OPINIÃO
Desprezo pela vida
Caminhamos para transformar a formação médica em risco social de proporções incalculáveis

Por Redação
O quadro é alarmante, por envolver a responsabilidade sobre a formação de profissionais que terão em suas mãos o cuidado com vidas humanas. Trata-se de estudantes que concluem a graduação em Medicina e obtêm registro profissional sem que tenham sido submetidos a uma formação compatível com a complexidade da função que irão exercer.
A banalização da abertura de cursos de Medicina e a consequente multiplicação de diplomas não podem continuar a ser tratadas como simples expansão do ensino superior, sem a devida garantia do cumprimento de exigências mínimas, que incluem preparo técnico e vivência prática à altura da missão dada aos novos profissionais.
A reprovação de três em cada dez cursos de Medicina sinaliza a necessidade de maior firmeza por parte do Ministério da Educação. O resultado vem da aplicação do Enamed, o Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica.
A prova tem a ambição de medir a assimilação de conteúdos por turmas de 351 cursos, dos quais 107 tiraram nota baixa. Na hipótese de estarem corretos dados divulgados pelo MEC, 28 mil estudantes entregaram resultados aquém do desejado.
Pode-se acrescentar: aquém do necessário, porque sem os conhecimentos não se exerce a medicina. Um de cada quatro novos donos de jalecos vai se formar sem ter domínio, habilidade e competência.
O cenário é ruim para todos. Ruim para as faculdades, embora possam prosperar com as mensalidades elevadas. Ruim para quem as paga, pois fica a sensação amarga do ludibrio. Ruim para órgãos de classe, se diagnosticada apatia, contra a qual o remédio é aceitar o sofrimento da lei para corrigir os erros.
As instituições reprovadas vão passar por supervisão e serão penalizadas. Oito cursos de pior desempenho estão proibidos de matricular. Treze terão de reduzir a oferta de vagas pela metade e 33 vão cortar 25% delas. E mais 45 não podem aumentar o número de vagas.
É preciso buscar meios de corrigir a rota, ou caminhamos para transformar a formação médica em risco social de proporções incalculáveis.
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