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19/05/2024 às 7:23 - há XX semanas | Autor: ró-Ã

Uma chuvinha em Florença

Confira a Crônica deste domingo

Imagem ilustrativa da imagem Uma chuvinha em Florença

Nino merecia dupla ou triplamente o superlativo absoluto sintético “dulcíssimo”. Morava na Bélgica, integrando uma companhia de dança. Tínhamos sido colegas no curso de alemão, depois travei amizade com o irmão dele e nossas vidas seguiram sempre próximas.

Em visita a Salvador, fins dos anos 80, rolou uma fofoca de que estava com Aids – o que, naquele tempo, correspondia a uma condenação à morte. Ficamos todos revoltados: só podia ser inveja por ele ser lindo e tudo o mais que era. Me lembro, no entanto, de que aquele verão ele testemunhava nossos novos peguetes a cada dia mas não se metia com ninguém, embora candidatos não faltassem.

Meses mais tarde, fui a Bruxelas e ele estava há algum tempo de cama, submetido a um tratamento natureba. Explicou: durante uma turnê, dançaram numa praça em Florença e ele pegou um resfriado. Escrevi imediatamente a uma amiga: Esqueça a fofocaiada pois Nino tá de boa.

Passamos juntos, na praia, seu último réveillon, e ele me contou sobre uma grande paixão, vítima da Aids. Ainda assim, preferi não entender. Fui forçada a encarar a verdade quando acompanhei o declínio diário de sua saúde, que o uso tardio da alopatia não pôde mais deter. Tinha 28 anos.

Desde então, reflito sobre o fenômeno que os psicólogos chamam de “negação”, tão robusto em nossas vidas. Eu não quis acreditar que meu querido nos deixaria, mesmo diante das claras e trevosas evidências. Uma estratégia para adiar ou não enfrentar a dor da despedida, como se pudéssemos de fato evitar os sofrimentos através de ignorá-los. E assim que me dei conta disso – que aconteceu comigo, ninguém me contou –, observo como ocorre a todo instante e em todas as instâncias: a cegueira a que nos impomos quando o óbvio vai de encontro a nossos desejos. E ela é tanto mais maciça quanto menos coragem a gente tenha de mesmo entreabrir as pálpebras.

Nino foi enterrado com os olhos abertos, exatamente como quando expirou. À época, aquilo me incomodou profundamente, porque eu acatava o costume de dar adeus a mortos contidos e arrumadinhos, prontos para a festa que os vermes ou as chamas farão. Os olhos de um defunto são turvos, como se já enxergassem pra dentro, não precisando da lubrificação das lágrimas. Anos adiante, eu também não quis que meu marido fosse enfeitado. Achei violento mexer no corpo dele, não uma expressão de carinho.

Vixe que estou quase Augusto dos Anjos. O fluir do pensamento estabelece um vômito, sempre tranquilizador. Compartilho experiências por que passei, num tempo quando pouco se usava o verbo compartilhar, trazido à moda pelas redes sociais.

E enjoei de redes sociais. Fuxicos sem fim, falsidade, desespero por exibir-se como pedra preciosa, como se o diamante mais límpido não tivesse que suportar árdua lapidação até abandonar a condição de pedra bruta. Restrinjo meu uso ao mínimo, voltando a favorecer ares que me penetram poros e narinas à moda antiga. Nino não conheceu a Internet, porém viveu num mundo igualmente de enganações. O gênero humano se expressa do mesmo modo em qualquer âmbito.

Confiou o HIV a uma criatura que também morava na Europa. A moça não conseguiu conter sua humanidade e, numa vinda à terrinha, passou a notícia a um conhecido mútuo. Teve uma história de que esse cara foi a uma mãe de santo tratar do assunto. Talvez procurando ajuda, mas Nino não gostou e os dois travaram uma discussão virulenta. Considerei imperdoável a moça ter transmitido segredo tão delicado a outra pessoa, e ela morreu pra mim.

Qual não foi o meu assombro quando meu também amigo, irmão de Nino, foi gentilmente buscá-la no aeroporto um dia. Como se ela não devesse ter tido a obrigação de frear a língua. E eu nem me considero uma pessoa rancorosa.

Ninguém nunca vai agir exatamente como nós, e talvez resida nessa compreensão tantos conflitos evitáveis. Eu, certamente, teria deixado a tipa me esperando pelo resto da vida; ao contrário, encontrou foi generosidade e quem sabe isso tenha elevado seu espírito muito além do que meu desprezo o faria. Nino morreu, com ou sem a língua dela. Hoje, minha mão não se atreveria a atirar essa pedra, mas ainda afirmo que a elementa teria se fossilizado caso ousasse me aguardar no saguão do 2 de Julho.

É complicado ser gente, sem listras ou manchas aparentes como outros animais.

*ró-Ã é autora de Dor de facão & Brevidades

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