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Sebo Brandão vai encerrar atividades após 55 anos em Salvador

Empreendimento trouxe para a Bahia a cultura dos sebos

Publicado domingo, 07 de abril de 2024 às 07:00 h | Autor: Gilson Jorge
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O portão de alumínio do subsolo do Edifício Haia, na Rua Ruy Barbosa, que desde 1969 abriga o famoso Sebo Brandão, permaneceu fechado na última quinta-feira após o almoço, em luto pela morte de Ana Martins, companheira do proprietário do estabelecimento, o pernambucano Eurico Brandão, 95 anos. Foi o segundo fechamento por óbito em menos de um mês. No dia 11 de março, a morte de Vera Brandão, filha de Eurico que administrava o negócio, marcava tragicamente a reta final da história do empreendimento que trouxe para a Bahia a cultura dos sebos.

A convite do então governador da Bahia, Luiz Viana Filho, Eurico Brandão e seu irmão João, doze anos mais jovem, vieram a Salvador no fim da década de 1960 inaugurar uma filial do sebo recifense que chamou a atenção de alguns governadores nordestinos, como o maranhense José Sarney e o próprio Viana Filho, quando estes iam à sede da Sudene, na capital pernambucana, em busca de recursos para os seus estados. "O governador nos convidou a vir a Salvador porque disse que a Bahia estava carente de sebos", conta João Brandão.

Os irmãos alfarrabistas se hospedaram inicialmente no Hotel Paris, que funcionava no casarão de número 13 da Ruy Barbosa, ao lado do Edifício Haia, o único prédio residencial da rua, que havia sido inaugurado no início da década de 60. O imóvel tem dois subsolos que não estavam sendo aproveitados à época e foram ocupados pelo negócio dos irmãos, filhos de um agricultor de Serra Talhada, que desde a infância tiveram contato abundante com livros.

Eurico partiu primeiro para o Recife, onde montou a livraria e, anos depois, passou a trabalhar com o irmão mais novo. Depois de chegar à Bahia, o mais velho partiu para São Paulo, onde abriu outra filial, que hoje é administrada por seu filho Eurico Brandão Júnior, e deixou o irmão e sócio à frente da unidade baiana. Décadas depois, os irmãos brigaram e em 2012 o mais novo abriu o seu próprio negócio na mesma rua, o Sebo João Brandão.

E outros negócios semelhantes surgiram no centro da cidade, como o Sebo São José, aberto há 17 anos por um ex-funcionário do Sebo Brandão, também na Ruy Barbosa, e o Xangô de Xangai, na Travessa da Ajuda, especializado em cultura afro-brasileira. Nessa mesma travessa, funcionou o Sebo Berinjela, que depois se transferiu para o Rio de Janeiro. "Salvador deve ter entre 12 e 15 sebos atualmente", estima João Brandão, assinalando que foi uma história iniciada pelo Sebo Brandão.

Clientela

Ao longo de 55 anos, a livraria dos pernambucanos em Salvador conquistou uma clientela que vai de estudantes a pesquisadores, candidatos a concursos públicos, colecionadores e gente com interesse muito específico. A Brandão tem um acervo estimado em 400 mil exemplares, pelos cálculos de Eurico Brandão Júnior, que veio de São Paulo para organizar o fechamento da unidade, logo após a morte de Vera Brandão. Seu tio, João Brandão, avalia que o estoque da unidade pode estar entre 600 mil e 800 mil livros. Em ambos os cálculos, leva-se em conta não apenas o estoque da loja, mas o que está guardado em um depósito no Litoral Norte.

Nas prateleiras da Brandão, encontra-se de quase tudo. Há uma estante inteira com livros sobre Pernambuco, estado de origem da família, mas também temas dos mais variados, como equinos, charadismo, artesanato, café e açúcar.

Mas fora os temas muito específicos e até exóticos, os sebos se mantêm em grande parte com exemplares raros e coleções que rendem uma pequena fortuna. Eurico Brandão Júnior afirmou, por exemplo, que na última segunda-feira quase fechou uma venda de R$ 28 mil. "O negócio não saiu porque eu só estou operando com dinheiro e pix", explica o comerciante, que afirma não ter conseguido acesso à conta bancária e ao cartão de crédito do sebo, que eram administrados por sua irmã, recentemente falecida.

