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Cessar-fogo de 72 horas entra em vigor no Sudão

Em 10 dias, confronto deixou centenas de mortos no país

AFP
Por AFP
Os confrontos que explodiram em 15 de abril deixaram 427 mortos e mais de 3.700 feridos
Os confrontos que explodiram em 15 de abril deixaram 427 mortos e mais de 3.700 feridos - Foto: MARK JOHNSON | MOD | AFP

Um cessar-fogo de 72 horas entre os dois generais que disputam o poder no Sudão entrou oficialmente em vigor nesta terça-feira, 25, após 10 dias de combates que deixaram centenas de mortos e provocaram uma fuga em larga escala de estrangeiros.

Na capital Cartum, de quase cinco milhões de habitantes, praticamente não foram ouvidos tiros ou explosões durante a manhã.

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Pouco antes da meia-noite de segunda-feira, o secretário de Estado americano, Antony Blinken, anunciou que, após "negociações intensas", as Forças Armadas do Sudão (FAS) e as paramilitares Forças de Apoio Rápido (FAR) concordaram com um cessar-fogo de 72 horas.

As FAR confirmaram a notícia e anunciaram uma "trégua dedicada à abertura de corredores humanitários e para facilitar os deslocamentos de civis".

Em um comunicado publicado no Facebook, o Exército afirmou que respeitará o cessar-fogo se os seus inimigos também respeitarem a medida.

As Forças da Liberdade e Mudança, principal bloco civil que os dois generais atualmente em conflito expulsaram do poder em um golpe de Estado em 2021, expressaram a confiança de que a trégua permitirá um "diálogo sobre as modalidades de um cessar-fogo permanente".

O secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, havia alertado na segunda-feira que os combates entre o Exército, liderado pelo general Abdel Fatah al Burhan, e os paramilitares do general Mohamed Hamdan Daglo deixaram o Sudão "à beira do precipício".

As duas partes beligerantes anunciaram em diversas ocasiões nos últimos dias que aceitaram a interrupção dos combates, mas em cada oportunidade acusaram o outro lado de romper a trégua. Desta vez, o acordo parece estar sendo respeitado.

O chefe da diplomacia da União Europeia (UE), Josep Borrell, elogiou o anúncio da trégua e exortou o Exército e as FAR a respeitar o acordo "plenamente".

A disputa entre Burhan e Daglo, que se aliaram para derrubar os civis do poder, foi provocada pelos planos de integrar as FAR ao Exército oficial.

Estrangeiros deixam o país

Os confrontos que explodiram em 15 de abril deixaram 427 mortos e mais de 3.700 feridos, de acordo com as agências da ONU.

Vídeos publicados na internet - que não tiveram a autenticidade comprovada - mostram o cenário de violência e ataques dos últimos dias: estabelecimentos comerciais incendiados, imóveis destruídos e civis perambulando entre os escombros ainda em chamas.

Antes do cessar-fogo, várias nações conseguiram negociar com os dois lados beligerantes a retirada de funcionários diplomáticos e de cidadãos de seus países.

Mais de 1.000 cidadãos da União Europeia deixaram o Sudão, segundo Borrell. China, Estados Unidos, Japão, Reino Unido e vários países árabes também anunciaram a retirada de centenas de pessoas.

Além disso, quase 700 funcionários da ONU, de embaixadas e de organizações internacionais foram levados para Porto Sudão, uma cidade às margens do Mar Vermelho, segundo as Nações Unidas.

A Agência da ONU para os Refugiados calcula que até 270.000 pessoas podem fugir para o Chade e o Sudão do Sul.

As pessoas que não conseguiram fugir do fogo cruzado tentam sobreviver sem o fornecimento de água ou energia elétrica, escassez de alimentos e cortes de internet e das linhas telefônicas.

A espiral corre o risco de provocar uma "conflagração catastrófica dentro do Sudão que poderia envolver toda a região e além", disse Antonio Guterres.

O Conselho de Segurança da ONU se reunirá nesta terça-feira para analisar a situação no país.

Apesar da saída de muitos diplomatas e cidadãos estrangeiros, o emissário da ONU para o Sudão, Volker Perthes, permanece no país do leste da África.

Perthes negocia há quatro com os militares para que aceitem uma transição à democracia.

Longas horas de viagem

"À medida que os estrangeiros fogem - os que conseguem -, o impacto da violência em uma situação humanitária já crítica no Sudão é agravado”, alertou a ONU.

Bloqueadas no fogo cruzado, as agências das Nações Unidas e outras organizações humanitárias suspenderam as atividades no país.

Cinco trabalhadores humanitários - quatro deles da ONU - morreram e, de acordo com o sindicado dos médicos, quase 75% dos hospitais do país estão foram de serviço.

Quase 200 pessoas de mais de 14 países desembarcaram na segunda-feira à noite de um navio na cidade costeira de Jidá, na Arábia Saudita. Entre as pessoas que fugiram do Sudão estavam idosas em cadeiras de rodas e bebês carregados pelos pais.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) fez um alerta para riscos biológicos "elevados" no Sudão após a ocupação de um laboratório nacional de saúde.

Este "laboratório de saúde pública está ocupado por um dos lados beligerantes e representa um risco biológico muito elevado", declarou a representante da OMS no Sudão, a doutora Nima Saeed Abid, em uma entrevista coletiva por videoconferência em Genebra.

Ela acrescentou que amostras com patógenos de sarampo, cólera e poliomielite podem ser encontradas nas instalações.

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