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Ubiratan Marques: um maestro em diálogo com o povo

Publicado domingo, 05 de dezembro de 2021 às 06:00 h | Atualizado em 04/12/2021, 16:12 | Autor: Bruna Castelo Branco
Foto: Olga Leiria | Ag. A TARDE
Foto: Olga Leiria | Ag. A TARDE -
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Se contassem ao menino Ubiratan Marques, que vivia entre Salvador, o sertão e o Sul da Bahia, que um dia ele seria maestro de uma orquestra, a Afrosinfônica, provavelmente ele acharia que era maluquice. Que viajaria o mundo com a música, então? Mais esquisito ainda. Ser indicado ao Grammy Latino na categoria de melhor álbum? Aí já é demais. Mas aconteceu – ou melhor, está acontecendo já há alguns anos.

Bira, como é mais conhecido, aprendeu a tocar violão aos 11 anos com a bisavó, Dona Calu. Ela, a matriarca que viveu quase 100 anos e morava em Belmonte, ensinou o som das cordas para o bisneto sem imaginar muito onde ele iria parar.

“O violão ficava lá, ninguém nunca pegou. E aí ela resolveu me ensinar. Quando ela me ensinou, aprendi só para ficar ali com ela, aquela coisa de brincadeira. Ela tocava violão e cantava”, lembra.

 O quintal da casa de Dona Calu era um terreiro – lá, também ao lado da avó, Mãe Guiomar, mãe de santo, Bira começou a descobrir a música afro-brasileira.

No sertão, na cidade de Pé de Serra, ele convivia com os ritmos do São João e passava os dias com a Vó Didi, rezadeira católica. “Lá, tinha muito a cultura do cangaço. Contam que Lampião chegou a ficar ali por perto, em Paulo Afonso”.

Nas ruas, ouvia sons de sanfona, triângulo – que ele aprendeu a tocar de tanto observar – e zabumba. Quando um amigo cansava de tocar zabumba, ele pegava o instrumento e revezava, meio que intuitivamente. “Começou ali”.

Mas foi um pouquinho mais tarde, na adolescência, que Bira passou a encarar a música de um jeito mais profissional. Como o maestro mesmo diz, essa relação nasceu de um “acidente de percurso” na Escola Estadual Severino Vieira.

“Naquele tempo, a gente já fazia um curso técnico, junto com o segundo grau. E aí  fui para o Severino Vieira porque lá tinha uns cursos de mecânica, elétrica, algo nessa linha”. Filho de um funcionário da Petrobrás, parecia o caminho certo a seguir. Só que, então, veio o acidente de percurso: Bira se matriculou tarde demais e as vagas para os cursos mais procurados já estavam todas preenchidas. O que sobrou? Artes.

“A menina falou: ‘Olha, só tenho vagas para o curso de artes’. E eu fiquei: ‘Poxa, é mesmo?’. Liguei para a minha mãe e ela falou: ‘Ô, meu filho, faça o seguinte, você não vai ficar sem estudar. Você se matricula aí em artes e no ano que vem você troca’”.

Na matrícula, Bira tinha quatro opções: teatro, dança, artes visuais ou música. “E aí, claro, né? Eu falei que queria fazer música”. Entre os professores, havia nomes como Moa do Katendê, Emília Biancardi e Nini Godim – e, naquela época, Bira mal sabia quem eles eram. “Para mim, eram professores apenas. Eu era muito novo, tinha 13 anos. Aí, comecei a entender”.

Foi só começar o ano letivo que não teve mais jeito: ele não quis mais trocar de área. “Quando eu entrei, me pegou. Fui entendendo que músico era uma profissão. Eu não sabia como é que iria viver, mas  estava tão apaixonado por aquilo que não tinha mais como largar. Tem coisa que você não sabe como vai ser, você vai, segue o fluxo”.

 Quando viram o quanto o menino estava gostando da escola, aquele trato de mudar de curso até deixou de ser assunto entre os pais de Bira. E mais: ver o filho tão empolgado com a música se tornou uma alegria.

“Meu pai era tão apaixonado pela minha bisavó (Dona Calu), que, para ele, era um orgulho chegar para ela e dizer: ‘Olha, ele está estudando música, vovó’. Para a minha avó, era uma alegria”, comenta.

Quando começou a aprender a tocar piano, Bira fez um dueto com Dona Calu, que cantava. Ainda que nunca tenha descoberto quem compôs, ele ainda lembra dos versos: “A Europa juntou-se ao Brasil / Terra amada do índio e do guerreiro/ A maior invenção do século XX/ Santos Dumont, és um brasileiro”.

É com orgulho também que lembra da sensação de ter sido assistido por ela na TV, anos mais tarde, quando se apresentou no Cassino do Chacrinha com a banda Reflexu’s. “Virei uma espécie de neto que trazia uma continuidade do que ela fazia, do que ela sonhava até. Imagine só para a minha avó?”.

