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“Todos de Salvador são donos do Olodum”

Yumi Kuwano
Por Yumi Kuwano
João Jorge é presidente do Olodum | Foto: Uendel Galter | Ag. A TARDE
João Jorge é presidente do Olodum | Foto: Uendel Galter | Ag. A TARDE - Foto: Uendel Galter | Ag. A TARDE

Começamos o 2021 com esperança de tempos melhores, mas a verdade é que tudo vem sendo diferente neste verão, principalmente na Bahia, onde a coisa ferve nessa época. As terças-feiras não são as mesmas sem a benção do Olodum, no Pelourinho. Mas ninguém está parado. Os artistas se reinventaram no período de isolamento por causa da covid-19 e o grupo continua atuante, não só na música, mas nas suas várias frentes e com planos traçados para o futuro. Nesta entrevista, o presidente do Olodum e advogado João Jorge fala sobre os novos projetos, a realização do Femadum – Festival de Música e Artes Olodum, revela detalhes sobre a Live de Carnaval anunciada há poucos dias, a ser realizada em 13 de fevereiro, e conta com exclusividade o tema do Carnaval 2022.

Quais foram as ações do Olodum em 2020, durante a pandemia?

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O Olodum sobreviveu o ano de 2020 durante a pandemia, a partir de março, fazendo lives, atividades digitais, fizemos uma parceria com a empresa TikTok e começamos a atuar no aplicativo. Tivemos também um apoio do governo alemão para cursos e continuamos diariamente a fazer discussão sobre igualdade, racismo e justiça. Em abril do ano passado, lançamos o programa chamado Diálogos Contemporâneos, que criamos na Costa do Marfim. Duas vezes por mês fazemos uma discussão digital com brasileiros, africanos, americanos e europeus sobre os assuntos mais atuais e recorrentes.

E como será 2021?

Então, em 2021 nós temos as comemorações. Temos os 40 anos de desfile do Olodum. O Olodum foi fundado em 1979, desfilou pela primeira vez em 1980 e em 1983 não desfilou, então, agora faz 40 anos de desfile de carnaval e vamos fazer uma live para contar essa história do carnaval. Vamos também comemorar os 30 anos do show do Olodum com Paul Simon no Central Park, que foi em agosto de 1971, transmitido para 300 milhões de pessoas. Vamos comemorar os 30 anos do encontro do Olodum com Nelson Mandela na Praça Castro Alves. Temos um conjunto de datas para celebrar muito importante. Os 30 anos da presença do Olodum na Alemanha. Qual o significado disso? Nós chegamos na Alemanha em 1991, dois anos depois da unificação e fomos para o lado da Alemanha Oriental. De lá para cá, fizemos 25 cidades na Alemanha, nos tornamos os principais artistas brasileiros lá. O Brasil nunca deu muita importância para esses fatos, mas vamos listar todos e colocar para fora, principalmente para Salvador, para a Bahia, para a cultura e para o turismo. Em 2021, vamos celebrar essas coisas e vamos fazer novas ações, principalmente no campo da educação digital. A gente deve começar um curso de percussão e dança digital e você pode participar em qualquer lugar do mundo. Esse é o sentido desse verão. Não tem domingo, não tem terça-feira, mas tem todas essas ações.

Acha que aqui as pessoas valorizam menos o Olodum?

É uma contradição. Ao mesmo tempo que as pessoas valorizam menos, o Olodum virou algo de todos. Todos de Salvador são donos do Olodum, todos de Salvador pertencem ao Olodum, todos se apropriaram do símbolo da paz que nós temos, todos se apropriaram da batida. Se vier alguém de fora, você diz “eu conheço o Olodum, vou lhe levar lá”. É um patrimônio de todos, mas não necessariamente se reconhece o sucesso musical, artístico e cultural. O Olodum é a banda brasileira e baiana mais vista do planeta, que mais fez show no exterior e que fez os maiores sucessos com outros artistas. A gente tem agora uma cantora muito bacana que é a Anitta, com milhões de seguidores. Mas se for por quantidade de discos gravados no exterior, nós somos campeões; se for quantidade de shows realizados no mundo, nós somos campeões e temos uma música, que é a música baiana mais tocada em todo o mundo, chama-se Faraó. Em todos os shows, em cada uma das cidades do planeta – foram quase 3 mil shows em cidades diferentes – nós tocamos a música Faraó. Desafio qualquer outro artista a dizer que fez 3 mil shows no exterior que cantou uma música sua e que todos sabiam cantar. Só não fizemos música fazendo baixaria, nem falando mal da mulher, pelo contrário. Então, na hora que o nível desceu para esse padrão, nós não temos nem como competir. Não vamos desistir de falar bem das mulheres, não vamos desistir de falar bem da juventude, não vamos desistir de pedir paz e ser contra a violência.

Foi anunciada, há alguns dias, a Live de Carnaval. Já tem data? O que podemos esperar?

