MUITO
Tostão: "O Brasil está entre os favoritos, mas não é o grande favorito"
Entre um paredão de meninos de 13, 14 anos, jogadores do Associação Esportiva Industriários (Belo Horizonte), havia um de 6, pequeno e magro, Eduardo Gonçalves de Andrade. Por ser o mais novo e mirradinho de todos, ganhou o apelido Tostão. “Era a menor moeda da época, como se fosse um centavo”, lembra. O nome pegou e, anos mais tarde, tornou-se um dos mais repetidos pelos comentaristas de futebol do Brasil – Eduardo, 71, tornou-se o atacante Tostão, um dos jogadores mais respeitados do país. O mineiro estreou na Seleção Brasileira em 1966, aos 19 anos, num amistoso contra o Chile. Anos mais tarde, na Copa de 1970, foi tricampeão brasileiro ao lado de Pelé, Gérson e Jairzinho, e foi considerado, junto a eles, protagonista do Mundial do México. Mas segurar a terceira taça do Brasil não foi fácil: em 1969, num jogo contra o Corinthians, um descolamento de retina causado numa jogada quase o tirou da Copa do Mundo. Na carreira, carrega com orgulho as passagens pelo Vasco e pelo Cruzeiro, time que ganhou notoriedade nacional e internacional depois de ser campeão brasileiro contra o Santos de Pelé – graças a Tostão, disse a imprensa na época. No clube mineiro, o craque, maior artilheiro da história do time, fez 249 gols. O fim da carreira de jogador levou Tostão a entrar numa profissão um pouco mais convencional, a de médico – mas ele nunca largou a bola. Na Copa de 1994, nos Estados Unidos, tornou-se comentarista esportivo e colunista de esporte em jornais espalhados pelo Brasil, atividade que mantém até hoje. Também é autor dos livros Lembranças, Opiniões e Reflexões sobre Futebol (DBA), A Perfeição Não Existe – Paixão do Futebol por um Craque da Crônica (Três Estrelas) e Tempos Vividos, Sonhados e Perdidos (Companhia das Letras).
Com as exigências cada vez mais rígidas da Fifa, que, a cada Copa, pede estádios e estruturas mais complexas, há quem diga que o evento se transformou, tornando-se mais comercial. A seu ver, qual a principal transformação da Copa do Mundo nos últimos anos?
Cada vez mais a Fifa se apodera do futebol na época da Copa, e estende esse poder para fora do futebol. Países como o Brasil e a Rússia, que têm graves problemas sociais, acabam criando uma estrutura para a Copa do Mundo incompatível com a realidade. É absurdo um país como o Brasil, por exemplo, criar estádios novos, caríssimos, grandes, e depois não ter condições de mantê-los com os mesmos públicos, mesmos preços de ingressos. Essa distorção da realidade aconteceu na África do Sul, no Brasil e vai acontecer na Rússia. Na minha opinião, a Copa precisa ser um evento grandioso patrocinado exclusivamente pelas empresas privadas. Se elas vão ter lucro ou prejuízo, é problema delas. Mas não fazer com que os países usem dinheiro público, não é?
O senhor acha que hoje a Copa é um evento mais comercial e midiático do que esportivo?
Não há dúvidas de que é um evento extremamente comercial com a Fifa, com as empresas privadas. E isso, no final, reverte pouco para os países, que mal têm lucro com a Copa. Hoje, na Europa, os clubes têm prejuízos enormes, porque pagam fortunas para ter os melhores jogadores do mundo e acabam ficando sem eles durante um longo tempo. O mais grave é o poder público arcar com um investimento enorme em estrutura, estádio, gastar com coisas que nem sempre trazem benefícios para o país. Mas, é claro, ainda é o evento mais importante do futebol no mundo.
A característica de jogo da Seleção foi peculiar em cada Copa. Para citar dois exemplos, em 1982 o time era rápido e tinha ótimo toque de bola. Já em 1994, tinha um craque, Romário, na frente, enquanto que em 2002 o Brasil era caracterizado pela habilidade, com Rivaldo, Ronaldinho Gaúcho e Ronaldo. O que marca a Seleção atual?
