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Baiano e israelense relatam situação em país durante conflito

Militar de Salvador está na linha de frente em defesa de Israel; confira relatos

Publicado terça-feira, 10 de outubro de 2023 às 15:14 h | Atualizado em 10/10/2023, 16:05 | Autor: Brenda Ferreira
A "doutrina Dahiya" utilizada no bairro Ramal em Gaza. Este era o bairro mais bonito e caro de Gaza.
A "doutrina Dahiya" utilizada no bairro Ramal em Gaza. Este era o bairro mais bonito e caro de Gaza. -

O assunto mais comentado no mundo tem sido os ataques promovidos pelo grupo terrorista islâmico Hamas, contra Israel, no Oriente Médio. Desde o último sábado,7, pelo menos 22 locais foram alvos de ataques com mísseis. A ações envolveram ações por terra e ar. O último balanço de mortos divulgado nesta terça-feira, 10, quarto dia de guerra, contabiliza 1.830 pessoas mortas, tanto do lado israelense quanto na Faixa de Gaza.

Diante de todo esse caos, o Portal A TARDE conversou com dois moradores de Israel. Um deles é Ori*. Nascido e criado na cidade de Tel Aviv, maior centro financeiro de Israel, contou um pouco sobre a situação atual. De acordo com o morador, as pessoas não conseguem mais sair para trabalhar e crianças seguem sem aulas, desde o dia do ataque. Além disso, mais de 100 pessoas já foram sequestradas, entre elas, mulheres, idosos, crianças e turistas.

“Houve algumas pedras jogadas na minha casa, tivemos que ir para os abrigos, mas temos uma tecnologia nesses lugares, que não permite que nos atinja. Então basicamente estamos protegidos aqui. A área que mais está sendo afetada é a de Gaza, que fica a cerca de 30 minutos de carro de onde estamos”, explicou o nativo. 

Ori também fez questão de explicar o contexto da relação com a Palestina e defendeu as comunidades israelenses.

“Eles [grupos do Hamas] acham que Israel não é um país e acham que judeus não merecem ter um. Essa é a ideologia, há anos. Não é a primeira vez que tentam começar uma guerra. Tem ataques em Israel o tempo todo, quase todo dia, mas desta vez, eles tiveram sucesso. Planejaram um grande ataque e tiveram um bom sucesso”, declarou, emocionado.

Já Leiv*, é baiano e mora na cidade de Naharia, que faz fronteira com o Líbano, no norte do país. Mesmo com cidadania brasileira, ele atua na linha de frente do combate em defesa de Israel. Leiv explica que em 15 anos morando no país já viveu várias situações de conflitos militares, mas nunca com esta gravidade.

“Em dois dias de guerra, já está sendo considerada pior que a guerra de Yom Kippur (dia mais sagrado do ano judaico)”, destacou Leiv. “A situação está gravíssima no Sul. Enquanto Líbano, Síria e Irã, junto com Hezbollah (grupo aliado do Hamas), não entrarem no conflito, nós aqui do Norte estaremos seguros. E vários militares estão sendo chamados”. 

Ainda segundo Leiv, o objetivo dos militares agora é exterminar os grupos terroristas em Gaza. Não só o Hamas, mas o Fatah e Jihad Islâmica – que são grupos extremista armados. “Passaram de todos os limites. Sequestrando civis, crianças, jovens, idosos e famílias inteiras, assassinando, estuprando e decapitando soldados”. 

Questionado sobre o que se passa em sua cabeça, enquanto brasileiro que mora neste local e estando nesse contexto, Leiv afirmou que a primeira coisa é a sua família. “Só penso em protegê-los e o povo de Israel. Estou certo de uma vitória, não importa o tempo que leve”. 

Historiador e professor, Vitor Porto.
Historiador e professor, Vitor Porto. |  Foto: Divulgação
  

RELAÇÃO COM A PALESTINA

Para ilustrar o “outro lado da moeda”, a reportagem convidou o professor e historiador Vitor Porto. Ao Portal A TARDE ele explicou que a criação do Estado de Israel está diretamente ligada a este conflito, uma vez que foi criado por intermédio da Organização das Nações Unidas em 1948, após a Segunda Guerra Mundial, como parte da divisão do território palestino devido aos horrores que os judeus tinham passado no Holocausto.

Questionado sobre a perspectiva e visão não só dos palestinos, mas do povo árabe em geral, desses grupos terroristas, Vitor destacou que “depende”, mas explicou:

"Nós historiadores, costumamos dizer que as narrativas nunca possuem um lado apenas. Se você perguntar ao um palestino, muito possivelmente ele lhe dirá que o Hamas está "vingando" os ataques, a pressão e controle que Israel exerce sob a Palestina desde sua criação. No entanto, vale lembrar que Israel, apesar de seu tamanho territorial pequeno, é uma potência econômica e tecnologia, fator que, inclusive, fomenta a sua aliança com os EUA", pontua.

