Novos organismos descobertos a 8.000 metros de profundidade

Expedição desceu até a Fossa do Atacama, no Oceano Pacífico

Publicado quinta-feira, 17 de março de 2022 às 22:41 h | Atualizado em 17/03/2022, 22:42 | Autor: AFP
Pesquisa começou em 13 de janeiro e se estendeu por 12 dias nas costas de Mejillones e Tal Tal, no norte do Chile
Pesquisa começou em 13 de janeiro e se estendeu por 12 dias nas costas de Mejillones e Tal Tal, no norte do Chile -

Descer "onde nenhum ser humano tinha ido antes": o cientista chileno Osvaldo Ulloa, que liderou a expedição que mergulhou a uma profundidade de 8.000 metros na costa do país sul-americano em janeiro, relata as descobertas de novos organismos microscópicos sobre os quais os pesquisadores têm mais perguntas do que respostas.

Ulloa, diretor do Instituto Milênio de Oceanografia da Universidade de Concepción, liderou o grupo de três pessoas que desceu, a bordo do submarino Limiting Factor, até a Fossa do Atacama, um enorme buraco no Oceano Pacífico que se estende por 5.900 km do Equador até o sul do Chile.

“Fizemos a façanha de levar seres humanos para a fossa onde nenhum ser humano havia chegado”, disse Ulloa à AFP.

A expedição "Atacama Hadal", que também contou com o explorador americano Víctor Vescovo, e o vice-diretor do Milenio, Rubén Escribano, começou em 13 de janeiro e se estendeu por 12 dias nas costas de Mejillones e Tal Tal, no norte do Chile.

“Já a uma profundidade de 100 metros não há luz, o que aumenta o silêncio da profundidade”, diz Ulloa.

 

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Foi necessário então "acender as potentes luzes LED instaladas fora da cápsula do submarino", permitindo ao grupo observar o que nenhum olho humano conseguia ver antes.

“Nos deparamos com estruturas geológicas e lá vimos um tipo de holothuroideas ou pepinos-do-mar translúcidos, como geleia, que não havíamos registrado e que provavelmente eram espécies novas”, explicou Ulloa.

“Além disso, descobrimos algumas comunidades bacterianas que tinham filamentos que não sabíamos que existiam na Fossa do Atacama e que se alimentavam de compostos químicos e inorgânicos, o que abre muitas perguntas: que compostos são esses? que tipo de bactérias são?"

Diante dessas perguntas, ele admite: "Não temos ideia" das respostas. "Nós vamos ter que voltar lá."

A expedição também encontrou espécies de anfípodes (Eurythenes atacamensis) descobertos em uma expedição não tripulada em 2018, crustáceos, vermes segmentados e peixes translúcidos.

“A grande população desses organismos encontrados contraria o que sabíamos: (que) à medida que a profundidade aumenta, a abundância e a diversidade de organismos diminuem”, acrescentou.

"Sensores" de terremoto

A Fossa do Atacama está localizada no mesmo local onde a placa de Nazca e a placa Sul-americana colidem, duas das placas tectônicas que fazem parte do Anel de Fogo do Pacífico, causando os terremotos e tsunamis que ocorrem com frequência nesta zona.

"Vamos colocar três sensores na placa Sul-americana e dois na placa de Nazca para ver como o fundo do oceano se deforma, (agora) esses tipos de sensores só existem em terra", diz Ulloa.

"Esses sensores nos permitem saber em qual área não houve terremoto e (onde) a energia está se acumulando e é mais provável que seja o próximo terremoto", o que pode ajudar a estimar a localização, explicou.

O observatório começará a ser instalado no segundo semestre deste ano.

"É um projeto tremendamente ambicioso, o maior experimento realizado em geologia submarina aqui no Chile", disse Ulloa.

“E há muito interesse da comunidade internacional em colocar mais sensores e usar essa região para estudar todos os processos associados à colisão dessas duas placas”, afirmou o cientista.

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