Sim, será dia 13, na sexta de carnaval, no horário que tradicionalmente o Olodum desfila. A ideia é fazer música que conte os 40 anos do Olodum, o começo, o meio, os grandes sucessos e vamos inserir imagens da nossa trajetória internacional brilhante, dos encontros com personalidades. A gente quer que as pessoas se divirtam na sexta-feira, não fazendo um carnaval, mas tendo uma alegria para enfrentar essa crise de saúde de forma positiva. Precisa ter preocupação com a crise, mas é preciso também dotar as pessoas de alegria, esperança e possibilidades. Vamos voltar a ter uma celebração, não como no passado, mas provavelmente teremos carnaval de novo. Nós somos um grupo originalmente de carnaval, nascemos como um bloco de carnaval, mas hoje somos mais do que isso. Vamos contar a história do carnaval para muita gente em casa, porque muitas pessoas conhecem o Olodum pela música Avisa lá, mas não sabem muito quais são os fundamentos, por que Olodum, que história é essa, o que significa a palavra Olodum e por que esse caso é exemplar e único. O Olodum é da Bahia, mas é também da Costa do Marfim, do Egito e da Alemanha. O melhor mercado nosso, fora, é na Alemanha. Quanto mais a língua é diferente, mais sucesso faz o Olodum, porque a batida do coração fala. O Olodum precisa apresentar para o verão deste ano os caminhos, que nós chamamos de caminhos da eternidade. No próximo carnaval, de 2022, o tema vai ser: Os tambores, o coração, o caminho da eternidade”. Os tambores são coisa básica do Olodum. Os tambores são o coração da Bahia e a eternidade é quando daqui a 10 anos, 30, 40 anos, estará à frente de uma cultura interessante, que não morreu em 10 anos, muita gente morre, mas a obra está começando a ganhar um ar de eternidade. O Centro Histórico respira Olodum.

E quais são as expectativas para o futuro?

Nós estamos num verão especial, que trouxe uma alegria enorme ver essa vacina chegar ao Brasil, um verão em que vai ter que se construir pontes musicais. Eu penso que é a hora de aproximar a música percussiva da música instrumental, penso que é hora de produzir novas composições e canções e, principalmente, liberar as forças da música baiana, que estão muito presas em garagem. Bandas que aparecem e em três anos desaparecem, não têm uma consistência hoje para continuar. Se imaginar que o primeiro disco nosso foi lançado há 34 anos, podíamos ter acabado logo, se não tivéssemos força e consistência musical e procura por novas formas de fazer música. A gente vai publicar um novo livro agora, a partir de abril, atualizando as músicas e ele deve estar em formato de e-book também para dar acesso nas redes.

Você falou em aproximar percussão da música instrumental, por que?

Isso tem a ver com a Orquestra Sinfônica da Bahia, com quem faz música instrumental em todo o mundo. Nós fizemos muita coisa na Europa, muita coisa com orquestras instrumentais. Gravamos a música Smile com orquestra, gravamos e tocamos com a Orquestra de Viena, então, nós já nos acostumamos a voltar para o começo. A música instrumental é música do começo, a música da percussão com instrumentos harmônicos que também foram criados na civilização africana, mas criou-se uma dicotomia: percussão é uma coisa, harmonia é outra. E eu me pergunto: quem foi que decidiu isso?

E como ficaram os projetos da Escola Olodum?

A escola parou em março de 2020, voltou a funcionar em outubro, com apoio do governo alemão, basicamente com curso para mulheres, de fotografia digital, empreendedorismo digital e neste ano vamos retomar os cursos de percussão e dança digital, mais os cursos de empreendedorismo, a partir de março.

Quando você diz digital é a distância?

Tudo a distância, porque até setembro estaremos em uma situação que não vai permitir muita coisa ainda. Essa vacinação será um processo lento. Então, estamos planejando tudo para setembro em diante, inclusive saída para turnê.

E para o Femadum, estão preparando algo?

O próximo Femadum vai ser em setembro, vai se chamar Panafro – Festival de Música e Artes Olodum. Ele será digital, vai envolver alguns países que estamos convidando, como a Costa do Marfim, Colômbia, Argentina, Tanzânia. Vai haver debates e vai ter também c rso de música totalmente digital. Isso abre caminho para pessoas de vários lugares do Brasil se inscreverem e para os vencedores serem mais conhecidos digitalmente do que são agora. Todas as ações devem passar do segundo semestre também para busca de patrocínio e financiamento e para permitir que haja algo digital, mas também algo presencial. É a nossa maior festa realizada no Pelourinho e deverá ser o nosso maior festival de todos os tempos.

Com a pandemia, como ficou a situação financeira do Olodum?

O patrocínio e o financiamento para cultura na Bahia e no Brasil é pífio, depende de mecenas, de decisões de empresas que ora podem, ora não podem e tem um orçamento de menos de 1% no governo municipal, estadual e federal. Com isso, tudo o que foi feito até agora é um milagre, uma lição de empreendedorismo fantástico. Isso não ocorre na França, nos Estados Unidos, na China, no Japão, países que promovem a sua cultura, estimulam que a sua produção cultural seja um ativo. No nosso caso, a cultura é vista como lazer, uma atividade de diversão e essa concepção fez com que só agora se descobrisse que o carnaval de Salvador gera quase R$ 2 bilhões, ou seja, Salvador não vive sem o Carnaval por causa da atividade econômica. Então, assim nós buscamos apoio do TikTok, do governo alemão, estamos no programa Aldir Blanc, do Governo Federal, não tivermos esse ano apoio de cervejaria, nem de empresas em geral, mas estamos buscando empresas de varejo e que queiram emprestar sua imagem para ação positiva da cultura, que a gente sabe que não é fácil nesse momento porque as empresas também estão cuidando de sobreviver. Mas precisamos diversificar o que nós fazemos. A Coreia fez isso, a China fez isso, o Japão fez, porque para a cultura tem que haver uma diversificação. A nossa ideia é que além do apoio que o Olodum precisa ter para água e luz, é preciso pensar a cultura como elemento estruturante da cidade de Salvador na Bahia. Tem lugares que são a soja, os automóveis. Em Salvador, o principal ativo da nossa economia é a diversificada cultura que não tem em lugar nenhum.

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