OPINIÃO
A pedagogia de raça
Confira o editorial do jornal A TARDE deste domingo


Seria erro grosseiro de condução da necessária pedagogia de raça se os gestores esperassem por mudanças estruturais para delas brotar o santo milagre da justiça equitativa. Acerta, portanto, por hipótese inversa, quem segue a sabedoria testada e aprovada de não esperar acontecer, enfrentando as condições materiais dadas pelo racismo enraizado.
Tal método sustenta premissa da qual não se deve desdenhar: o categórico e universal imperativo de políticas públicas permanentes de equidade nas escolas. Esta determinação tanto é benfazeja, a ponto de alcançar plena validade a começar pelas redes municipais de ensino-aprendizagem, semeando o solo da futura colheita.
Diante de um contexto no qual as batalhas conceituais costumam alterar a posição da alça de mira, é preciso fixar a tarja de prioridade neste meio de fazer justiça equitativa. Vale aqui o parêntese com potencial de manchete: esta é a opção capaz de incluir milhões de pessoas condenadas ancestralmente a ganhar a vida em contextos a priori adversos.
São as tataranetas das vítimas dos supremacistas brancos, mercadores de escravizados sequestrados por quatro séculos, autores do maior crime praticado contra a humanidade. Para mobilizar municípios no mutirão visando atenuar efeitos de atuais danos, o Ministério da Educação promoveu encontro em Brasília, como A TARDE traz a lume hoje.
Na ocasião, traço distintivo desta iniciativa revela a disposição para convergência cívica, pois participaram legítimos representantes de variados espectros políticos. Além de unir perspectivas visando uma meta definida, acumulando energias, a estratégia produziu reflexão crítica sobre soluções pontuais, efêmeras e isoladas.
Embora úteis para acalmar feridas ancestrais, não alcançam o patamar de solução — tais paliativos são jornadas pedagógicas temáticas e formações isoladas. Trata-se agora de conjugar esforços, pois o horizonte é um só: reparar dores de quem carrega, hoje, as cicatrizes herdadas dos pelourinhos, em sangria desatada desde a África.