Micareta

Terminada a escola técnica, Bira saiu entendendo de piano, violão clássico, flauta doce, percussão, folclore e cultura afro – mas, entre todos os instrumentos, criou um apego diferente pelo teclado. Em uma micareta em Lauro de Freitas, enquanto tocava na banda Frutos Tropicais, foi visto pelo empresário da banda Reflexu’s.

“Nessa época, a Frutos Tropicais era desconhecida, só depois fez sucesso. Era uma banda de bairro. E aí eu estava tocando em um trio bem velho, e a banda Reflexu’s estava tocando em outro trio, bonitinho. Aí o empresário falou assim: ‘É esse menino que eu estou querendo levar para tocar’”.

Mais ou menos duas semanas depois, Bira foi convidado para participar de um ensaio com o grupo. E o que o persuadiu a ir até lá? A promessa de ganhar um lanche. E um teclado novo. “Eu digo, ‘pô, já tem um lanche, né? Pronto, vou  lá para esse lugar’”. Resultado: entrou na banda.

Foi tudo tão rápido que Bira nem está na foto do primeiro disco da banda, Reflexu’s da Mãe África. Quando marcaram de fazer, calhou de ele viajar para a fazenda do pai. Mas o trabalho continuou e, sem entender muito bem o que aconteceu e o que fizeram para chegar lá, o grupo se tornou a primeira banda baiana a vender mais de 1 milhão de discos. E foram além: também ganharam cinco discos de ouro, seis de platina e lançaram músicas que continuam entre as mais queridas do nosso tão amado carnaval, como Madagascar Olodum.

“A gente vendeu 1 milhão de cópias. Ninguém vendeu. Quem abriu o mercado para Ivete, para Daniela, foi a banda Reflexu’s. Eu me lembro que as gravadoras não investiam na Bahia. Quando vendemos 1 milhão de cópias, esse mesmo produtor que era da banda já montou outras bandas. Então, as gravadoras vieram para cá. O axé music começa aí”, relata.

Na época, Bira tinha 19 anos. Hoje, ele se dá conta de que não entendia bem o que estava acontecendo. “O meu papel ali, eu não entendia. A gente não sabia realmente o que era aquilo naquele momento. Eu não tinha essa dimensão, não, como todo mundo, eu acho”. Hoje, como maestro, Bira consegue olhar para trás e dizer o que essa história significou: “A banda foi o maior sucesso da história da música na Bahia”.

Para Mestre Mário Pam, regente do Ilê Aiyê e amigo de Bira, a escolha do maestro de se voltar para a música popular foi e é transformadora para a música baiana e brasileira.

“Apesar da formação dele com música erudita, ele se embrenhou na música popular, que levou ele para o Grammy. Ele circula entre esses dois universos, entre a música clássica, erudita, e a música popular. A gente precisa disso, de pessoas que pensam diferente. A música popular, afro-brasileira, é muito marginalizada”.

O primeiro contato que o percussionista teve com o maestro foi na Escadaria do Passo, no Pelourinho, enquanto Bira se apresentava com Gerônimo. Hoje, Mestre Mário é um dos educadores do Núcleo Moderno de Música (NMM), escola fundada por Bira. Essa história, aliás, começou lá atrás, no tempo em que o maestro morou em São Paulo.

Casa da Ponte

Depois de 4 anos de banda Reflexu’s, Bira decidiu voltar a estudar. “Já estava com a cabeça virada para estudar música. Achava que o mercado da Bahia já sofria com um monopólio dos empresários”, relembra. Mas, por aqui, descobriu que, na época, só se ensinava música erudita – por isso, precisou sair.

 Chegando em São Paulo, passou na Universidade Livre de Música Tom Jobim e se encontrou. “Era tudo o que eu queria. Estudei com muita gente que me ajudou a entender o que era essa música que eu queria escrever aqui na Bahia”. Logo depois, chamou os irmãos, montou a banda Pau D’arco, cheia de referências do sertão, e gravou um disco.

Bira terminou o curso e se tornou professor. Nos dez anos que passou na capital paulista, fez arranjos para a Orquestra Jazz Sinfônica e fundou, junto à Unipalmares, a Orquestra Zumbi dos Palmares, quando atuou como regente e dirigiu crianças e adolescentes de 8 a 18 anos. O projeto foi tão importante que, para Bira, ele precisava se expandir.

Foi aí que nasceu, já aqui em Salvador, o Núcleo Moderno de Música, no espaço que hoje leva o nome de Casa da Ponte, no Pelourinho. “Eu precisava fazer algo pela minha cidade, já conhecia tudo em São Paulo. Quando voltei e montei o NMM, recebi quase 100 alunos. Todos profissionais, que tocavam com Ivete, com Daniela, todos esses músicos, porque eles já sabiam da minha experiência lá em São Paulo e falavam ‘o maestro está chegando’. E a gente queria falar das nossas coisas. Não ficar falando de Beethoven, que é maravilhoso, que é incrível, mas falar das nossas coisas”.