Acho que o Brasil tem uma qualidade que nenhuma seleção tem, e isso marca o nosso estilo: ter alguns jogadores brilhantes individualmente da intermediária do adversário para o gol. São rápidos, criam muitas jogadas individuais, fazem gols, chutam bem. Eles são Neymar, Coutinho, William – se jogar – e Gabriel Jesus, mas principalmente Neymar e Coutinho. Então, essa é a marca do time brasileiro, jogadas rápidas em direção ao gol. É diferente, por exemplo, da Espanha e da Alemanha, que têm grandes seleções, mas se caracterizam mais pelo domínio da bola no meio de campo, troca de passes, por jogar com mais segurança, arriscar menos as jogadas de ataque, só quando têm mais certeza. Mas, em relação ao confronto individual, o Brasil tem meios de campo e atacantes melhores. Brasil e Espanha, por exemplo, é um duelo de estilos – enquanto a Espanha domina o jogo no meio de campo, porque tem grandes craques e esse estilo de jogar, o Brasil tem um time que, às vezes, nem precisa ter meio-campo. A bola sai da defesa, cai no pé de Neymar e rapidamente está no gol.
Neste ano, o Brasil chega para a Copa com seu principal craque, Neymar, recuperando-se de uma lesão e, por isso, cercado de desconfiança. Além disso, sofremos com a saída de Daniel Alves. O que a ausência de Daniel representa para a Seleção?
A saída dele é ruim porque, entre as posições dos titulares, a que tinha menos qualidade entre os jogadores reservas era a de Daniel Alves. Danilo, Fagner e Rafinha estão mais ou menos no mesmo nível, que ainda é bem abaixo de Daniel, qualquer um dos três que fosse chamado não faria diferença. São bons jogadores nos clubes, Danilo e Rafinha são reservas nos seus clubes. Podem jogar bem, completar bem o time, mas causa uma certa preocupação a ausência de Daniel Alves. Apesar de, às vezes, ter uns momentos ruins, em que ele confia demais no futebol dele, se sente autossuficiente, a gente tinha esperança de que na seleção, numa Copa, concentrado, ele seria uma peça importante, porque tem muito talento, muita classe, muita experiência. Agora vamos torcer para que Fagner jogue bem.
Essa situação, de certa forma, é semelhante à que o senhor viveu antes da Copa de 1970, no México, com o acidente com o olho que lhe gerou um descolamento de retina em 1969. Como foi para o senhor lidar com isso?
É, eu fui uma dúvida grande, porque fiquei seis meses um pouco longe do futebol, me readaptando, voltando a jogar devagar. Naquela época, corri o risco de ser cortado da Copa, e acho que só fui chamado porque Saldanha, que acreditava muito no meu potencial, me convocou, e depois Zagallo manteve. Mas corri um grande risco de não ser convocado, não ser titular. Com muito esforço, consegui estar presente e contribuir para a Seleção ganhar a Copa, fazer parte daquele time espetacular que está na memória de todos.
Neymar é o jogador da Seleção Brasileira mais cobrado pela torcida e pela imprensa. Como essa pressão pode afetá-lo?
Há uma grande esperança de que o Brasil jogue bem, e Neymar é o destaque da seleção. Se o Brasil ganhar a Copa, certamente Neymar será considerado um dos mais responsáveis, ele está bem acima de todos os outros, é um supercraque mesmo. Mas ele é muito esquentado, dá piti em campo, às vezes se torna agressivo, quando sofre uma falta violenta, reage... Então, há um medo de ele ser expulso ou jogar com muitos cartões amarelos. É um risco, pequeno, mas existe. Outro ponto importante é: acho que ele precisa ter a sabedoria de saber a hora em que vai jogar coletivamente e a hora em que vai fazer a grande jogada, o grande gol. Se começar a querer driblar dois, três, em toda bola que pegar, pode ser péssimo para ele e para a Seleção. Geralmente, ele tem essa sabedoria, mas há alguns jogos em que se perde por querer fazer a jogada impossível. Neymar não tem paciência de esperar o momento certo, e essa é uma preocupação que eu tenho.
