Guanais, reconheceu que são muito poucos os terreiros tombados e manifestou a intenção de que os tombamentos sejam acelerados nos níveis federal, estadual e municipal.

"Depois de 40 anos, temos apenas 10 terreiros tombados, nove deles na Bahia. E está sendo concluído o tombamento do Terreiro de Jarê, na Chapada Diamantina", disse o superintendente, referindo-se ao culto que se tornou mundialmente conhecido por meio do livro Torto arado, de Itamar Vieira Júnior.

Guanais declarou que, enquanto na Bahia houve uma redução no número de terreiros, no Rio Grande do Sul houve um aumento de unidades. "No Sul, houve um crescimento significativo. É outro universo que precisa ser conhecido, identificado e estudado", considera o superintendente. Em dezembro de 2023, o Iphan publicou a portaria 135, que dispõe sobre os procedimentos para tombamento de quilombos.

Por intermédio da sua assessoria de imprensa, pois está em viagem a Portugal, o secretário de Turismo do Estado da Bahia, Maurício Bacelar, enviou a seguinte nota: “Dentro das ações do Governo do Estado para o incremento do afroturismo baiano, criamos o projeto de valorização das religiões de matriz africana. Realizamos capacitações e obras estruturantes nos terreiros de candomblé, visando ampliar o fluxo de turistas nesses templos sagrados. Além disso, apoiamos eventos do segmento, que também atraem muitos visitantes, interessados em celebrações ligadas à ancestralidade, além de divulgar o afroturismo nas principais feiras do setor, no Brasil e no exterior”.

Também participam do projeto Agô Bahia os terreiros Ilê Axé Oxumaré, Ilê Asipá, Gantois, Bate Folha, Zoogodô Bogum Malê Hundó, e Hunkpame Savalu Vodun Zo Xwe e o Manso Kilebemkueta Lemba Furamon.

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