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CRÔNICA

Carnaval dos encontros

O Oscar de melhor animação vai para o Carnaval de Salvador

Gilson Jorge
Por Gilson Jorge
Paulinho Boca de Cantor fez uma homenagem ao seu parceiro Moraes Moreira
Paulinho Boca de Cantor fez uma homenagem ao seu parceiro Moraes Moreira -

No momento em que Paulinho Boca de Cantor anuncia uma homenagem ao seu parceiro Moraes Moreira, falecido em 2020, e pega o microfone para cantar Mistério do Planeta, durante seu show na Praça Castro Alves, na noite de sexta, uma mulher loira, de aparentemente 30 anos, camiseta, short jeans e maquiagem psicodélica, saca do bolso o seu celular e ergue-o com a mão direita.

Sorridente e de costas para o palco, a moça tira uma selfie ou grava um reel em que aparece ao fundo o antigo integrante dos Novos Baianos. Ela acena para o seu parceiro, também loiro e da mesma faixa-etária, tentando convencê-lo a fazer parte do registro histórico, mas ele está absorto, sob o efeito de sabe-se lá qual a substância, dançando animadamente. Não fosse o moderníssimo telefone, ambos poderiam ter saído do sítio em que a trupe baiana viveram em Jacarepaguá. Ou mesmo da Aldeia Hippie.

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E, por falar em Novos Baianos, Pepeu Gomes e Baby do Brasil, que tocaram novamente juntos na Praça Castro Alves, no sábado, vão marcar presença na folia baiana até que a morte os separe da avenida. No caso dela, há uma crença de que o arrebatamento a levará antes para um outro plano. Uma conversa que rendeu estranhamento no ano passado, quando o trio de Baby se encontrou com o de Ivete na Barra, e a eterna telúrica anunciou a proximidade do fim dos tempos. Para o espanto da musa do axé, que refutou a ideia instantaneamente e ‘macetou o apocalipse’, apostando que vai rolar a festa por muito tempo ainda.

A presença de artistas religiosos na festa mundana, aliás, tem causado um ‘deus-nos-acuda". Na abertura do Carnaval no Campo Grande, Cláudia Leitte foi vaiada por parte do público ao ter o seu nome anunciado por Carlinhos Brown. O motivo foi a decisão da cantora, evangélica, de mudar a letra da canção Caranguejo, um antigo sucesso de sua carreira no tempo da Babado Novo, trocando a palavra Iemanjá por Yeshua, que em hebraico significa Jesus. Deus e o mundo da axé music foram convocados a opinar sobre a mudança na música. Praticamente um conclave carnavalesco.

Se é pra esquentar os momentos momescos, nada melhor do que o divino Gerônimo e a fenomenal Banda Montserrat se encontrando com Assim Caminha a Humanidade, de Lulu Santos, e O Meu sangue ferve por você, de Sidney Magal. Ainda que o cantor tenha esquecido trechos das letras. Normal. O calor que está fazendo ferve não só o sangue, mas o juízo de qualquer um.

E há momentos de ternura em tempos carnavalescos. Como um japonês que veio sozinho a Salvador, e em uma lavanderia, usou o Google Translate para perguntar ao soteropolitano o que poderia fazer na folia. Embora meio racista, a resposta que apareceu imediatamente foi a apresentação da banda coreana com Saulo. Pior foi sugerir que ele abrisse os olhos para evitar os batedores de carteira.

E o que dizer quando, em meio à multidão suada e desgrenhada, na saída do Ilê, um completo desconhecido se incomoda com a gola da sua camisa fora do lugar e pede licença para ajustá-la.

Uma coisa é certa. Quando se olha a programação dos trios e dos shows nos palcos, dá para ter uma boa ideia dos seus amigos que estarão em cada atração. E os que estarão em todas. O encontro entre Davi Moraes e Moreno Veloso, na Praça Castro Alves, no domingo, por exemplo traz um público moderninho, acrescido de fãs ardorosos de Moraes Moreira e Caetano Veloso, ávidos por uma amostra do DNA no show dos herdeiros.

No circuito de Carnaval, você nunca sabe o que vai encontrar pela frente. De verdade. Imagine que você é da equipe de limpeza e está se preparando, com seus colegas, para varrer a passarela do Campo Grande no amanhecer do dia e se depara com um bêbado deitado no asfalto. A reação foi uma coreografia improvisada com todos os trabalhadores fingindo varrer na direção do distraído.

Mas há uma lista de coisas desagradáveis no Carnaval. Eu diria uma bruta lista. Como a polícia dando porradas aleatórias, a falta de controle sobre o som nas alturas, o tamanho da fila para entrar nos circuitos ou ir para algum outro longe da sua casa e topar de cara com aquela pessoa que você não esperava ver tão cedo. Às vezes, é uma antiga namorada, o último marido, o ex-genro. Às vezes, a nora.

Eu deveria desistir dos trocadilhos com nomes de filmes, pois o Oscar aconteceu no domingo passado. Mas ainda estou aqui, pensando em combinações para Wicked, Nickel Boys e Duna 2.

Sobre Emília Perez, fiz autocensura depois de ver o meme em que a boneca Emília dança vestida com o shortinho de Carla Pérez. E o Oscar de melhor animação vai para o Carnaval de Salvador.

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