MUNDO
África merece respeito e solidariedade

Da mesma forma que ainda existem populações negras excluídas e vítimas da violência na nossa sociedade brasileira, fato amplamente atestado pelos índices de inserção no mercado de trabalho e número de assassinatos nas periferias urbanas, os países africanos também sofrem conseqüências do preconceito e da omissão irresponsável por parte do chamado mundo desenvolvido. Sessenta anos após a Declaração Universal dos Direitos Humanos, os direitos mais elementares continuam sendo desrespeitados na África, principalmente no Zimbábue, Congo, Sudão e Somália.
Assolado pela cólera, que já causou a morte de 775 pessoas e contaminou 16.141, segundo dados de quinta-feira, 11 das Nações Unidas, o Zimbábue está em pleno caos político, econômico e social. O presidente Robert Mugabe, que se recusa a deixar o poder após 28 anos, não chegou a acordo com a oposição em seguida de eleições marcadas por fraude e corrupção. Há hiperinflação e faltam alimentos.
Apesar de a doença avançar pelas fronteiras com a África do Sul, Moçambique e Botsuana, Mugabe declarou que não havia mais cólera em seu país, o que contraria os relatos da Organização Mundial de Saúde (OMS). No Congo, grupos rebeldes que lutam pelo poder continuam matando civis, em sua maioria crianças pertencentes às etnias rivais hutu e tutsi. Estima-se que mais de 1.200 pessoas morram por dia devido à fome e doenças apesar da presença das forças de paz da ONU, desde 2006.
No Sudão, genocídio e estupros são práticas comuns e denunciadas pelo Conselho de Segurança da ONU, enquanto na Somália, 65 mil refugiados tentam chegar ao Norte do Quênia para escapar dos conflitos entre forças sudanesas e grupos islâmicos. União Européia e Estados Unidos demonstram clara impotência em solucionar a crise humanitária africana. Já a China, que depende de matérias-primas para seu desenvolvimento econômico, poderia atuar mais no âmbito da ONU, mas por razões ideológicas se mantém sempre neutra (demais) nas suas posições em relação à política interna de outros países.
Na medida em que as mais importantes economias do planeta se afundam numa grave crise financeira e arrastam os emergentes, assistimos à degradação das condições de vida, massacres, proliferação de conflitos entre grupos armados e epidemias sem que ações internacionais eficazes consigam pressionar governos africanos a adotar soluções urgentes.
O alerta é de Paul Collier, o professor de Economia da Universidade de Oxford (Grã-Bretanha), que critica a falta de engajamento dos países mais ricos na luta contra a pobreza.
– Por mais de 40 anos, o desafio do desenvolvimento se situou num mundo de um bilhão de ricos e de cinco bilhões de pobres. O verdadeiro desafio hoje é que 58 países, em sua maioria africanos, estão se esfacelando. Seus habitantes vivem como se fosse o século XIX. Eles estão encurralados em pelo menos uma destas armadilhas: conflitos, “maldição” das riquezas naturais, localização geográfica e falta de governo – explica Collier, autor do livro O bilhão abandonado, citado pelo “Le Monde”.
Collier defende que estes países criem recursos por meio da exportação de suas matérias-primas para investir no setor industrial, única base possível para desenvolvimento a médio e longo prazo. Para o economista, o grave erro é usar estes recursos para importar produtos manufaturados.
O envio de forças de paz, a organização de eleições e a ajuda humanitária de emergência são medidas imprescindíveis, mas insuficientes para reformulação de sistemas políticos e sociais dilacerados por longos anos de colonialismo europeu seguidos de ditaduras corruptas e sanguinárias.
Os africanos se libertaram de seus colonizadores nos anos 60, mas não da pobreza, da guerra tribal e da doença. A Aids prolifera com força no continente devido às péssimas condições de saúde pública. Investir na África, por meio de parcerias econômicas com países ricos em minerais, petróleo e produtos agrícolas, serviria não somente para resgatar os direitos humanos num continente abandonado, mas também para garantir a estabilidade mundial por meio da redução das desigualdades econômicas e sociais entre ricos e pobres. Além disso, ignorar os africanos é deixar campo aberto para o terrorismo e banditismo internacionais. Por analogia, não é o que está acontecendo nas favelas brasileiras?
Ranulfo Bocayuva Jornalista, diretor-executivo do Grupo A TARDE. E-mail: [email protected]