DEBATE
São João raiz ou moderno? Forró segue sua trajetória com mudanças peculiares
Maneira de curtir as festas juninas tem mudado, mas a tradição segue forte


Uma das celebrações mais tradicionais e populares do Nordeste do país, o São João toma conta de toda a Bahia, unindo raízes religiosas com elementos da cultura caipira, como quadrilhas, fogueiras, trajes e comida típica. Com o passar do tempo, a festa se transformou em uma grande indústria, em um movimento que, muitas vezes, retirou características tradicionais em nome da modernização.
Neste ano, o Governo do Estado anunciou, na sexta-feira (29), um investimento de R$ 146 milhões no apoio às comemorações juninas em 282 municípios.
"Mais uma vez, o governo estadual garante apoio aos municípios para que possamos realizar um São João forte, seguro e organizado, que gere emprego, renda e oportunidades”, disse o governador Jerônimo Rodrigues, na ocasião.
Pelo menos 25% dos recursos recebidos pelos municípios deverão ser aplicados na contratação de sanfoneiros e artistas locais, uma iniciativa para valorizar o forró tradicional. Mas, no São João da Bahia, acontecem tanto os festejos originais, quanto os modernizados. Descubra a diferença entre eles e escolha o da sua preferência.
Comidas e bebidas
São João raiz
As comidas trazem uma rica mistura entre as culturas indígena, africana e europeia e são baseadas na colheita do milho, do amendoim e raízes, como mandioca (aipim ou macaxeira). Na mesa farta dos festejos juninos tradicionais não faltam clássicos como pamonha, canjica, paçoca, arroz de leite, pé-de-moleque, bolos, amendoim e milho verde.
Uma das bebidas mais originais é o quentão, feita com cachaça, gengibre, cravo, canela e açúcar, e servida quente. Outra clássica é o vinho quente, feito com especiarias locais e maçã picada.
A pamonha, nome de origem indígena (vem do tupi pamunã), consiste em uma pasta de milho ralado misturada com leite de coco e açúcar, cozida em palhas do próprio milho.
A canjica tem influências indígena e africana e é feita à base de milho verde ralado e leite.
A paçoca tem seu nome derivado da palavra indígena pasoka, que significa “esmagar com as mãos” ou “esmigalhar”.
De origem luso-brasileira, o pé-de-moleque surgiu no período colonial, sendo preparado a partir da mistura do amendoim e da rapadura.

São João Moderno
Os quitutes ganharam um toque street food e gourmet, mas sem anular a base tradicional (milho, amendoim, aipim).
A pamonha de milho, por exemplo, passa a ser servida em travessas com crosta de bacon e queijo coalho gratinado.
Já a canjica ganhou calda de doce de leite e flor de sal.
O bolo de fubá ou de milho passou a ter versão fitness, sem glúten e lactose.
Entraram, ainda, os espetinhos de queijo coalho com melaço, de frango com bacon e até opções vegetarianas.
Na parte de doces, a clássica maçã do amor recebeu cobertura de chocolate belga ou branco e confeitos coloridos; as cocadas de forno ou cremosas vêm com sabores como café ou coco queimado com nutella. O vinho quente é preparado com anis estrelado, cardamomo e frutas secas.
Música
São João raiz
A vertente mais autêntica traz na sua formação clássica a chamada “Santíssima Trindade do Forró”: a sanfona, que conduz a melodia; a zabumba, que dita as marcações graves; e o triângulo, que conduz o balanço agudo.
Também chamado “pé-de- serra”, termo popularizado por Luiz Gonzaga em referência ao sopé da Serra do Araripe (PE), onde nasceu o Rei do Baião, o forró tradicional engloba gêneros como baião (ritmo mais cadenciado), xote (andamento rítmico mais lento e romântico) e xaxado (ritmo cadenciado, animado, com marcação forte no calcanhar), que definem o compasso do arrasta-pé.
Nos festejos juninos que ainda preservam a autenticidade musical do forró, o repertório é composto de clássicos de Luiz Gonzaga (“Asa branca”, “Sabiá”, “Olha pro céu”, “Juazeiro”, “Pagode russo”); Dominguinhos (“Eu só quero um xodó”, “Isso aqui tá bom demais”); Jackson do Pandeiro (“Sebastiana”, “Chiclete com banana”, “O canto da ema”); Trio Nordestino (Petrolina Juazeiro, Procurando tu); e Flávio José (“Tareco e Mariola”, “Meu cenário, Espuma ao vento”), entre outros nomes.

