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Dois projetos políticos em disputa

Publicado segunda-feira, 20 de outubro de 2014 às 07:43 h | Atualizado em 20/10/2014, 07:43 | Autor: Emiliano José | Jornalista e escritor | [email protected]
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Dois projetos políticos bem distintos estarão em jogo nesse próximo dia 26. Lamentavelmente, num diapasão recorrente desde os anos 50, quando se alardeava falsamente o “mar de lama” sob Getúlio, uma onda neoudenista varre a discussão de fundo sobre a natureza de tais projetos. Um denuncismo de caráter seletivo encobre as discussões acerca do destino do Brasil, soterradas pelas denúncias de corrupção, não importando se verazes ou não. O candidato Aécio Neves representa a tentativa de volta da proposta neoliberal, levada à frente por Fernando Henrique Cardoso entre 1995 e 2003.

Foram anos difíceis, aqueles. Três vezes o País teve que se valer de empréstimos do FMI, a inflação superou a casa dos 12% no final de 2002, o desemprego era dos maiores do mundo, a seca castigava milhões de nordestinos pela ausência de políticas públicas, um processo irresponsável de privatização diminuiu a força do Estado brasileiro, uma relação de subordinação quase humilhante diante dos grandes países do mundo nos colocava em plano secundário na cena mundial. Havia a efetivação da proposta do chamado Estado mínimo, diminuindo a capacidade da intervenção estatal em favor das maiorias.

Os governos Lula e Dilma seguiram caminhos diversos. Não mais a ideia do Estado mínimo, não mais a proposta de primeiro crescer para depois repartir o bolo. Tratava-se agora de distribuir renda e promover o crescimento, garantir o emprego antes de tudo, e não por acaso, criaram-se, nesses quase 12 anos, mais de 20 milhões de empregos e experimentamos hoje um dos melhores índices de emprego do mundo, a par de ostentarmos a metade do índice inflacionário apresentado ao final do governo FHC. Desenvolveram-se políticas sociais que retiraram milhões da extrema pobreza, e podemos nos orgulhar de sermos notícia mundial, divulgada pela ONU, ao sairmos do mapa da fome.

Houve o início, e apenas o início, de um processo de distribuição de renda, com fundos públicos servindo à melhoria de condições de vida do nosso povo. Ainda há, por evidência, um longo caminho a percorrer para enfrentar as desigualdades e a concentração de renda, e sobre isso os projetos pensam diversamente, como se sabe. Figura central do pensamento econômico de Aécio Neves, Armínio Fraga disse abertamente que o salário mínimo estava muito alto. A política de valorização do salário mínimo foi, ao lado do Bolsa-Família, um dos motores da distribuição de renda, de fortalecimento do mercado interno, de dinamismo da economia. O mesmo Fraga defendeu abertamente a redução do papel dos bancos públicos.

O que vai se decidir é isso: se esse processo novo de desenvolvimento fundado na distribuição de renda vai prosseguir, se com ele vamos nos confrontar ainda mais com nossas seculares desigualdades, se vamos continuar a enfrentar a nossa também secular concentração de renda, ou se vamos retroceder a um tempo em que o Estado e os recursos públicos estavam a serviço de um processo intenso de concentração de riqueza e poder. O capital rentista está à espreita, quer a todo custo aumentar ainda mais os seus ganhos, que já são enormes. O modelo distributivo, fundado no aumento da renda e do mercado de consumo interno, mostrou efeitos virtuosos na América do Sul, único continente a reduzir a pobreza e a desigualdade na última década.

Melhor seria não seguíssemos o roteiro do moralismo neoudenista, esse lacerdismo fora de época, e discutíssemos projetos de País. Cada um dos candidatos apresentasse o seu. Que Aécio Neves falasse de sua proposta neoliberal, que a defendesse. Que Dilma falasse do que foi feito e das novas propostas para governar o Brasil com base no modelo de distribuição de renda e garantia do emprego. É verdade que o denuncismo parte de um lado só, que os chamados vazamentos são escolhidos a dedo para tentar atingir o projeto político liderado por Dilma, e esta, aliás, nunca foi arranhada pessoalmente por qualquer acusação. Torço para que nos próximos dias o debate tenha caminhado para o confronto de ideias, para a discussão de projetos sobre o presente e o futuro do Brasil, hoje um país respeitado em todo o mundo.

EMILIANO JOSÉ ESCREVE SEGUNDA-FEIRA, QUINZENALMENTE

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