“Agora, se você perguntar a um Israelense, ele dirá que as coisas que vem da Palestina são perigosas a ponto de criarem o Hamas, que é um grupo considerado pelos ocidentais, muito influenciados pelos EUA, como terroristas, e que resistem ao longo do tempo, para que Israel não domine completamente a Palestina”, afirmou o professor. 

Ainda de acordo com Porto, não há dúvidas que “a ocupação de Israel sobre a Palestina ainda não aconteceu por causa de grupos de resistência palestinos como o Hamas".

Fotos das greves no bairro Ramal esta noite
Fotos das greves no bairro Ramal esta noite |  Foto: Divulgação | Abu Ali | Site local

TRAGÉDIA CIVIL

Nessa guerra, quem acabou sobrando foram pessoas inocentes que nada podem contra esses grupos extremistas. Na visão do israelense Ori, seu governo não quer machucar pessoas inocentes e civis.

“Se nós matarmos civis por acidente, é porque estamos tentando eliminar terroristas. Por exemplo, quando eles jogam pedras em uma escola, eles estão tentando trazer uma mensagem. Esse é o ponto. Nós tentamos passar essa mensagem para eles, fora das escolas. Porque não queremos matar pessoas inocentes, só os terroristas. O que é exatamente o contrário porque eles matam e sequestram”, aponta..

Vitor Porto aponta a utilização de escudos humanos pelos componentes do Hamas como uma forma de minimizar o potencial bélico de Israel. A tática provoca grande insatisfação na opinião pública, pois acaba gerando um grande número de perdas civis, como crianças, jovens, mulheres e idosos.

Na linha de frente do combate militar a esta guerra, o baiano Leiv também trouxe uma opinião sobre os palestinos. “Não tenho problemas, independente, quero que vivam sua região com sua cultura e religião, em paz, sem necessitar de Israel para nada!  Sem extremismo religioso! Não será fácil, será doloroso para todos os lados, mas a verdadeira paz tem que acontecer pois qualquer outra situação será o fim da humanidade”.

OPERAÇÕES MILITARES

Entre os detalhes da atuação do exército na guerra, Leiv pôde revelar que “temos que libertar todos das cidades, Kibutz e Moshav, do Sul, que ainda estão com terroristas infiltrados. Após esse período, exterminar todos os grupos terroristas da região, mesmo que seja necessário um conflito direto com o patrocinador dos terroristas, que é o Irã”, afirmou. 

Israel afirma ter fechado completamente a fronteira com Gaza. Segundo os militares do país, nenhum militante do Hamas cruzou a fronteira nas últimas horas. Os militares também disseram que encontraram os corpos de 1,5 mil militantes palestinos em Israel e ao redor da Faixa de Gaza. 

Veja vídeo:

 

  

AJUDA DE OUTROS PAÍSES E RELAÇÃO COM O BRASIL 

O Ministério das Relações Exteriores, por meio da Embaixada em Tel Aviv e do Escritório de Representação em Ramalá, tem acompanhado a situação das comunidades brasileiras em Israel e Palestina. São estimados 14 mil brasileiros residentes em Israel e 6 mil brasileiros na Palestina, a grande maioria dos quais fora da área afetada pelos ataques. A Embaixada em Tel Aviv monitora a situação dos cerca de 60 brasileiros estimados em Ascalão e outras localidades na zona de conflito. 

O Ministério das Relações Exteriores orienta os brasileiros residentes e em visita em Israel e na Palestina que sigam as orientações das autoridades locais de permanecerem a proximidade de abrigos de segurança e entrem em contato com a Embaixada em Tel Aviv (Plantão para casos de emergência: +972 54-803-5858, chamada e WhatsApp) e o Escritório de Representação em Ramala (Plantão para casos de emergência: +972 (59) 205 5510, com “WhatsApp”).  

O primeiro avião da Força Aérea Brasileira (FAB) pousou em Israel nesta terça-feira, 10, para resgatar os brasileiros que estão no país. O Airbus A330-200 chegou ao solo israelense às 9h41, no horário de Brasília.

O voo de volta será direto para a base aérea de Brasília e acontecerá nas próximas horas. O pouso está programado para a madrugada desta quarta-feira, 11. Segundo o Itamaraty, 1.700 brasileiros solicitaram o retorno em aviões da FAB.

O governo brasileiro dará prioridade para quem mora no Brasil e não tem passagem aérea para voltar. Os que já compraram passagens foram orientados a embarcar em voos comerciais do aeroporto Ben-Gurion, em Tel Aviv. Até esta segunda-feira, 9, o local estava funcionando.

* Os sobrenomes e as imagens das personagens foram preservados por questões de segurança.

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