IMPEACHMENT
10 anos do afastamento de Dilma: onde estão os carrascos da petista?
Reportagem traz detalhes sobre os personagens que participaram do processo de impeachment contra Dilma Rousseff

Nesta terça-feira, 12, um dos capítulos mais polêmicos da história política recente do Brasil vai completar dez anos: o afastamento de Dilma Rousseff da Presidência da República, após decisão do Senado Federal no dia 12 de maio de 2016, por 55 votos a favor e 22 contra.
Aquela medida foi mais um episódio de uma história que começou após as eleições de 2014, quando Dilma Rousseff bateu, nas urnas, o ex-governador de Minas Gerais, Aécio Neves (PSDB), em um segundo turno disputado, no qual Dilma venceu por uma diferença de "apenas" 3.459.963 votos.
Após o resultado, Dilma teve dificuldades para manter a sua governabilidade e, após sucessivas crises com o Congresso Nacional, ela viu ser aberto contra ela, no dia 2 de dezembro de 2015, um processo de impeachment, que foi aceito pelo então presidente da Casa, Eduardo Cunha.
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Já em 17 de abril do ano seguinte, a Câmara autorizou a abertura do processo contra Dilma Rousseff, após 367 votos a favor e 137 contra. O processo seguiu para o Senado, onde o presidente era Renan Calheiros. Ao final, Dilma acabou afastada do cargo.
O impeachment da petista aconteceu no dia 31 de agosto de 2016, quando o mesmo Senado aprovou a condenação definitiva dela por crime de responsabilidade fiscal — as chamadas pedaladas fiscais.
Ela foi afastada definitivamente do cargo com 61 votos a favor e 20 contra. No lugar dela, assumiu o vice, Michel Temer, que muitos petistas e aliados consideram como um dos articuladores da deposição de Dilma Rousseff.

Os nomes citados até agora — Aécio Neves, Eduardo Cunha, Michel Temer, Renan Calheiros — são apenas alguns dos atores que marcaram a política brasileira naquele período e ainda trazem ecos até os dias de hoje, uma vez que Dilma foi a segunda presidente, após a redemocratização do Brasil, a sofrer um impeachment — o primeiro foi Fernando Collor, em 1992.
Nesta reportagem do portal A TARDE, vamos trazer mais detalhes sobre esses e outros personagens que participaram do processo de impeachment contra Dilma Rousseff, há dez anos.
Aécio Neves
Aécio Neves, então senador, teve um papel central na articulação política para a derrubada de Dilma Rousseff.
Após perder as eleições de 2014, ele foi uma das principais figuras da oposição a defender a deposição da presidente.
Além de comemorar abertamente a aprovação do parecer de abertura do processo de impeachment na Câmara dos Deputados, Aécio argumentou que o impeachment era necessário devido às "pedaladas fiscais" e à crise econômica.

Durante o julgamento final da petista, no Senado, Aécio acusou Dilma de ter vencido a eleição de 2014 "faltando com a verdade" sobre a situação econômica do país e de ter cometido erros graves.
Após a finalização do processo, Aécio, assim como o PSDB, perdeu espaço na política nacional. Tanto que, em 2018, desistiu de concorrer à reeleição ao Senado e disputou uma vaga na Câmara dos Deputados.
Atualmente, além de manter o mandato parlamentar como deputado federal, Aécio Neves é presidente nacional do PSDB.
Michel Temer
Temer, então vice-presidente, teve papel central no impeachment de Dilma Rousseff em 2016, assumindo a presidência após o afastamento dela.
Embora tenha negado articulação direta, descrevendo o processo como cumprimento constitucional e, posteriormente, como um "golpe de sorte", seu partido (PMDB) e aliados foram fundamentais na aprovação do impedimento no Congresso.
Antes de o processo ser iniciado, Temer e Dilma já tinham passado por um rompimento político.
Em 2015, ele tornou pública uma carta de desabafo — "Carta ao Povo Brasileiro" — em dezembro de 2015, na qual se queixava de ser um vice "decorativo".

Além disso, o então PMDB, com influência dele, rompeu com o governo e oficializou apoio ao impeachment.
Em entrevistas, Temer sempre sustentou que o processo seguiu os trâmites constitucionais e que assumiu por via constitucional, sem participar de um "golpe".
Atualmente, prestes a completar 85 anos, Michel Temer atua como advogado, consultor jurídico e conferencista, não ocupando cargos eletivos ou políticos.
Eduardo Cunha
Eduardo Cunha foi peça-chave no impeachment de Dilma Rousseff em 2016, autorizando a abertura do processo em 2 de dezembro de 2015 na condição de presidente da Câmara dos Deputados.
Ele alega ter agido por razões técnicas (pedaladas fiscais/decretos) e, posteriormente, afirmou não se arrepender, assumindo o papel central na saída do PT.
O ato ocorreu em meio a um rompimento do deputado federal com o governo Dilma. Ele afirmou que a presidente mentiu ao negar negociações para tentar barrar o impeachment em troca de ajuda contra o processo de cassação dele.

