CRÔNICA
Quando o espelho devolve uma versão esquecida de nós
Veja a crônica deste domingo, 21


Simone, devo a você o fato de ser hoje uma mulher feliz e quero aqui lhe prestar uma homenagem, embora haja quem diga que não se pode mais usar essa palavra: remete a “homem”.
A gente às vezes precisa bater o pé contra certas imposições, porque a militância ignora limites. Até Buraco Negro já entrou pra Lista Proibida, quando obviamente não se refere a cor de pele. Tem que ter um neurônio ou outro nos chamando à razão.
Eu cresci durante tempos sem filtro, quando piadas horrorosas sobre pretos, homossexuais e mulheres causavam gargalhadas espetaculares. Alguns anos atrás, um cara que eu até achava engraçadinho contou esta: Sabe qual é a semelhança entre o passado de uma mulher e a cozinha de um restaurante? Se a gente conhecer, não come.
Desengracei-me na hora. A casca de artista carioca modernoso ocultava a fibra troglodita, lá ele! Igual ao Jornal Nacional noticiando o assassinato do irmão de Zé Celso e fazendo questão de arrematar: “Segundo os vizinhos, ele recebia com frequência a visita de rapazes.” E daí? Isso justifica alguém levar 107 facadas? Recados venenosos são muitas vezes transmitidos assim, por meio de comentários com ares inócuos.
Não sei, Simone, se tais assuntos lhe interessam, já que durante nossa sessão você só falou sobre o desejo de conhecer Dubai e o encantamento por Virgínia Fonseca e Deolane. Fiquei pensando em seus bem-quereres tão distantes dos meus e esculhambei logo com Dubai, que só perde em calor pro Inferno. Tantos lugares mais bonitos e agradáveis aqui mesmo na Bahia, que diabo alguém perdeu em Dubai, a não ser a vontade de ostentar? Você estranhou, então achei melhor me calar a respeito das para mim desprezíveis influencers.
Questão delicada, se intrometer nos afetos de outra pessoa. Talvez durante nossos próximos encontros eu possa sugerir devagarinho que suas louríssimas não cheiram a alfazema. É possível que você nunca tenha ouvido uma opinião divergente, pois a celebração de perfumes falsos está em toda a parte. Através de mim, pode ter acesso a um olfato diverso; o que é sempre bom, mesmo que incomode.
Me incomodava há tempos meu cabelo arrepiado, esvoaçante, perigando me elevar ao céu das bruxas. Fios fininhos, de criança, enquanto sempre cobicei o manto pesado e luzente envolvendo o crânio de Glória Pires. Durante minha juventude, era sedoso. Envelhecido, o bicho se revoltou. Uma vez, quando me queixei ao dermatologista, tudo o que ele fez foi perguntar com ironia se eu queria ter o cabelo dos 20 anos.
Nunca fui de frequentar salão de beleza, de maneira que vivia experimentando produtos esses e aqueles sugeridos por amigas, a fim de domar a juba vaporosa. E eu sou do tipo que sofre, sofre e mais um pouco, porém quando toma uma decisão, não fica em sala de espera. Mandei mensagem pra moça com quem corto o cabelo, pensei num prazo para que me respondesse. Não rolou. Bati à porta de um estabelecimento numa transversal da Cardeal da Silva.
Oi! Queria saber se você podia me ajudar…
… a tirar o frizz? Tiro!
Me adivinhou com a firmeza da fé! E mandou ver: lavou com xampu antirresíduos a palha que eu chamava de cabelo, lambuzou as madeixas com substância lilás um pouco coçante, e após tantos minutos aplicou chapinha. Depois lavou de novo e secou, declarando: Agora você só vai lavar e ficar linda! Volte daqui a seis meses.
Assim se deu o milagre da desavoação. Só vendo pra crer! Ainda não cansei de admirar no espelho a quase Glória Pires em que me tornei, com uma década ou mais de atraso.
Obrigada, Simone! Vamos trocar figurinhas a cada 180 dias, você com sua sabedoria capilar e eu com meus pitacos mundanos. Tendo a ser como o Presidente Lula, acreditando que todo mundo é tratável. Nem sempre. Há gente selvagem como cabelos desassentados. Os que só acreditam em truculência e nos muitos que a aplaudirão. Meus fios, aparentemente, precisavam de uma medida enérgica, porém não fizemos mal a pessoa alguma.
É massa não fazer mal a ninguém. Quando estou de baixo-astral, me recupero no pensamento de que nunca tive encontro com sociopata gringo para tramar contra os brasileiros nem matei de pancada o filho de quatro anos de minha namorada com o consentimento dela.
Feliz São João pra você, Simone, e pra quem merece nosso povo belo. Que os demais se deixem torrar, ostentando no verão de Dubai.
*ró-Ã é autora e Dor de facão & brevidades