Mensagens confirmam que Planalto facilitou acesso de pastores ao MEC

Emails registram conversas entre assessores dos religiosos e o ex-ministro da Casa Civil

Publicado sexta-feira, 08 de julho de 2022 às 17:48 h | Atualizado em 08/07/2022, 17:48 | Autor: Da Redação
Pastores Gilmar Santos e Arilton Moura são recebidos por Bolsonaro em 2019
Pastores Gilmar Santos e Arilton Moura são recebidos por Bolsonaro em 2019 -

A facilidade de acesso dos pastores investigados por favorecimento no Ministério da Educação (MEC), no escândalo que envolve o ex-Ministro da pasta e também pastor, Milton Ribeiro, ficou evidenciada em mensagens encaminhadas ao então Ministro da Defesa, General Braga Netto, cotado para ser o vice na chapa do presidente Bolsonaro (PL) à reeleição.

Os emails foram obtidos pelo jornal Folha de São Paulo e registram a solicitação de Braga Netto para que Ribeiro recebesse um dos pastores ligados ao presidente Jair Bolsonaro (PL) e suspeitos de atuar em um esquema de corrupção no governo.

Em 7 de janeiro do ano passado, o gabinete de Braga Netto encaminhou ao MEC uma solicitação de audiência em nome do pastor Arilton Moura para que a pasta avaliasse a "pertinência em atender". O texto ainda cobra retorno sobre as "providências adotadas por esse ministério".

Questionados, MEC, Planalto e o ex-ministro não responderam.

As mensagens reforçam as suspeitas de respaldo do Planalto para a atuação dos pastores, peças centrais no balcão de negócios do MEC. Em áudio revelado pela Folha em março, o agora ex-ministro da Educação Milton Ribeiro disse que priorizava pedidos dos pastores sob orientação de Bolsonaro.

Os pastores Arilton Moura e Gilmar Santos negociavam, desde o início de 2021, a liberação de recursos federais da Educação com prefeitos, mesmo sem cargo no governo. Ambos foram presos em 22 de junho, assim como Milton Ribeiro, um ex-assessor do MEC e o genro de Arilton —todos acabaram soltos no dia seguinte.

A Polícia Federal apura o escândalo e, na Justiça, o caso foi submetido para o STF (Supremo Tribunal Federal) após indícios de que Bolsonaro haveria interferido nas investigações e avisado seu ex-ministro da possibilidade de operação contra ele.

O pastor Arilton esteve 30 dias no Palácio Planalto entre 2019 e fevereiro de 2022. Entretanto, somente cinco visitas dele no local ocorreram após 7 de janeiro de 2021, data do email em que a Casa Civil busca intermediar o encontro no MEC. Em 10 de fevereiro de 2021, os religiosos organizaram uma agenda no

MEC com a presença de cerca de 40 prefeitos.

O protagonismo dos pastores na organização desse encontro dentro do MEC foi confirmada à CGU (Controladoria-Geral da União) pela então chefe do cerimonial do MEC. Bolsonaro compareceu a esse encontro com os pastores no ministério. A interlocutores o pastor Arilton diz que foi ele quem convidou o presidente para essa agenda sob a promessa de que reuniria um número considerável de prefeitos​, o que foi atendido por Bolsonaro.

Pessoa de confiança de Bolsonaro, Braga Neto respondeu pela Casa Civil entre fevereiro de 2020 e março de 2021, quando assumiu o Ministério da Defesa. Ele deixou a pasta em março deste ano sob a expectativa de ser o vice de Bolsonaro nas próximas eleições.

O escândalo do MEC envolvendo os pastores abriu uma crise no governo meses antes da eleição que Bolsonaro tenta se reeleger. O episódio fez com que o presidente mudasse o discurso de que não há corrupção no governo. Após dizer que "botava a cara no fogo" por Ribeiro, Bolsonaro declarou que o ex-ministro é que deveria responder por seus atos.

Uma CPI para investigar o balcão de negócios do MEC foi instalada pelo presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG) nesta semana. Mas, após pressão do governo e acordo com líderes partidários, foi combinado que os trabalhos só começam após as eleições.

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