No entanto, Cunha acabou tendo mesmo o mandato cassado, em 2016, e posteriormente foi preso. Atualmente, ele está filiado ao Republicanos e é pré-candidato à Câmara dos Deputados, desta vez pelo estado de Minas Gerais. Além disso, vem atuando no setor de comunicação, montando uma rede de emissoras de rádio, incluindo rádios evangélicas.
Eduardo Cunha ainda lançou o livro "Tchau, Querida", no qual narra os bastidores do impeachment de Dilma Rousseff.
Assista a votação do pedido de impeachment na Câmara dos Deputados
Renan Calheiros
Como presidente do Senado à época, Renan Calheiros teve papel central na condução do processo de impeachment de Dilma Rousseff. Inicialmente, até tentou manter postura de neutralidade, mas acabou por votar a favor da cassação.
Ele assegurou o andamento da pauta, rejeitou tentativas de anulação e alinhou-se ao governo de Michel Temer. No pronunciamento antes da votação final, afirmou que o processo seguiu a Constituição e que o Senado não se omitiu.

Assista a votação do pedido de impeachment de Dilma Rousseff no Senado
Atualmente, Renan Calheiros mantém o mandato de senador da República por Alagoas (MDB-AL), com mandato até 2027. Na Casa Alta, ele atua como presidente da Comissão de Assuntos Econômicos (CAE).
Ricardo Lewandowski
Ricardo Lewandowski foi o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) e comandou o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff em 2016 no Senado Federal.
Ele conduziu a sessão final de julgamento, assinou a sentença de condenação, mas permitiu o "fatiamento" da votação que resultou na perda do mandato sem a inabilitação para funções públicas.
Em uma das decisões mais polêmicas, acatou a separação da votação em duas partes: a perda do cargo de presidente (aprovada) e a inabilitação para funções públicas por 8 anos (rejeitada).

Meses após o processo, Lewandowski classificou o impeachment como um "tropeço na democracia" e criticou a coalizão política da época.
Recentemente, Lewandowski deixou o cargo de Ministro da Justiça e Segurança Pública do Brasil, com saída oficializada para meados de janeiro de 2026. Ele entregou sua carta de demissão ao presidente Lula, alegando motivos pessoais, após atuar na pasta desde fevereiro de 2024, substituindo Flávio Dino.
José Eduardo Cardozo
José Eduardo Cardozo atuou como o principal advogado de defesa da ex-presidente Dilma Rousseff durante o processo de impeachment.
Como ex-advogado-geral da União (AGU), ele liderou a estratégia jurídica e política, argumentando a inexistência de crimes de responsabilidade e denunciando o processo como uma perseguição política e golpe.
Durante o processo, sustentou que as "pedaladas fiscais" não configuravam crime de responsabilidade e que o processo era uma "inversão da ordem constitucional".

Além disso, mencionou que a ex-presidente era vítima de uma perseguição política, citando Eduardo Cunha, e relembrou a trajetória de luta de Dilma contra a ditadura.
Ao final, após a condenação, ele defendeu que a condenação de Dilma Rousseff seria uma "injustiça histórica" e um "desrespeito à democracia”.
Atualmente, José Eduardo Cardozo atua principalmente como advogado, professor de Direito e comentarista político. Ele é sócio do escritório Martins Cardozo Advogados Associados, especializado em questões jurídicas complexas.
Hélio Bicudo
Hélio Bicudo foi o autor principal do pedido de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff, protocolado em 1º de setembro de 2015. Ele foi um dos fundadores do PT.
O pedido de impeachment elaborado por ele baseou-se nas pedaladas fiscais (transferências de recursos a bancos públicos para melhorar o balanço contábil) e nas denúncias de corrupção na Petrobras.

Em 2016, Bicudo comemorou o afastamento, afirmando que a luta foi popular e que a saída era necessária para a decência da política.
Hélio Bicudo morreu em 31 de julho de 2018, aos 96 anos.
Miguel Reale Júnior
Miguel Reale Júnior foi um dos autores principais do pedido de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff em 2016, ao lado de Hélio Bicudo e Janaína Paschoal.
Ele argumentou a existência de crimes de responsabilidade, citando "pedaladas fiscais" e decretos orçamentários, defendendo que o país estava em caos econômico.
Perante a comissão do Senado, defendeu que houve crime de responsabilidade, dolo e irresponsabilidade fiscal que tornaram a gestão de Dilma insustentável.

Na comissão especial do Senado, ele argumentou que o impeachment era necessário para evitar a bancarrota do país, rejeitando a tese de "golpe".
Atualmente, Miguel Reale Júnior atua como professor titular sênior da USP, advogado criminalista em São Paulo e conselheiro do Instituto Não Aceito Corrupção. Neste ano, ele foi um dos defensores de um Código de Ética para o Supremo Tribunal Federal (STF).
Janaína Paschoal
Janaína Paschoal foi uma das figuras centrais no processo de impeachment da petista. Ela atuou como a principal advogada de acusação durante as sessões no Senado Federal, sustentando a tese de que a presidente cometeu crime de responsabilidade por meio das "pedaladas fiscais" e da edição de decretos de crédito suplementar sem autorização do Congresso.
No dia da votação final no Senado, em agosto de 2016, chegou até a pedir desculpas a Dilma pelo sofrimento causado, embora tenha reiterado a convicção técnica pelo impeachment.

A visibilidade conquistada no processo impulsionou a carreira política.
Em 2018, ela foi eleita deputada estadual por São Paulo com a maior votação da história para o cargo na época, alcançando cerca de 2 milhões de votos. Em 2022, ela tentou uma vaga ao Senado, mas não teve êxito.
Atualmente, ela é vereadora na cidade de São Paulo, filiada ao PP. Ela atua como integrante da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara Municipal, com foco em projetos na área de direito penal, cidadania e fiscalização.
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