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Uma conversa com o barbeiro

Quando dois seres humanos estão em interação, o silêncio prolongado é insuportável

Publicado domingo, 24 de março de 2024 às 11:00 h | Autor: Evanilton Gonçalves*
Imagem ilustrativa da imagem Uma conversa com o barbeiro
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Uma conversa com o barbeiro nunca é simples. O profissional está habituado a lidar com os mais variados indivíduos. Gente jovem em busca do corte da moda e homens mais velhos, quase sem cabelo, o procuram. Ele precisa lidar com a elasticidade de assuntos. Quando dois seres humanos estão em interação, o silêncio prolongado é insuportável. Entro na fila de espera. Observo. Todos recebem sua diligente atenção. Ele parece conhecer todo o bairro. Muitos passam e o cumprimentam. Também ele gosta de erguer o braço com a navalha pra compartilhar um gesto amistoso com um conhecido que passa na rua. Seu estabelecimento é o coreto do Largo Dois de Julho.

Na última vez em que fui cortar o cabelo (sempre tem alguém cortando o cabelo quando eu chego), ouvi a informação de sempre: “Tem mais dois agendados, parceiro. Se quiser aguardar...”. Eu, que tenho pouco tempo pra gerenciar meu tempo, sempre aguardo. E sempre o serviço que estava em andamento acaba e logo sou chamado. Ao sentar na poltrona simples, que talvez um dia tenha pertencido a um salão de beleza, mas agora faz parte da paisagem do bairro como uma relíquia sob o coreto, escuto o barbeiro relembrar a dica preciosa: “O segredo é esperar, né não, irmão?”. E eu, que me mexo pouco pra não atrapalhar a instalação da capa protetora e do papel higiênico que ele põe no meu pescoço, digo com convicção: “É verdade”.

O barbeiro já me conhece, o que quer dizer que sabe o corte que pretendo repetir. Mas há um vasto mundo dentro de mim que ele desconhece, mas anseia descobrir. Afinal, onde moro? O que faço pra sobreviver? O que acho das inúmeras questões existenciais e filosóficas que ele tem em mente e partilha ali comigo? São coisas que em um primeiro momento parecem triviais, mas há uma substância oculta por trás das palavras. E daquela pessoa que passa ali, o que acho? Não reparei? E aquela outra lá que acabou de virar a esquina? Sou um homem de poucas palavras. Na condição momentânea de quase estátua, minhas respostas são breves e entrecortadas. Quase sempre eu concordo, mesmo quando não concordo. Desde que me aproximei do coreto com a intenção de cortar o cabelo, reparei no chaveiro do Esporte Clube Bahia que o barbeiro carrega consigo. Isso foi o suficiente pra eu estabelecer um laço de confiança e passar a cortar meu cabelo ali.

O sol parece se aproximar do zênite. Faz calor sob o coreto. Poças de suor sob minha camisa. A estrutura deteriorada parece que vai se desfazer a qualquer momento. Há ferrugem nas colunas. Algumas placas do teto já não existem mais, outras se sacodem como podem pra se desprender de lá. O fluxo é grande na feirinha a céu aberto e nos variados comércios que rodeiam o lugar. O barbeiro demonstra grande destreza profissional e muito perfeccionismo. Em um breve momento, respiro fundo pensando no peso da vida, talvez transportado pra longe pelo barulho da máquina de cortar cabelo. O barbeiro, atento a tudo que se passa ao seu redor, logo capta o meu gesto e responde: “Tá com pressa, né, pai? Já tá acabando, viu? É que só acaba quando deixo no grau”. Envergonhado e resoluto, digo que tá tudo bem, que entendo, que não tenho pressa, que ele faça o trabalho dentro do seu próprio tempo. Quero mesmo que fique no grau. Estou relaxado na cadeira, meus pés apoiados no descanso de perna. Observo o bairro no seu movimento típico de meio-dia. Gente e carros indo e vindo. Assim o tempo passa.

De repente, o barbeiro aciona o sistema hidráulico com regulagem de altura e a cadeira desce. Ele me oferece o espelho de moldura laranja e se afasta satisfeito pra reorganizar suas ferramentas de trabalho.

*Evanilton Gonçalves é autor de O coração em outra América (Paralelo13S)

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