Editorial - Servidão contemporânea

Publicado quarta-feira, 01 de setembro de 2021 às 06:00 h | Atualizado em 31/08/2021, 21:55 | Autor: Da Redação

A fuga espetacular da cuidadora de crianças Raiana da Silva, 25 anos, ao saltar do terceiro andar de um edifício, dá bem a dimensão da importância de ampliar o debate sobre o racismo de classe em um país contaminado por discursos de ódio.

Acusada de agressões, maus-tratos e cárcere privado, a dona de casa Melina França atraiu à delegacia especializada outras sete possíveis vítimas, aguçando a plausibilidade da hipótese de mau costume contra servidoras do lar.

Embora por método dedutivo seja impossível concluir agirem todas as patroas de forma violenta, a notícia de alcance nacional permite inferir, por indução, a ocorrência de comportamento vicioso por parte de quem contrata esta mão de obra vulnerável.

Disparam a sirene os órgãos do estado e entidades da sociedade civil, para fortalecerem a fiscalização a modalidades de servidão contemporânea, cicatrizes e ferimentos adquiridos em três séculos e meio do tráfico de corpos humanos escravizados.

O apoio às mães vem desde a Antiguidade, com o cativeiro de mulheres como despojos das cidades conquistadas nas guerras; no Brasil, a vinda involuntária das africanas consolidou a prática da “ama de leite”, tendo as negras contribuído para nutrir a prole branca.

O exemplo da trabalhadora capaz de saltar para a liberdade, reativando rito comum aos antepassados, denuncia traços estruturantes desta visão alicerçada na suposta divisão de mundo em grupos distintos, um autorizado a ter direitos, outro obrigado a cumprir deveres.

Uma investigação policial, livre de preconceito, poderia encontrar, agora, em perfeito flagrante, escravocratas moradoras em condomínios de diversos graus de conforto, em disseminada torpeza de caráter, independentemente de classe social.

A corajosa jovem do município de Itanagra, a quem cabia cuidar de trigêmeos, trouxe à lume o esforço a ser empreendido pela sociedade brasileira, a fim de desautorizar a maldade de perfil étnico e de gênero, ainda resistente, 133 anos após a suposta abolição.

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