Ao lado do Brasil, Espanha, França e Alemanha são tidas como as favoritas para conquistar a taça. O que elas têm que nós não temos?
Eu acho Brasil e Espanha um pouco mais fortes do que Alemanha e França. A Alemanha, por exemplo, não tem grandes atacantes como o Brasil tem. O melhor é o Müller, que tem jogado mal de uns anos para cá. A Alemanha não tem um Neymar, um Coutinho, um William, jogadores de grande qualidade individual. Mas eles têm muita organização e eficiência, e muito meio de campo bom também. Com a Espanha é a mesma coisa. Na defesa e no meio de campo, todos os jogadores estão entre os melhores do mundo nas suas posições, têm destaque em grandes times. Mas falta à Espanha um Coutinho e um Neymar. A Seleção Espanhola também não tem a qualidade em ataque que nós temos. A França tem muitos bons jogadores, mas, coletivamente, a vejo atrasada em relação aos outros três. Eu acho o Deschamps, técnico da França, muito fraco, confuso, não escala os melhores jogadores… Muito bitolado, não forma um jogo envolvente. Mas, fora essas, tem mais quatro seleções que podem surpreender, não vai ser zebra se forem campeãs. A Argentina, por causa de Messi, que, para mim, é o maior jogador do mundo. Há uma crença de que, mesmo que a Argentina não tenha uma participação muito boa, se jogar na defesa, Messi pode ganhar o jogo. O mais provável é que isso não aconteça, porque a seleção não é muito boa coletivamente. Portugal, por ter Cristiano Ronaldo, também é uma possibilidade. Fora ele, o time não tem grandes craques, mas é organizado. A Bélgica tem vários jogadores de alto nível, como Hazard, De Bruyne e Lukaku. Se a Bélgica estivesse com a camisa do Brasil, da Alemanha, mas com os mesmos jogadores, todo mundo a colocaria na turma dos favoritos. Eles têm jogadores de grande qualidade, mas como não tem essa tradição no futebol, não está entre eles – mas pode ser campeã do mundo. E, por fim, a Inglaterra, que não tem craques como as outras seleções têm, mas, pela eliminatória, notei que está mais forte do que antes, mais organizada. Também há seleções muito boas, como a do Uruguai e da Colômbia, por exemplo, que podem ganhar de qualquer uma dessas oito. Mas, para mim, seria uma surpresa, uma zebra, se a Colômbia fosse campeã do mundo.
O que pode desequilibrar o Brasil como Seleção?
O principal é a qualidade dos grandes adversários. Brasil x Alemanha, Brasil x França e Brasil x Espanha é de igual para igual. Tanto podemos perder quanto podemos ganhar. É um risco, por exemplo, perder em um confronto de quartas de final, até nas oitavas, se o Brasil pegar a Alemanha, caso ela não seja a primeira do grupo. O Brasil está entre os favoritos, mas não é o grande favorito, então não será surpresa se não formos campeões. Há outras seleções tão fortes quanto.
Se pudesse naturalizar um jogador de outra seleção para encaixar no time de Tite, qual nome o senhor escolheria?
Teoricamente, seria Messi, porque é o melhor jogador do mundo. Mas olhando do ponto de vista do que falta na nossa seleção, já temos um jogador com o estilo de Messi, que dribla, faz gol, é um supercraque, que é Neymar. Mas o que o Brasil não tem, na minha opinião, que outros times têm e seria ótimo o Brasil ter? Um grande craque meio-campista, tipo o Pogba (França) e o Kross (Alemanha), que tem um domínio de passe espetacular, é um jogador de grande talento. Casemiro é um ótimo jogador do meio de campo para trás, para dar o primeiro passe. Paulinho joga no meio de campo, mas quando o Brasil pega a bola, corre para a área do adversário para fazer gol. Ele não tem senso de organização nem talento de organizador. E Coutinho, quando joga pelo meio – mas é provável que jogue pela ponta – é mais agressivo, tipo Neymar, que chuta, joga perto do gol do adversário. Então, acredito que falte ao Brasil esse craque, que jogue de uma intermediária à outra. Seria um farol, controlaria a luz do jogo, o brilho – mas nós não o temos.