EDITORIAL
O Brasil reconhece o Brasil
Confira o editorial desta segunda-feira, do jornal A TARDE

A produção de conhecimento só é possível quando se tem acesso a dados confiáveis, a verificar nas coleções do Arquivo Público do Estado da Bahia. Uma delas, relacionada a documentação de pessoas escravizadas, libertas, pessoas livres e africanos repatriados, agora faz parte da memória mundial.
O acervo histórico foi admitido como tesouro da humanidade pelas Nações Unidas, despertando a atenção de quem lida com pesquisa acadêmica. São mais de mil maços de documentos contando como o Estado colonial e o império brasileiro regulavam a circulação de pessoas pretas entre 1821 e 1889.
O estudo dos registros, chamados passaportes, pode inspirar interpretações o mais fidedignas possíveis sobre mecanismos capazes de estruturar o racismo. As preciosas pistas para reconstituição de trajetórias, pessoais ou coletivas, tomam a forma de pegadas a fim de se entender melhor o rastro da opressão. O belo tento lavrado pelo governo do estado pede atenção.
Precisou um reconhecimento externo para se dar valor às joias, como se o tesouro estivesse sempre ali, no entanto, sem ter seu sentido dimensionado. Ao ligar os pontos entre os conteúdos de memória, será possível verificar como o poder público vigiava a população mantida em cativeiro ou dele libertada.
Não havia fotografia, por isso a identificação do portador ou portadora baseava-se em marcadores como nome, destino, origem, trabalho e a quem pertencia. Também vinham escritos nas carteiras a altura; a cor dos olhos; o tipo de corte do cabelo; o formato de nariz e boca; entre outras características individuais.
Embora servisse para discriminação do grupo humano tido como inferior, o documento podia proteger quem já havia conquistado a alforria. Entre outros efeitos, a posse do passaporte, assinado por um delegado, preservava as pessoas libertas de serem reescravizadas. Resta agora desvendar estas preciosidades a fim de ajudar o Brasil a curar-se de sua própria amnésia.
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