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DESCOBERTA ARQUEOLÓGICA

Cientistas ressuscitam organismo de múmia para criar receita histórica

Pesquisadores isolaram micro-organismos do sistema digestivo da múmia Ötzi para criar fermento

Jair Mendonça Jr
Por
Restos mortais de Ötzi, o Homem do Gelo, de 5,3 mil anos
Restos mortais de Ötzi, o Homem do Gelo, de 5,3 mil anos - Foto: Robert Clark / Nat Geo Image Collection

Um experimento científico, publicado na revista Microbiome, abriu uma nova porta para compreendermos a dieta da Idade do Bronze. Pesquisadores do instituto Eurac Research conseguiram isolar e cultivar leveduras retiradas do sistema digestivo de Ötzi, a famosa múmia de 5.300 anos descoberta nos Alpes, para produzir pão artesanal.

A façanha, que desafia o tempo, não apenas permitiu provar o sabor de um fermento ancestral, como também revelou segredos sobre a saúde humana e o potencial biotecnológico desses micro-organismos esquecidos.

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O desafio técnico

O microbiologista Mohamed Sarhan, líder do estudo, relatou que o processo não foi imediato. Como o corpo de Ötzi é mantido em condições estritas de conservação a -6 °C, a equipe precisou de três meses de cultivo e isolamento rigoroso para garantir a viabilidade das células de levedura.

Após a estabilização, o fermento natural (levain) foi utilizado para assar pães que replicam, em parte, a experiência sensorial de nossos ancestrais.

Biotecnologia e meio ambiente

A descoberta traz implicações que vão muito além da culinária. Durante os testes, a equipe notou que a levedura possui uma capacidade peculiar: degradar fenóis.

Esses compostos químicos, frequentemente utilizados na preservação de espécimes arqueológicos para evitar contaminação por fungos modernos, foram facilmente processados pelo micro-organismo.

Essa característica abre uma via promissora para a descontaminação de solos e águas poluídas por agentes químicos, sugerindo que a microbiota do passado pode conter soluções essenciais para problemas ambientais da atualidade.

Microbiota e saúde moderna

O estudo também lança um alerta sobre a saúde intestinal humana. Os pesquisadores identificaram que a levedura encontrada em Ötzi faz parte de uma microbiota que praticamente desapareceu nos seres humanos modernos, especialmente em países industrializados.

  • A perda desses micro-organismos está ligada a dietas contemporâneas pobres em fibras e grãos integrais.
  • Organismos semelhantes só haviam sido detectados em amostras de fezes fossilizadas com 3.000 anos e em populações indígenas isoladas, reforçando a importância da diversidade biológica ancestral.

Apesar do sucesso, a equipe mantém a cautela científica. Testes rigorosos foram conduzidos para descartar a hipótese de contaminação biológica superficial, garantindo que o material estudado seja, de fato, original do período em que Ötzi viveu.

O próximo passo da equipe é utilizar a mesma técnica para tentar a produção de cerveja artesanal com as leveduras da Idade do Bronze.

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Tags

Idade do Bronze múmia

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