Víviam Caroline desenvolve novos projetos na música e na pesquisa

Instrumentista conhecida como 'Diva da Percussão' esbanja presença luminosa nos palcos

Publicado domingo, 03 de julho de 2022 às 06:20 h | Atualizado em 02/07/2022, 21:33 | Autor: Vinícius Marques
A artista formou a banda Yayá Muxima e está no TImbaladies
A artista formou a banda Yayá Muxima e está no TImbaladies -

No final dos anos 1970, os pais de Víviam Caroline eram plateia certa dos blocos afro de Salvador. O que eles não poderiam imaginar é que a filha, nascida em 1976, um dia seria um nome de referência para a história dos blocos afros e da percussão feminina.

Do nascimento até os sete anos, Víviam viveu com os pais e três irmãos no bairro da Liberdade. Depois, se mudaram para o bairro de São Marcos, onde ela começou a montar seu repertório observando o pai, a quem atribui os títulos de “grande referência musical” e “primeiro professor de música”.

Era o pai de Víviam que montava a playlist da casa, quando isso era feito com vinis, e estar diante da vitrola era uma espécie de momento sagrado, ouvindo e lendo os encartes. “Ele sabia os músicos que estavam tocando, descobria que o cara estava acompanhando outra intérprete e dizia que era o mesmo baterista”, lembra Víviam. 

E não tinha  apenas esse dom. Era alguém que a filha considera que “deveria ter dado aula de como ser pai”, além de ter sido um exemplo  como filho também. “Minha vó, Dona Lindaura, morreu com 99 anos, e ele quem cuidava. Ele fazia faxina na casa dela, levava para passear”. 

Já a mãe exercia uma função de liderança, a quem Víviam chama de “danada e revolucionária”, uma mulher que, nas palavras da filha, desde sempre decidiu trabalhar com a primeira infância e a educação comunitária da criança. 

“Tive um suporte gigante de uma família que me preenche muito com referências fundamentais para a mulher que me tornei”.

Dança

Apaixonada pela dança desde sempre, nos momentos em que o pai comandava a seleção musical em casa, ela já inventava uma coreografia nova e só parava quando a música acabava.

 “Não era tímida, agora eu até sou. Sempre fiz dança e a música esteve sempre presente na minha vida”, conta Víviam, que hoje é adepta do budismo e que, segundo ela, é uma religião que sempre a deixou perto da música e da arte. “Eu estava acertada, escolhi e fui escolhida. Todos os movimentos sociais, os familiares mais próximos também tinham essa relação com a música, com a escuta da música, com a convivência com a música”.

Mais tarde, na adolescência, quando sua mãe foi matricular seus irmãos na Escola Mirim Olodum, a convite de Rita Rodrigues, irmã do presidente João Jorge Rodrigues, teve um encontro com Neguinho do Samba que apresentou para a mãe de Víviam a ideia de uma banda para mulheres, a Didá.

Víviam, à época com 15 anos, estranhou. Nunca tinha ouvido falar numa banda de percussão de mulheres. E ela estava certa, era algo novo realmente. “Banda de meninas com aqueles tambores? Era inusitado. Minha mãe me levou e eu tinha muita vergonha porque já tinha visto Neguinho do Samba na televisão, já era uma pessoa por quem eu tinha grande admiração”, relembra.

Era julho de 1996 quando Víviam “vestiu”, pela primeira vez, um tambor. Ela conta que nunca vai esquecer a sensação que foi aquele momento e foi naquela noite que sua iniciação como percussionista aconteceu. “Eu vinha do Colégio Roberto Santos, onde eu estudava, de farda ainda, e fui lá. Vesti aquele instrumento e meu corpo inteiro se sentiu em casa. Era uma volta para casa, um lugar muito confortável, fácil. E tinha uma conversa para desenvolver ali”, lembra.

