MUNDO
Porcos europeus, do sonho à realidade
Para início de conversa, pedimos desculpas a Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha pela alusão ao ofensivo acrônimo (PIIGS) inventado para identificar estas frágeis economias da zona do euro, em oposição ao BRIC (“tijolo”), constituído por Brasil, Rússia, Índia e China.
Elas patinam em déficits fiscais elevados atestados pela Comissão Europeia, em 2009 (respectivamente, 9,3%, 5,3%, 11,6%, 12,7% e 11,4% que ultrapassaram perigosamente o limite imposto de 3%. Apesar de seu déficit não ser tão alto como os demais do grupo, a Itália continua com expressivos gastos.
Há ainda resistência das autoridades europeias em ajudar a Grécia a enfrentar sua dívida pública total estimada em US$ 400 bilhões (o equivalente a cerca de R$ 720 bilhões), o que poderia levar outros países em dificuldade a também reivindicarem ajuda financeira e, como consequência, acarretar o colapso do sistema europeu. A outra saída para financiar seu débito, além das medidas altamente impopulares já em vigor, como corte de salários e aumento dos impostos, seria bater na porta do Fundo Monetário Internacional (FMI), disseminando dúvidas sobre a capacidade da Europa de se reerguer em momentos de crise. “Seria realmente danosa a mensagem de que a zona euro não representa realmente uma união monetária sólida, mas simplesmente um grupo de países que compartilha a mesma moeda”, explica o economista Simon Tilford, citado pelo “New York Times”.
Má administração, fraudes bancárias, corrupção, dívidas públicas acumuladas e políticas sem rigor nestes países contaminaram a zona euro, ameaçando inclusive as mais sólidas, como a Alemanha, que se recupera ainda da crise mundial do ano passado.
Citado pela revista alemã “Der Spiegel”, o Nobel de Economia Milton Friedman advertira antes da implantação da nova moeda, em 1999, que ela não conseguiria sobreviver à sua primeira crise, enfatizando que a zona euro não resistiria a dez anos.
Pessimismo ou não, o fato é que o caso grego representa apenas a ponta do iceberg. Incompetência e fraude começam a ser reveladas. Maquiagens bancárias patrocinadas pelo Goldman Sachs (banco americano que quebrou, em 2009) esconderam as reais taxas de déficit da economia grega, desmoralizando o governo de Atenas. Outra causa do desmoronamento da economia grega seria o alto grau de corrupção. Segundo dados da Transparência Internacional, os gregos pagaram propinas a funcionários públicos e privados de mais de 780 milhões de euros (o equivalente a cerca de R$ 1,95 bilhão), em 2009.
Mas é bom ressaltar que o dever de casa não foi feito: durante décadas, governos conservadores e socialistas agraciaram servidores públicos com generosos reajustes salariais e incharam a máquina administrativa.
Portugueses e irlandeses também estão sofrendo os efeitos da crise, incluindo congelamento de salários. Mas, segundo especialistas, apesar do déficit de 11,6%, a Irlanda já implantou reformas que Grécia, Portugal e Espanha estão apenas começando.
Depois da Grécia, o caso da Espanha é o que mais assusta, porque, desde meados de 2000, o mercado imobiliário vinha aquecendo a economia e criando postos de trabalho até ser duramente golpeado pela crise financeira mundial do ano passado. A bolha imobiliária explodiu. Prédios inacabados e taxa de desemprego da ordem de 20% são as principais consequências.
Percebe-se que os países mais pobres da zona euro se beneficiaram de incentivos importantes, desde 2002, mas não podem mais resolver suas crises desvalorizando a moeda nacional, como faziam antes. Na verdade, o pesado clima de crise e protestos significa sério desafio para o euro, cujos países-membros deverão mostrar que atuam em bloco com verdadeira sintonia de interesses coletivos na busca de soluções supranacionais e não como um bando de economias em pânico.
O “Deus nos acuda” só poderá contagiar saudáveis pilares do mundo europeu. Afinal, o euro é apenas uma criança de oito anos e merece monitoramento cuidadoso.
Ranulfo Bocayuva, jornalista e diretor-executivo do Grupo A TARDE
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