OLHAR RUBRO-NEGRO
Resenha Rubro-Negra: O dia da abertura do portal
Por Moyses Suzart

Há 15 anos o portal do inferno se abria no Barradão e o Vitória alcançava o fundo do poço com o pior rebaixamento de sua história. No dia 9 de setembro de 2005, o Leão empatava com a Portuguesa em 3 a 3, no Manoel Barradas, cravando seu passaporte para a Terceira Divisão do Brasileiro. A desgraça só não foi maior porque as sete trombetas do apocalipse levaram também nosso rival, que só conseguiu a salvação dois anos mais tarde. Já nossa estadia na Série C foi bate-volta.
Diferentemente de 2019, quando o rebaixamento era uma realidade, nenhum torcedor, por mais pessimista que fosse, poderia imaginar aquele desastre. O ano de 2005 parecia até promissor, nas suas devidas proporções. O Vitória conquistou seu primeiro tetracampeonato baiano, de forma invicta. O primeiro desgosto que precedeu o esporro foi a eliminação na Copa do Brasil, para o Baraúnas, em pleno Barradão. A gente tinha que ter pressentido que alguma coisa não estava certa ali, mas nos deixamos levar pelo papo filosófico/motivador do técnico Renê Simões, blindado pela diretoria até o último jogo.
A Série B também parecia tranquila. Chegamos a vencer o Grêmio, por 2 a 1, no Olímpico. O Tricolor foi o campeão daquele ano. Na 17ª rodada, quando vencemos o Caxias por 2 a 0, o estávamos em oitavo, na zona de classificação para a segunda fase. Ainda tínhamos o artilheiro da competição, Alecsandro, com 11 gols. Cenário perfeito, né? O Diabo é sujo, amigos. Era um ano em que seis clubes seriam rebaixados, com o intuito de enxugar o certame para se enquadrar no regulamento atual.
Depois daquela rodada diante do Caxias, restavam quatro jogos para o Vitória se autodestruir. E conseguiu a proeza de sair do céu para o inferno na reta final. Nos jogos restantes, três derrotas e um empate, com requintes de crueldade. A Portuguesa, já classificada para a fase seguinte, enfrentou o Vitória com o time reserva. O Leão precisava apenas de um triunfo ou empate, a depender de outros resultados. Nem o ingresso a 4 conto e entrada franca para mulheres atiçaram a torcida. Apenas 4.416 pagantes foram ver o momento mais doloroso do clube, que já perdia por 2 a 0 com sete minutos de jogo. Conseguimos empatar, o jogo terminou em 3 a 3, todo mundo comemorava a permanência. Até jogadores da Lusa parabenizaram os atletas do Leão, que saíram do gramado vendo a arquibancada aliviada. Eu não estava no estádio, mas desliguei o radinho e fui sacanear meus amigos tricolores, que já estavam rebaixados. Mas o jogo entre Criciúma e CRB não tinha terminado. Enquanto gozávamos da desgraça alheia, o time alagoano ganhou de presente um pênalti no finalzinho, virou o jogo e escapou, nos empurrando para o abismo.
Há quem diga que o atual momento do clube é o pior nos últimos 20 anos. Memória bem curtinha, viu? Daquele time de 2005, a gestão que sucedeu o presidente destituído (e atual) tinha apenas Leandro Domingues no elenco, além dos atletas da base. Todo mundo se picou. De cofre vazio, a atual diretoria investiu R$ 30 mil para comprar Davi, Garrinchinha, Bida e Índio do Ipitanga. Foi o que salvou. Em 2006, o clube iniciou o ano com pouco mais de R$ 100 mil para pagar toda a folha do futebol, que só conseguiu mais grana após a venda de alguns atletas. O lateral Apodi ganhava, por exemplo, apenas R$ 2 mil. O técnico Arthurzinho, R$ 15 mil. Mesmo assim, o Vitória retornou das cinzas, se reestruturou, mas retornou ao limbo nos últimos anos. Contudo, amigos, o atual momento é apenas um passeio no purgatório se compararmos com aquele fatídico 9 de setembro de 2005, em que as portas do inferno se abriram para nós. Que aquele ano sirva apenas de lição e aprendizado, principalmente para quem também retornou das cinzas com a missão de reestruturar o clube.
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