São João moderno
No chamado forró “moderno”, a sanfona e a zabumba estão a serviço de ritmos não convencionais do São João, como o piseiro, arrocha e sertanejo. Quando entram no repertório nos grandes shows e festivais do Nordeste, os clássicos ganham um andamento mais acelerado e mais dançantes.
O piseiro tem em João Gomes, Nattan, Mari Fernandez e Henry Freitas seus representantes mais conhecidos, e o forró de vaquejada, Tarcísio do Acordeon e Vitor Fernandes.
O sertanejo universitário, que incorporou a temática junina e o ritmo do xote, é emplacado por nomes como Ana Castela, Jorge & Mateus e Zé Neto & Cristiano.
Nos arraiás atuais, os clássicos eternizados por Luiz Gonzaga e Dominguinhos foram repaginados por bandas como Mastruz com Leite e Aviões do Forró, que imprimem uma batida eletrônica, e por artistas como Ivete Sangalo e Gilberto Gil.
Decoração
São João raiz
A festa junina tradicional tem na decoração temática um ponto forte. A estética prioriza a simplicidade e a rusticidade em uma celebração da cultura nordestina com materiais naturais, artesanato e cores quentes que remetem ao fogo e ao sol (vermelho, o amarelo e o laranja).
Dentre os elementos da decoração tradicional, a fogueira está presente como símbolo máximo do São João. Os enfeites de “fogueiras de mesa” são montados com gravetos ou fitas, representando a união familiar e a tradição religiosa. Os espaços são enfeitados com elementos rústicos e coloridos, como bandeirolas e balões de papel.

São João moderno
Busca combinar a tradição nordestina com um design contemporâneo. A proposta, segundo os designers e ornamentadores, é trocar os “excessos” por elementos estruturados, como iluminação cênica (luzes de gambiarra), painéis florais e geométricos e uma paleta de cores vibrantes, porém puxadas para tons terrosos, pastéis e amarelos.
A tendência é substituir as antigas lâmpadas incandescentes por cordões de luzes estilo varal de gambiarra ou cortinas de led. O tom das bandeirolas, feitas de materiais alternativos e com tamanhos e cortes diferenciados, ganha uma versão monocromática.
E há os espaços instagramáveis: cantos temáticos com elementos rústicos repaginados para servir de cenário para fotos.
Vestimentas
São João raiz
O figurino tradicional é inspirado na cultura caipira e no sertão nordestino. Vestidos rodados e cinturados de chita ou xadrez, com saias volumosas, babados, fitas, rendas e mangas bufantes compõem o visual das vestimentas femininas, além da maquiagem mais exagerada nas bochechas, batom vermelho e laços no cabelo, fitas trançadas e, nos pés, botas de montaria ou sapatos clássicos e meia-calça.
Para o público masculino, o clássico é a camisa xadrez, calça customizada com remendos de tecidos coloridos, colete, chapéu de palha e botinas de couro ou sandálias rústicas. Neste ano de Copa do Mundo, a tendência nos trajes juninos é misturar a estampa xadrez com peças em verde e amarelo, em alusão à seleção brasileira.

São João moderno
O xadrez e a chita ganham cortes contemporâneos, combinados com tecidos como couro e jeans. Fugindo do tradicional xadrez ou das cores vibrantes, o look “all black” também tem sido uma tendência.
As tradicionais calças de retalhos são substituídas por peças com aplicações de fitas, laços ou pedrarias. Botas de cano médio, lenços, bandanas no pescoço e chapéus estilo cowboy ou country em tons neutros também dão um toque “modernizado” no figurino,
Dança
São João raiz
A dança no forró de raiz é caracterizada por um “agarradinho firme”, com passos executados pelo casal no ritmo de xote, baião ou xaxado. O passo principal é o “dois para lá, dois para cá”, com movimentos circulares, na base do arrasta-pé.
No salão da festa junina, explicam os especialistas, o movimentar dos corpos tem como principal característica a conexão, na posição de abraço fechado. O deslocamento é na base do deslizamento suave das solas dos calçados no chão, o que exige contato constante e joelhos levemente flexionados para dar o balanço característico.

São João moderno
No forró moderno, a dança tem como marcas registradas a fluidez e a fusão de ritmos, sem o tradicional “arrastar de pé” do forró raiz. É caracterizada por giros rápidos, passos cruzados, movimentos de “chicote” (giros e jogadas de cabelo) e um ritmo de salão mais solto e escorregadio.
A postura não exige o abraço fechado durante toda a coreografia, pois os passos são mais longos e os dançarinos deslizam pelo salão com mais leveza. Nesse tipo de dança junina são incorporados elementos de giros e marcações originárias da lambada, do zouk e do tango.