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Índios bolivianos festejam nacionalização com coca

Agência Reuters

Por Agência Reuters

03/05/2006 - 19:15 h

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Com oferendas de coca, doces e incenso, anciões aimarás agradeceram na quarta-feira aos espíritos e à Mãe Terra pela decisão do "hermano" Evo Morales de nacionalizar os recursos petrolíferos da Bolívia, o país mais pobre da América do Sul.



A celebração, defronte a uma enorme cruz de pedra em uma área semi-urbanizada de El Alto (cidade vizinha a La Paz), pareceu resumir o apoio que os bolivianos confiaram ao decreto firmado na segunda-feira pelo presidente Morales, devolvendo os recursos energéticos às mãos do Estado.



"Obrigado, Pachamama ("mãe terra") pela nacionalização, que vá tudo bem para o nosso irmão Evo", disse o amauta (ancião) Agustín Fernández, com as mãos sobre uma fogueira e junto a três meses de oferendas enfeitadas com fios de lã colorida e ervas medicinais.



Junto à tradicional oferenda aos ajayus (almas) aimarás e à Pachamama, desta vez havia também retribuições pela nacionalização, um anseio de grandes setores da população, estopim dos protestos de 2003 em El Alto que derrubaram o presidente neoliberal Gonzalo Sánchez de Lozada.



"Isso trará prosperidade para o nosso povo", afirmou Fernández, brindando com cerveja com os amautas Justo Cruz e Eloy Chávez, diante do olhar atento de cerca de 20 outros dirigentes indígenas.



Morales, dirigente cocaleiro de origem aimará, venceu as eleições de dezembro com promessas de nacionalizar o gás e o petróleo, a fim de combater a pobreza.



Os amautas aproveitaram a Festa da Cruz, uma celebração católica dos aimarás que coincide com antigos ritos em homenagem ao Cruzeiro do Sul, para agradecer pela nacionalização.



ELITE APROVA



A alguns quilômetros dali, em um luxuoso bairro de La Paz, Tatiana Vaca, funcionária de um banco internacional, também aprovava a medida do governo.



"Vai num bom caminho, embora seja preciso esperar e ver os resultados", disse ela no confortável bairro de San Jorge.



"Isso reforça a imagem de que Evo cumpre e, embora sempre haverá oposição e enfrentamentos entre grupos e regiões, uma boa nacionalização que envolva a todos ajudará o país e trará unidade", acrescentou.



Apesar de ter a segunda maior reserva de gás da América do Sul, atrás da Venezuela, a maior parte da população boliviana vive na pobreza.



Mais contundente, o empresário importador José Suárez qualificou a nacionalização de "perfeita". "Acho uma medida totalmente de acordo com o que requeria o país, não houve uma canibalização do setor, e aplaudo Evo", disse.



Suárez considerou normais e passageiras as queixas das empresas petroleiras, que "fizeram grandes investimentos e precisam de segurança jurídica". "Após o choque, não sobrará nada maior," previu.



Enquanto isso, no terceiro dia de vigência do decreto e com as Forças Armadas garantindo a normalidade do setor energético, as escassas objeções internas parecem se dissipar, enquanto se consolida um sentimento de apoio à medida. No Departamento de Tarija, sul do país, onde estão 80 por cento das reservas bolivianas de gás, o governador Mario Cossío, da oposição, disse que a nacionalização é "uma medida acertada, porque não afeta as rendas regionais e abre a perspectiva de mais renda nacional".



Cossío acrescentou que não vê riscos para o futuro do setor, "porque no mercado internacional os hidrocarbonetos (gás e petróleo) são cada vez um melhor negócio".



Os grupos organizados do relativamente próspero Departamento de Santa Cruz, na fronteira com o Brasil, não se manifestaram, porque parecem mais preocupados em resolver uma disputa com o governo em torno da criação de empregos para saúde e educação.



Como isolada expressão discordante, o vereador radical Roberto de la Cruz, um dos líderes dos protestos de 2003, disse que Morales "não cumpriu (suas promessas), porque o que o povo pedia era nacionalização com expropriação".



(Colaborou Mario Roque)

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