Para o músico Lazzo Matumbi, amigo de Bira, é essa vontade de olhar para a própria terra, olhar para dentro, que diferencia o trabalho do maestro. E a falta de “pose”, talvez recorrente na cena, também. “Eu, como artista, vejo ele como um arranjador de altíssima qualidade. Ele faz arranjos bonitos, bem pensados. O que me encanta é que ele não é posudo, não é um maestro posudo. Quando ele fez arranjos para mim, ele pedia para ouvir as minhas ideias, para a gente construir junto, compartilhar”.

Afrosinfônica

Em 2010, nasceu a Orquestra Afrosinfônica, definida por Bira, em resumo, como “um diálogo com o povo”. “Tem um pouquinho da banda Reflexu’s, da Orquestra Zumbi dos Palmares, da Jazz Sinfônica, de minha avó...”, aponta.

A ideia veio de uma conversa: “Enquanto eu estava dando aula, os alunos diziam assim: ‘Poxa, maestro, seria massa se a gente conseguisse experimentar essas coisas que a gente está estudando’. E aí eu falei: ‘Vamos fazer uma coisa, vamos montar um grupo aqui, uma orquestra, para experimentar’. No primeiro dia, todos os alunos foram, eu falei: ‘Rapaz, que orquestra é essa, grande?’”.

O músico Gilberto Santiago, maestro assistente da Afrosinfônica e um dos fundadores – e, depois, aluno e professor – do Núcleo Moderno de Música junto com Bira, lembra bem desse começo.

“Junto com ele montei a escola e a Orquestra Afrosinfônica. Produzimos o primeiro disco da Orquestra juntos. Comecei a reger a orquestra. A gente se tornou amigo e parceiro mesmo”, comenta.

Musicalmente falando, Gilberto, que também é diretor de gestão da Casa da Ponte, ressalta a razão de ser da orquestra: evidenciar a música diaspórica e baiana, “com uma incursão na música sertaneja também, que Bira sempre busca”.

Com o tempo, alguns músicos foram saindo, outros entrando, e a Afrosinfônica conseguiu se manter com uns 20 e poucos artistas, mas, sem apoio, o percurso não foi fácil. Como a Orquestra Afrosinfônica não recebia – e continua sem receber – recursos públicos para manter os músicos, muitos não conseguiam seguir na profissão.

Em uma reunião com a Secretaria de Educação de Camaçari, o maestro encontrou uma solução ou, pelo menos, um socorro: vários membros da Afrosinfônica foram contratados para dar aula de música na Casa do Saber e na rede pública da cidade. “Era um emprego para as pessoas. Com o salário que recebiam em Camaçari eles podiam se dedicar à Afrosinfônica. Isso ajudou muito no começo. Imagine só você manter uma orquestra sem pagar salário?”.

Ainda hoje, mesmo muito reconhecida, a Orquestra Afrosinfônica continua sem receber recursos. “A Afrosinfônica e a Rumpilezz não recebem nada. Quando a gente foi indicado ao Grammy, o governo postou com a bandeira deles. E nunca deu um centavo para a gente”. Agora, o plano é buscar apoio estadual. “Precisamos manter esses dois patrimônios, a Afrosinfônica e a Rumpilezz. Já conseguimos marcar reuniões. A gente está na luta aí”.

Este ano, o grupo foi indicado ao Grammy Latino pelo álbum Orín, a Língua dos Anjos, que ainda deve ser lançado oficialmente este ano. A arte da capa é do artista visual Vik Muniz. Foram dois anos sem ensaiar desde a pandemia. “Estamos voltando agora, com as aulas também”. Para 2023 o grupo pretende gravar um novo disco, o Poema das Sombras. “Fala sobre o racismo e todo tipo de preconceito. Já está tudo pronto”.

A cada explicação, cada história, cada detalhe, Bira faz questão de lembrar a influência da avó e da bisavó, a do Sul e a do sertão, na trajetória que tomou na música e na vida. Quando fala do conceito da orquestra que dirige, fala de muita gente, de séculos de história, mas também fala delas.

“Eu escrevo poemas sinfônicos, da mesma forma que Debussy escreveu. Mas eu faço um poema sinfônico falando do Elevador Lacerda, de Sete Portas, Água de Meninos, isso é um conceito afrosinfônico. O conceito afrosinfônico tem um pouco de Gerônimo, de Lazzo Matumbi, da Bahia, do Brasil. Ele é um estudo, mas com um pouco da minha visão, da minha história. É a minha avó me carregando no São João do Carneirinho, e é a minha avó Calu tocando violão na minha frente”.

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