À CPI, Witzel afirma que Governo Federal deixou estados desamparados

Publicado quarta-feira, 16 de junho de 2021 às 13:47 h | Atualizado em 16/06/2021, 19:11 | Autor: Da Redação

O ex-governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC-RJ), em declaração à CPI da Pandemia nesta quarta-feira, 16, afirmou que a ajuda do Ministério da Saúde no combate à Covid-19 no estado foi “praticamente zero”.

"O nível de cooperação com o Ministério da Saúde foi praticamente zero. Foi uma descooperação. Uma dificuldade. Eu tive uma reunião com o Comandante Militar do Leste para pedir apoio à montagem de hospitais. Ele disse estar disponível, mas não tivemos o apoio. Mas, evidente, que militar cumpre ordens para executar o trabalho", disse Witzel. 

"Eu que sou fuzileiro, tenho conhecimento que as Forças Armadas poderiam instalar hospitais em toda baixada fluminense. Temos expertise como militares de fazer isso de forma rápida (...) Não seria difícil montar hospital de campanha. Isso não foi feito, mais um sinal de falta de colaboração – não do Exército, mas de quem manda no Exército.”, afirmou. 

De acordo com o ex-governador, o envio de verbas pelo governo federal aos estados não foi suficiente e que houve demora na aprovação do auxílio emergencial.

"Estado não pode fazer empréstimo, nem emitir moeda. Queríamos que o governo rapidamente aprovasse o Auxílio Emergencial. Se você pede para ficar em casa, porque é necessário, e a população não tem a resposta do auxílio emergencial na mesma agilidade das medidas de combate à pandemia, evidentemente que você tem dificuldade em conduzir a pandemia", ponderou.

Wilson Witzel afirmou que, em razão da falta de coordenação do governo federal no combate à pandemia de Covid-19, precisou tomar medidas para tentar controlar o ingresso de pessoas em seu estado e, consequentemente, evitar casos de Covid-119.

"Como não havia uma coordenação do governo federal, a questão foi solucionada pelo Supremo Tribunal Federal (STF). E é preciso deixar bem claro: o STF não impediu o governo federal de fazer nada, mas deu a governadores e prefeitos as condições necessárias para que supríssemos a omissão do governo federal", afirmou.

"Se o governo federal não impede o turista de entrar, eu – como governador e por ter sido juiz federal – entendi que o atendimento a Saúde é dever de todos e tomei a decisão neste caso", completou. 

"Mas deixo claro: [o STF] não impediu o governo federal de fazer nada." 

Troca de delegado

Ao continuar revelando as supostas retaliações do governo federal, Witzel afirmou que o governo federal ordenou a troca de um delegado da Polícia Federal que investigava gestões anteriores da saúde do estado. 

Witzel soube de troca do delegado por meio de uma reunião com o então ministro da Justiça Sergio Moro. No encontro, o ex-governador do RJ diz que Moro "não quis tirar foto comigo e anunciar meu nome" porque "não poderia dar publicidade" a presença dele na pasta. 

Segundo Witzel, o delegado requisitado pelo governo federal era Bernardo Barbosa. Ao receber as orientações de Moro, Witzel diz que respondeu que o então ministro estava indo por "um caminho errado". 

"Disse para ele que estava indo para um caminho errado. 'Se você quer ser ministro do Supremo, não precisa fazer isso. Precisa convencer os senadores que você é capaz de ser um ministro imparcial. Agora esse tipo de coisa de menino de recado não é coisa que um magistrado como você'", afirmou. 

Retaliação 

Ao ser questionado pelo relator da CPI, senador Renan Calheiros, sobre a relação com o governo federal, Witzel afirmou que fez críticas a atuação do governo federal e que, a partir disso, houve retaliações ao estado do Rio de Janeiro, "especialmente no regime da pandemia".