Víviam voltou para casa naquele dia super emocionada, desceu a Ladeira da Praça enlouquecida com aquela sensação, com a emoção do que aquilo tinha lhe proporcionado e de lá para cá nunca ficou sem tocar. “Essa energia é uma coisa que eu preciso, é uma necessidade. Tem uma energia que vive em mim e ela se alimenta de percussão, de música, precisa disso para estar bem, estar equilibrada”, explica.

Consciência

A antropóloga e escritora Goli Guerreiro, autora de  Tramas dos Tambores e Terceira Diáspora, lembra perfeitamente de Víviam na sede da Didá, no Pelourinho: “Convivi cotidianamente com Víviam e com as meninas da Didá e ela era a menina que se destacava em tudo, não só musicalmente, mas por conta da articulação do discurso dela. Ela era tão jovem e chamava a atenção por sua consciência política, corporal, feminista. A maneira como ela articulava todas essas dimensões da percussão, da mulher da percussão, era realmente algo que chamava muita atenção”.

Goli considera que esse envolvimento com a percussão levava as coisas para muitas dimensões, sejam eles de cuidados, de consciência política, do papel da mulher e do que significa o Pelourinho. 

“Ali era o começo de um movimento que hoje é gigante: a presença feminina na percussão, no samba-reggae. Na Espanha, por exemplo, tem 1500 bandas de samba-reggae com a presença feminina massiva e Víviam é um ícone dessa história. É impossível falar de percussão feminina no mundo e não mencionar Víviam Caroline, não saber da existência dela e do papel que ela desempenhou e continua desempenhando”, destaca a antropóloga.

Projetos

Na Didá, Víviam assumiu diversos papéis. Sua habilidade com a escrita logo foi percebida por Neguinho do Samba, que a ofereceu o cargo de Diretora de Cultura, e juntos desenvolveram projetos para o grupo. Por conta disso, Víviam escolheu o jornalismo como graduação, depois uma especialização em produção cultural. Tudo pensando na Didá.

A relação com Neguinho do Samba foi tão forte que ele virou tema do TCC da graduação de Víviam e do mestrado também. Os dois iniciaram um romance e ela revela que foi o amor de sua vida. “A Didá era como uma filha, uma filha que nos dava muitas filhas, eram muitas mulheres e crianças”, conta. 

De Diretora de Cultura, ela migra para Diretora de Projetos e Relações Públicas, até se tornar diretora geral do grupo, cargo que ocupou até pouco tempo, quando saiu do grupo, algo que ela prefere não entrar em detalhes. E mesmo ocupando todas essas posições, ela nunca abandonou a percussão.

“Estive na Didá por 28 anos assumindo esses papéis, mas nunca abri mão de tocar. Sempre deixei muito claro que estava ali para tocar. O importante, primeiro, era tocar. Toda a outra parte era importante, mas minha realização estava em tocar”, afirma.

Samba-reggae

Atualmente, Víviam navega por outros lugares, ainda como percussionista. Ela criou o grupo Yayá Muxima, de música de samba-reggae com mulheres e que agrega uma proposta de diálogo com a música eletrônica. As integrantes são ex-membros da Didá. Ela também é percussionista na Timbaladies, projeto de Carlinhos Brown iniciado em dezembro de 2021, também formado por artistas mulheres.

“Viviam Caroline, uma super líder Didá, confiada a mim pelo mestre Neguinho do Samba, é uma grande artista e representante da força criativa da Bahia matriarcal”, resume Carlinhos Brown, sobre o trabalho desenvolvido com a percussionista.

Seguindo os passos da mãe, Víviam também passou a se engajar na área da educação comunitária, atualmente trabalhando na gestão do Instituto Professora Hamilta, que fica na região do Beiru, onde trabalha com crianças negras de 1 a 5 anos.

A percussionista também se prepara para iniciar seu doutorado, onde vai sistematizar a experiência da mulher que toca  tambor. “Vou tratar do corpo das mulheres e esse diálogo com os tambores. É algo que quero continuar me especializando, acho que é também  o meu caminho profissional, minha contrapartida enquanto mulher negra. Quando fortaleço essa tecnologia, eu estou fortalecendo um coletivo importante de mulheres”, afirma.

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