Mas o que serve de chamariz também afasta parte da clientela do sebo. O escritor Fernando Rocha Peres afirma ter frequentado o Brandão apenas no início da sua existência, antes da abertura da unidade em São Paulo, e desistido de ir ao local por causa dos preços. "Eu só comprava livros raros, mas foi ficando muito caro e não deu para comprar mais", declara Peres.

Em meio ao aumento do número de visitantes, depois da notícia do fechamento, Eurico Brandão Júnior ressalta que antes da morte de sua irmã o prédio já estava à venda, pois havia o propósito de continuar o negócio em um espaço menor. O filho do fundador disse que não tem a escritura do imóvel em mãos, mas estima uma extensão superior a 450 metros quadrados, contando os dois pisos. "Nós seguimos abertos a propostas de compra", afirma Brandão Júnior, que se prepara para desocupar o prédio até o próximo mês de julho.

Museóloga formada há 30 anos, Jane Palma foi visitar o Brandão assim que soube que o local seria fechado. "Esse é um espaço muito caro para mim. Na minha época de Ufba, não havia Google. Aqui foi o lugar que me deu régua e compasso para manter minha faculdade e seguir com minhas pesquisas", afirma a museóloga.

Depois de formada, Jane foi trabalhar na Santa Casa de Misericórdia e teve a incumbência de montar o Museu da Misericórdia. Nesse processo, o Selo Brandão foi fundamental em suas pesquisas para entender a instituição em que trabalhava e o seu entorno. "Eu comprei aqui, em 2006, um livro, A Sé Primacial do Brasil, de Manuel Mesquita dos Santos, que tem a carta do Papa Pio XI, em 1929, enviando uma comissão para avaliar se a Igreja da Sé deveria ser demolida", conta a museóloga.

Rejeitada pela comissão, mas recomendada pelo bispo, a destruição da igreja, em 1933, atendeu aos interesses das autoridades locais, que desejavam implementar um sistema de trilhos para trens urbanos. Em 1999, quando Salvador completou 450 anos, foi colocada no sítio da antiga igreja o Monumento da Cruz Caída, do escultor Mário Cravo.

Caminho sem volta

Em um post no Instagram do seu sebo, o livreiro João Brandão publica a frase: "Livros são um caminho sem volta. Uma vez viciado, não se pode voltar atrás". Essa é uma boa definição para quem resolve montar um comércio de livros. Com mais de 45 mil livros em seu estoque, no sebo e no depósito, João quase sempre tem na ponta da língua a resposta para um cliente que procura um livro. "Esse tenho no depósito", "está naquela estante " são frases constantes em seu atendimento.

Apesar do decréscimo na frequência de público e da concorrência do site Estante Virtual, que oferece online parte do catálogo dos sebos físicos, João acredita que há uma fatia do público em Salvador que não vai deixar de frequentar os sebos: "Temos uns 20% da população que compram livros".

Bem perto de seu negócio, um ex-funcionário do Sebo Brandão comercializa livros desde 2008, no Sebo São José. "A literatura é uma viagem, você viaja sem sair do lugar", declara Ivaldo Oliveira, que em sociedade com o cunhado se prepara para abrir o segundo depósito do sebo agora em maio, na mesma Ruy Barbosa.

Residente em Itabuna, o médico soteropolitano Roberto Dultra aproveitou a visita à capital e passou esta semana no Selo Brandão para aproveitar a promoção de encerramento. Desde a infância, Dultra frequenta a Ruy Barbosa em busca de livros raros e artigos de antiquários. Músico amador, o médico sempre busca por livros de arte. "Há 10 anos, achei o livro Pintura documental da Baía de Todos os Santos do século XIX, de Diógenes Rebouças", conta o médico.

Serviço:

*Sebo Brandão –

Rua Ruy Barbosa, nº 15 A, Edifício Haia, térreo.

*Sebo João Brandão

Rua Ruy Barbosa, 4, Edifício Ruy Barbosa, térreo.

*Sebo São José

Rua Chile, 22, Edifício Bráulio Xavier, térreo. Entrada também pela Rua Ruy Barbosa.

*O Xangô de Xangai

Rua da Ajuda, nº 40, sala1401.Edifício Martins Catharino.

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