MUITO
Racista, eu? Imagine!

Por Tatiana Mendonça

Palavras traem a naturalização do racismo. É o que mostra o projeto "Ah, branco, dá um tempo". A Muito reproduziu a experiência na Ufba
Você sabe ler?". A estudante de ciências sociais Lorena Monique dos Santos, 21, ouviu a pergunta quando se candidatava a uma vaga de estágio. A recepcionista pensou que ela estivesse procurando um serviço na área de limpeza. Depois de Lorena explicar a situação, a moça se desculpou pelo mal-entendido. Negros no Brasil são vítimas preferenciais de homicídios e também de confusões do tipo. Uma foto em que Lorena aparece segurando a frase que a desconcertou tem circulado na internet, em meio a dezenas de outras de igual quilate, por meio do projeto "Ah, branco, dá um tempo".
Ela criou o ensaio, em novembro do ano passado, para mostrar como o racismo em nossa pretensa democracia racial é naturalizado e enraizado. A ideia veio de uma necessidade acadêmica: a estudante precisava entregar um trabalho de uma disciplina sobre antropologia visual da Universidade de Brasília (UnB) e resolveu abrasileirar a foto-campanha "I, Too, Am Harvard", que dá voz aos alunos negros da universidade americana.
Com uma máquina fotográfica que pediu emprestado de um amigo e um quadro branco a tiracolo, Lorena começou a andar pela universidade perguntando que frases preconceituosas seus colegas costumavam ouvir - coisas como "até que seu cabelo não é tão ruim"; "desculpa, é que eu te achei suspeito!"; "você tem sorte em ser negro, nem precisa estudar para passar no vestibular". Tudo assim com um arzinho de brincadeira, elogio ou comentário inofensivo.
As fotos foram reunidas em uma exposição na UnB, e seria apenas isso se não fossem os inúmeros pedidos de publicação das imagens, o que só aconteceu em março deste ano, com a página ahbrancodaumtempo.tumblr.com. O projeto está convocando uma "chamada nacional" para o dia 13 de março, quando propõe que alunos de diversas universidades do país postem fotos com a hashtag #AhBrancoDaUmTempo #13deMaio.
Instigada pela ideia, Muito percorreu um campus da Universidade Federal da Bahia para saber o que os estudantes de cá andam ouvindo por aí. Um monte de gente, nada racista, naturalmente, anda incomodada com o cabelo alheio e ainda se surpreende com o fato de que negros consigam ingressar na Ufba.
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Racismo à brasileira
Para a socióloga Vilma Reis, projetos como esse são "importantíssimos" porque trazem à tona o debate sobre racismo. "Isso mexe com a cabeça de quem acha que não temos nenhum problema... O racismo à brasileira opera deste modo, aniquilando a discussão e apostando no discurso de que somos um povo colorido, que todo mundo é aceito".
Outra prova de como isso é falacioso surgiu logo depois que a página com o ensaio fotográfico foi ao ar. Um endereço reuniu montagens anônimas das fotos em que estudantes passaram a declarar frases como: "Eu poderia estar roubando. Eu poderia estar matando. Eu poderia estar traficando. E estou mesmo". O site já foi apagado e seus autores devem ser denunciados.
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