Zelito Miranda aposta na qualidade das lives e se apresenta no dia 23 em seu canal

Publicado segunda-feira, 21 de junho de 2021 às 06:06 h | Atualizado em 20/06/2021, 19:45 | Autor: Gilson Jorge

Em 1985, o Brasil se preparava para realizar as suas primeiras eleições municipais após o fim da ditadura. Naquele ano, os soteropolitanos elegeriam pelo voto, em 15 de novembro, Mário Kertész prefeito, depois de décadas em que as capitais tinham governantes determinados pelos militares. No nordeste do estado, divisa com Sergipe, uma parte de Ribeira do Amparo seria desmembrada em 11 de abril para a fundação do município de Heliópolis.

A novidade estimulou o jovem Clóvis Rodrigues, então funcionário da extinta Varig em Salvador, a voltar para sua terra natal. Antes da viagem, ligou para o amigo Zelito Miranda e anunciou que estava indo para Heliópolis casar e entrar para a política. “Cocó (Clóvis) virou secretário de cultura e turismo e me convidou para tocar no São Pedro de lá”, lembra Zelito.

Era o início da relação profissional do músico com o forró. Nascido em 1956, numa fazenda do município de Serrinha, Zelito lembra de ficar grudado na barra da saia da mãe aos 3 anos, jogando traques de massa e cobrinhas.

O show em Heliópolis, no São Pedro de 1986, abriu portas em outros municípios, e, no final do ano, o cantor, que não tinha planejado enveredar por esse caminho, foi às lágrimas ao tocar para uma plateia com dezenas de milhares de pessoas na Festa do Interior, no Parque de Exposições de Salvador. No ano passado, as lágrimas chegaram na reclusão de casa, com o medo do contágio, as notícias das primeiras mortes, a incerteza sobre o futuro.

O avanço do coronavírus no início de 2020 não afetou o Carnaval, mas atingiu em cheio a programação de música junina que estava no começo da temporada.

Dia 14 de junho do ano passado, Zelito chegou a se deslocar para o Pelourinho, onde faria um show por volta do meio-dia, mas a apresentação foi cancelada em meio ao início das medidas restritivas.

Se, no ano passado, as lives trouxeram um forte componente emocional, com todo mundo querendo ver tudo, este ano Zelito aposta na profissionalização. “Ganhamos uma ferramenta fundamental”, diz ele, que vê a tecnologia como uma aliada, mesmo quando for possível voltar a colocar o pé na estrada para fazer festa no interior.

“Assim como jornalismo e a publicidade, a música sempre usou a TV. Fazer a Copa América numa pandemia é uma coisa insana, festa em bairro com mil pessoas é insano. Mas todo mundo vai fazer sua festa em casa, com a família, tomar um licor”, pondera o músico conhecido como Rei do Forró Temperado.

Estilo próprio

Na definição do escritor, compositor e pesquisador paraibano Bráulio Tavares, forró temperado é a receita que Zelito inventou para arranjos e uso dos instrumentos, sem fugir da influência de forrozeiros tradicionais, como Luiz Gonzaga, Dominguinhos, Jackson do Pandeiro, João do Vale e Marinês. “Eu acho que cada forrozeiro tem que inventar seu estilo próprio, com seu ‘tempero’ próprio”, diz Bráulio.

Mas antes de se tornar uma das maiores referências da música junina na Bahia, Zelito mergulhou em outros universos. “Tínhamos em comum o interesse pela cantoria de viola dos repentistas nordestinos, pesquisamos muito as formas de estrofe, os estilos”, pontua o escritor, compositor e dramaturgo Bráulio Tavares, que morou em Salvador entre 1977 e 1980 e conheceu Zelito no grupo que participava do Teatro Livre da Bahia, do Teatro Vila Velha.

O grupo viajou pela Europa com o espetáculo Cordel 1,2,3, de João Augusto, e Zelito acabou morando por um ano e meio em Nancy, na França. Na volta ao Brasil, o artista, que tinha estudado nos seminários do maestro Lindembergue Cardoso, foi tentar a carreira musical no Rio de Janeiro, para onde todo mundo ia.

Primeiro, os baianos da Tropicália, depois a geração cearense de Fagner, Ednardo, Belchior. E os amigos da Paraíba e Pernambuco que décadas depois se reuniriam no grande encontro: Alceu Valença, Elba Ramalho, Geraldo Azevedo e Zé Ramalho. “Os caras do Rio ficaram putos, dizendo que os nordestinos tinham invadido. Nos anos 80, eles só queriam saber de rock carioca, da Blitz. Lenine ficou escorado lá por dez anos. Eu peguei minha trouxa e voltei para a Bahia”, conta.

Zelito começou tocando repertório popular nordestino nos circuitos dos bares soteropolitanos que faziam voz e violão, mas que eram dominados pela bossa-nova e clássicos da MPB. Quem nunca cantou o refrão de Andanças numa mesa de bar com amigos atire a primeira pedra de gelo.

Durante quatro anos, o músico se apresentou no trio elétrico dos Novos Bárbaros, a convite de Alberto Trípodi. Fez a folia ao lado de Sarajane e Buck Jones. Mas sua onda mesmo era cantar empunhando um violão. No próximo dia 23, o tempero de Zelito pode ser conferido no Arraiá do Rei, no canal de Zelito Miranda no YouTube, a partir das 20h.

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