“A partir do caso Marielle, eu particularmente percebi que o governo federal começou a me retaliar. Depois desse evento, não fui mais recebido no Palácio do Planalto. Tinha dificuldade em falar com ministros. Encontrei o ministro Guedes no avião, ele virou a cara e saiu correndo. 'Não posso falar com você'. Esse não é um comportamento republicano. Você tem que falar com os ministros para levar recursos para o seu estado. Claramente, eu fiquei em situação de vulnerabilidade, por perseguição política, em um processo criminal com motivação política", disse. 

Embate

Citado pelo relator Renan Calheiros em uma série de perguntas e também pelo próprio Wilson Witzel em suas respostas, o senador Flávio Bolsonaro (Patriota-RJ) teve uma questão de ordem atendida pelo presidente da CPI, senador Omar Aziz, para de posicionar.

"Causa indignação, sim, não só em mim, em todo mundo que está assistindo essa CPI que esperava que ela tivesse uma preocupação com os fatos envolvendo Covid", disse Flávio, acusando o relator e o depoente de terem feito um "conchavo" na sessão.

Ele também afirmou que Witzel tem culpa por parte das mortes causadas pela pandemia no Rio de Janeiro.

"E tem, sim, o depoente as mãos sujas de sangue entre esses quase 500 mil mortos. Esse, sim, é o culpado. E vem aqui e cria um monte de narrativa mentirosa e eu faço questão de desmascarar. Porque ele foi eleito mentindo, enganando a população do Rio e se revelou depois que sentou na cadeira de governador", afirmou.

Saída

Após um bate boca com senador, Witzel decidiu abandonar a sessão. Segundo Witzel, ele não era “porteiro” para ser intimidado pelo parlamentar.  

“Senador, o senhor pode ficar tranquilo que eu não sou porteiro. Não vai me intimidar, não. Mas, senador Flávio Bolsonaro, vossa excelência é contumaz ao dar declarações atacando o Poder Judiciário, especialmente o juiz Flávio Itabaiana”, afirmou Witzel a Flávio. 

A fala é uma referência ao porteiro do condomínio em que Jair Bolsonaro tem residência no Rio, que inicialmente afirmou que os assassinos da vereadora Marielle Franco teriam ido à casa do presidente, mas que depois mudou a sua versão.

Witzel também disse que vem recebendo ameaças de morte em série. Acredita que algumas delas partem de milicianos do Rio de Janeiro, apesar de ressaltar que “miliciano não se declara miliciano”.

“Senador, a gente recebe sempre ameaças, que eu deveria estar morto. Durante o período que eu tinha a minha segurança como governador, eu tinha a minha segurança, me deixava mais tranquilo. Hoje eu não tenho mais essa prerrogativa.

Consequentemente eu evito sair à rua, sair à noite, ter rotina”, afirmou, para em seguida ser questionado por Renan Calheiros (MDB-AL) se as ameaças partiam de milicianos.

“Miliciano não se declara miliciano. Mas a minha segurança sempre observou a aproximação de veículos. procurando mudar o trajeto, intimidações houve.”

Em diversas ocasiões, o ex-governador afirmou que houve atuações da Polícia Federal e do Ministério Público Federal que se caracterizaram como “intervenções” no estado e contra ele próprio.

Witzel chegou a citar uma conversa com o ex-ministro da Justiça Sergio Moro, que teria pedido ao então governador que parasse de afirmar que queria ser presidente da República.

“Eu cheguei lá, o ministro Moro disse pra mim o seguinte: ‘Ô Witzel, o chefe falou pra você parar de falar que quer ser presidente. E, se você não parar de falar que quer ser presidente, infelizmente a gente não vai poder te atender em nada, né?’. E aí o ministro Moro falou que ia pedir de volta os delegados, porque estava sendo uma determinação do governo federal. Isso é ou não é uma clara intervenção num estado da federação?”

Witzel pediu para encerrar a sessão quando estava sendo questionado pelo senador Eduardo Girão (Podemos-CE) sobre suspeitas de desvio de dinheiro na compra de respiradores pela gestão do ex-governador.

Comunicado, o presidente da CPI, senador Omar Aziz (PSD-AM) disse que o pedido estava amparado por decisão do STF (Supremo Tribunal Federal), que garantiu um habeas corpus a Witzel, e comunicou o encerramento da sessão.

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