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Charlie Hebdo publica carta de apoio a Salman Rushdie após atentado

Autor anglo-indiano de 75 anos foi submetido a uma cirurgia de emergência

Da Redação e AFP
Por Da Redação e AFP
Forte defensor da liberdade de expressão, Rushdie defendeu  Charlie Hebdo após ataque em 2015
Forte defensor da liberdade de expressão, Rushdie defendeu Charlie Hebdo após ataque em 2015 - Foto: AFP

O jornal francês Charlie Hebdo, que foi alvo de um ataque terrorista em 2015, publicou uma carta de apoio ao escritor Salman Rushdie. O autor anglo-indiano de 75 anos, que foi ameaçado de morte no Irã na década de 80 devido a suas publicações, foi atacado, nesta sexta-feira, 12, enquanto estava no palco se preparando para um evento no oeste de Nova York.

"Até o momento da redação deste artigo, não sabemos os motivos do autor do ataque com faca a Salman Rushdie. [...] Arriscamos dizer que é provavelmente um crente, que é igualmente provavelmente muçulmano e que cometeu o seu ato ainda mais provavelmente em nome da 'fatwa' lançada em 1989 pelo aiatolá Khomeini contra Salman Rushdie, que condenou ele até a morte", começa a carta.

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O jornal especula sobre as motivações do crime e critica ainda quem diz que o livro de Rushdie, "Versos Satânicos", não é desrespeitoso ao Islâ: "Raciocínio de uma perversidade muito grande porque induz que, inversamente, comentários desrespeitosos em relação ao Islã justificariam uma punição, mesmo que fosse fatal."

No entanto, o veículo de comunicação ressalta que "nada justifica a sentença de morte. "Com que direito os indivíduos, a quem não damos a mínima para saber que são religiosos, se arrogam o direito de dizer que alguém deve morrer?", questiona.

"Teremos que parar de respeitar a palavra 'respeito' quando ela é mal utilizada e usada para intimidar e justificar a execução em nome de Deus. A palavra 'respeito' tornou-se uma arma usada para ameaçar e até matar", conclui a publicação.

Forte defensor da liberdade de expressão, Rushdie defendeu fortemente a Charlie Hebdo depois que um grupo de fundamentalistas islâmicos matou alguns de seus funcionários em Paris em 2015.

A revista publicou caricaturas de Maomé que provocaram reações furiosas entre os muçulmanos de todo o mundo.

Cirurgia

Após o ataque, Salman Rushdie foi submetido a uma cirurgia de emergência. Seu estado de saúde "é desconhecido" no momento, disse a Polícia do Estado de Nova York (NYPD), mas a governadora Kathy Hochul garantiu que o escritor britânico estava "vivo".

Rushdie foi levado de helicóptero ao hospital e submetido a uma cirurgia, informou seu empresário Andrew Wylie em um comunicado no Twitter, prometendo atualizar a informação sobre o estado de saúde do escritor o quanto antes.

"Apunhalado no pescoço"

Às 11h do horário local (12h de Brasília), "o suspeito correu para o palco e atacou Rushdie e um entrevistador", informou rapidamente a NYPD em um comunicado, acrescentando que o escritor "foi esfaqueado aparentemente no pescoço" e que o entrevistador sofreu uma lesão na cabeça.

Carl LeVan, professor de ciência política que estava na sala, disse à AFP por telefone que um homem se jogou sobre o palco e, enquanto Rushdie estava sentado, "o esfaqueou vigorosamente várias vezes" e "tentou matá-lo".

Uma década escondido

A governadora de Nova York, Kathy Hochul, disse que Rushdie estava vivo e o elogiou como "uma pessoa que passou décadas dizendo a verdade ao poder".

O escritor de 75 anos chamou atenção com seu segundo romance "Os Filhos da Meia-Noite" de 1981, que recebeu aclamação internacional e o prestigioso Prêmio Booker do Reino Unido por seu retrato da Índia pós-independência.

Mas seu livro de 1988 "Os Versos Satânicos" teve um forte impacto ao provocar uma fatwa, ou decreto religioso, pedindo sua morte pelo líder revolucionário iraniano aiatolá Ruhollah Khomeini.

O romance foi considerado por alguns muçulmanos como desrespeitoso ao profeta Maomé.

Rushdie, nascido em 1947 em Bombaim em uma família de muçulmanos não praticantes e ateu declarado, foi forçado a viver escondido quando uma recompensa foi oferecida por sua cabeça que ainda é válida.

O governo do Reino Unido, onde estudou e estabeleceu residência, lhe garantiu proteção policial após o assassinato ou a tentativa de assassinato contra seus tradutores e editores.

Passou quase uma década escondido, mudando de casa repetidamente e incapaz de dizer aos filhos onde morava.

Rushdie só começou a deixar sua vida como fugitivo no final dos anos 1990, depois que o Irã disse em 1998 que não apoiaria seu assassinato.

"Voz essencial"

Ameaças e boicotes persistem contra os eventos literários de que Rushdie participa, e seu título de cavaleiro em 2007 provocou protestos no Irã e no Paquistão, onde um ministro do governo disse que justificava atentados suicidas.

No entanto, a fatwa não conseguiu sufocar a escrita de Rushdie e inspirou seu livro de memórias "Joseph Anton", em homenagem a seu pseudônimo enquanto estava escondido e escrito em terceira pessoa.

Os livros de Rushdie foram traduzidos para mais de 40 idiomas e seu romance "Os Filhos da Meia-Noite", com mais de 600 páginas, foi adaptado para palco e tela.

O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, se disse "horrorizado" com o ocorrido.

Suzanne Nossel, diretora nos Estados Unidos da organização PEN, que defende a liberdade de expressão, destacou seu apoio ao "intrépido Salman", desejando-lhe "uma recuperação completa e rápida".

"Apenas horas antes do ataque, na manhã de sexta-feira, Salman me enviou um e-mail para ajudar com a localização de escritores ucranianos que precisam de refúgio dos graves perigos que enfrentam", disse Nossel em comunicado.

"Sua voz essencial não pode e não será silenciada", acrescentou.

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